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Green Technologies
01 de Julho de 2017 Maurício Emerenciano
Bioflocos – onde tudo começou?

O interesse nos cultivos de bioflocos é crescente e a coluna “Green Technologies” desta edição discorre sobre a origem deste sistema. Não é incomum que produtores de longa data, iniciantes ou até mesmo futuros investidores do setor se questionem sobre os primórdios dos cultivos BFT. Afinal, onde tudo começou?

Contrariando muitas hipóteses, os cultivos utilizando a tecnologia de bioflocos iniciaram na década de 70 na França, mais precisamente na Polinésia Francesa, em um centro de pesquisa chamado IFREMER, localizado na paradisíaca ilha do Taiti. Multinacionais norte-americanas em colaboração com o time francês chamado de AQUACOP aplicaram esta tecnologia para diversas espécies como o camarão tigre Penaeus monodon, camarão branco do Pacífico Litopenaeus vannamei e o camarão azul L. stylirostris, muito apreciado naquela região e pelo mercado francês.

Os primeiros testes foram a nível de pesquisa no IFREMER (avaliando aspectos de engorda, microbiológicos e reprodutivos), mas também a nível comercial na ilha e em território norte-americano. Uma fazenda de destaque chama-se Sopomer, localizada no Taiti. Essa fazenda, com tanques de concreto de 1000 m², chegou a produzir 20-25 toneladas/ha/ ano, um recorde para o setor naquele momento.

 

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Passados alguns anos, final da década de 80 e início dos anos 90, o Waddell Mariculture Center nos EUA (com camarões marinhos) e Instituto Tecnológico de Israel (com tilápias) também iniciaram suas pesquisas. Entre os motivos que impulsionaram as pesquisas naquelas regiões estão a limitação/custos de terras, questões ambientais e escassez de água. Em termos comerciais algumas merecidas considerações devem ser feitas. Além da Sopomer do Taiti, outro exemplo ímpar é a fazenda Belize Aquaculture, localizada em Belize, América Central. No início dos anos 2000 após investimento do Banco mundial na ordem de 150 milhões de dólares, a fazenda de camarões que operava no modelo tradicional foi toda transformada em uma fazenda de bioflocos com trocas de água limitada e toda recoberta com geomembrana. O sistema de aeração era misto composto por aeradores do tipo injetores e de pás, em viveiros com cerca de 1,6 ha com 1,2- 1,5 m de profundidade.

Algo inovador era o manejo microbiano utilizando melaço, “grain pellets” (ou pellets de grãos) e relação C:N alta para fomentar microrganismos heterotróficos. Este conceito logo se expandiu e fazendas na Tailândia, e posteriormente, Malásia, Indonésia, China e Vietnã iniciavam seus testes e aplicavam comercialmente o conceito BFT. Vale recordar que o conceito sobre manejo microbiano preconizado pelo sistema de bioflocos possui diversas variantes, o que originou atualmente diversas outras nomenclaturas como sistemas mixotróficos, entre outros. Hoje países como México, Equador, Peru e mais recentemente Brasil estão amplamente utilizando tal tecnologia em ao menos uma fase de produção de L. vannamei.

Tratando-se de fazendas do tipo “indoor” (hiperintensivas em estufas) destaque para a fazenda chamada Marvesta, no nordeste americano. Fundada em 2002 a produção local de camarões tem um mercado certo: a alta gastronomia da vizinha cidade de Nova Iorque, EUA. Hoje este conceito se expande por todo EUA e também Europa.

No Brasil, os primeiros impulsos foram dados no Rio Grande do Sul com tilápias e camarões. Um divisor de águas certamente foram os avanços realizados e divulgados pelo Projeto Camarão, liderados pelo pesquisador Wilson Wasielesky da Universidade Federal do Rio Grande (FURG). Os avanços em pesquisa impulsionaram pequenas fazendas naquele estado e posteriormente também em Santa Catarina. Logo após o sistema “ganhou asas” no nordeste brasileiro, bem como outras regiões como centro- oeste e sudeste que também vem aplicando o sistema em escala comercial.

Devido a questões associadas a escassez de água, proximidade do mercado consumidor e/ ou biossegurança algo é certo: muitas histórias ainda serão contadas sobre este sistema que certamente veio para ficar!

 

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Maurício Emerenciano

Maurício Emerenciano é graduado em Zootecnia (UEM), mestre em aquicultura (FURG) e doutor em Ciências pela UNAM (México). Em 2014 foi ganhador da Medalha Alfonso Caso (menção honrosa designada às melhores teses e dissertações dos Programas de Pós-Graduação da UNAM/México). Atua na aquicultura desde 2002 e como pesquisador já realizou cooperação científica em diversos centros de pesquisa como Waddell Mariculture Center (EUA), CSIRO (Austrália) e IFREMER (França). Foi consultor científico em aquicultura para o governo do Chile, do México e Polinésia Francesa (Pôle d’Inovación de Tahiti). Membro do Biofloc Technology Steering Committee (AES), voltado a ações científicas e tecnológicas referentes ao sistema BFT. Possui capítulo de livro referência mundial da tecnologia de bioflocos (Biofloc Technology - The practical guide 3rd edition). Já proferiu mais de 20 cursos e diversas palestras sobre tecnologias “mais verdes” de produção para produtores, indústria e academia no México, Brasil, Chile e Colômbia. Atualmente é professor e pesquisador da Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC), campus Laguna/SC, onde coordena projetos de pesquisa vinculados ao setor público e privado.

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Charge Edição nº 11 Publicado em 01/04/2018
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