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Biotecnologia de algas
01 de Janeiro de 2017 Roberto Bianchini Derner
Poderá o concentrado substituir a produção local (On-site) de microalgas?

Muitos dos animais produzidos em aquicultura dependem das microalgas para sua nutrição. Reconhecidamente, a quantidade de microalgas consumida (tanto cultivadas quanto provenientes do ambiente natural) é muito maior do que a quantidade de pescado produzido, levando em conta o somatório da produção mundial de peixes, camarões e de moluscos. Desta forma, as microalgas não devem ser consideradas meramente como alimentos naturais, mas sim como um setor de produção e, na verdade, o maior em volume.

Geralmente, maior atenção tem sido dada à produção de microalgas na etapa de larvicultura destes animais, uma vez que, em nível comercial não é possível a substituição das microalgas por alimento artificial, sob pena de redução dos índices (parâmetros) zootécnicos (sobrevivência, ganho em peso, resistência à doenças, etc.). Para suprir esta demanda, os laboratórios de larvicultura precisam desenvolver seus próprios cultivos de microalgas (produção local ou “on-site”), sendo que, diversas questões devem ser consideradas: o setor de produção de microalgas implica num grande investimento em infraestrutura; tem elevado custo de operação, considerando a necessidade de mão de obra especializada e os insumos, bem como, os sistemas de baixíssima produtividade; a produção das culturas pode ter variações em volume (épocas do ano, contaminação etc.) e na qualidade da biomassa (estado fisiológico das células, valor nutricional); além disso, nem sempre a produção das culturas de microalgas está alinhada à demanda, assim, ora faltam microalgas, enquanto noutros momentos as culturas são desperdiçadas. Cabe esclarecer que, quando menor o laboratório mais complicada e dispendiosa será a produção local de microalgas.

 

 

Diversos laboratórios em outros países têm empregado concentrados (ou pasta) de microalgas como uma alternativa, ou de forma complementar, à produção “on-site”. Visando esta demanda, algumas empresas oferecem estes concentrados como um produto comercial: InstantAlgae® e EasyAlgae®, por exemplo. Estes produtos têm sido empregados, principalmente, no cultivo de larvas e juvenis de moluscos, na larvicultura de camarões marinhos, e na produção de organismos forrageiros (copépodes, rotíferos e artêmia) para uso na alimentação de larvas de peixes marinhos.

Na literatura internacional, diversos estudos dão conta de que o emprego da pasta de microalgas não causa redução nos índices zootécnicos em comparação ao uso das culturas (frescas) de microalgas. Mesmo assim, alguns pontos devem ser considerados: existe uma demanda por parte dos laboratórios brasileiros, entretanto, a aquisição depende de importação, ou seja, não existe produção comercial no Brasil e, por falta de regras de importação e de conhecimento dos órgãos fiscalizadores, muitas vezes o produto fica retido na alfândega e/ou sob condições inadequadas de conservação; outro fato que desestimula o uso das pastas são as altas taxas de importação, tornando a aquisição do concentrado inacessível para muitos produtores. Assim, são raros os laboratórios nacionais que têm alguma experiência no uso deste produto.

Visando suprir esta lacuna, no Laboratório de Cultivo de Algas da UFSC estão sendo desenvolvidas pesquisas relacionadas aos processos de produção, de armazenamento e de utilização da pasta de microalgas. Inicialmente, as pesquisas têm como objetivo o desenvolvimento de um pacote tecnológico para a produção da pasta da microalga Nannochloropsis oculata, que é uma espécie amplamente usada em laboratórios de larvicultura de peixes marinhos, entretanto, outras espécies já estão sendo avaliadas.

A produção da pasta de microalgas tem algumas limitações, como o emprego de sistemas de cultivo de baixa produtividade (como os tanques), o que dificulta a separação das células algais do meio de cultura, seja pela baixa eficiência, como pelo elevado consumo de energia, demanda de mão de obra, etc.

Para a obtenção da pasta, as culturas podem ser concentradas de diferentes formas: centrifugação, filtração e floculação, por exemplo; sendo que somente a centrifugação é aplicada comercialmente.

Além disso, alguns floculantes, apesar da eficiência no processo de separação, são potencialmente tóxicos para os organismos que serão alimentados. Quanto à estocagem (tempo de prateleira), a pasta de microalgas pode apresentar variações na composição bioquímica e, consequentemente, perda na qualidade nutricional. Com o tempo, e/ou má conservação, pode haver proliferação microbiana e degradação dos compostos, principalmente dos ácidos graxos poli-insaturados, carboidratos e proteínas.

Assim, faz-se necessária uma série de estudos focada na produção e na conservação da pasta de microalgas, a fim de desenvolver conhecimento sufi ciente para a produção de um produto nacional. Esta matéria contou com a colaboração do acadêmico Rafael Sales, doutorando do PPGAQI/UFSC.

 

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Roberto Bianchini Derner

Biólogo, Mestre em Aquicultura e Doutor em Ciência dos Alimentos pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Pesquisador e Gerente do Setor de Microalgas do Laboratório de Camarões Marinhos da UFSC entre 1989 e 2006. Atualmente é professor no Departamento de Aquicultura e supervisor do Laboratório de Cultivo de Algas (LCA). Coordena diversos projetos de pesquisa na área de recursos pesqueiros e engenharia de pesca/biotecnologia, com ênfase em aquicultura/algocultura - cultivo de microalgas para a produção de compostos bioativos (pigmentos, ácidos graxos, polissacarídeos etc.), biocombustíveis (biodiesel, bioetanol etc.) e tratamento de efluentes líquidos e gasosos.

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