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Ranicultura
17 de Fevereiro de 2020 Andre Muniz Afonso
Detalhes que fazem a diferença na baia de acasalamento

Prezados leitores, recebi uma foto de uma baia de acasalamento de um novo ranicultor (figura 1), acompanhada de algumas dúvidas e resolvi aproveitar este espaço para discuti-los baseando-me na própria foto, para ser mais didático e esclarecedor. Apenas para recordar, é importante dizer que, o Setor de Reprodução de um ranário é dividido em duas áreas: Mantença, composta por baias semelhantes à engorda, onde machos e fêmeas são manejados e ficam separados até que estejam aptos a acasalar; e Acasalamento, composto por uma única baia de acasalamento coletivo, com piscinas de acasalamento (motéis), próprios para a desova das rãs.

É possível ver, com clareza, que o produtor construiu quatro motéis, que drenam seu conteúdo por meio de tubos (ladrões) em direção a um pequeno lago e este, por sua vez, para um açude num nível mais baixo. Em contato com o produtor, o mesmo nos informou que a baia tem 9,10 m x 5,30 m; cada motel 1 m x 1 m (1 m²), com 20 cm de profundidade, sendo que um deles tem 0,7 m x 1 m; e o pequeno lago tem 3, 30 m x 3 m com profundidade média de 25 cm. A expectativa é de que o pé-direito seja de 2,70 m. Não havia previsão para telhado, apenas seria colocada uma tela para evitar a entrada de pássaros e telas plásticas nas laterais.

 

 

De maneira geral, recomenda-se que os motéis tenham pelo menos 1m² de área, de preferência construídos com uma rampa de acesso que chegue até o fundo, não possuam cantos vivos, para facilitar a sua higienização e tenham 20 cm de profundidade (no manejo são usados 15 cm de altura útil). Essas medidas fazem com que a desova possa ser melhor espalhada na superfície do motel, de maneira que não exista sobreposição de ovos e os mesmos possam ter melhor oxigenação, uma vez que a albumina secretada pela fêmea os mantém o mais próximo da superfície possível. Que tenham espaçamento de pelo menos 50 cm das paredes e entre si, de forma a afetar o mínimo possível a territorialidade de um macho que já tenha selecionado um local para dominar e esperar a fêmea para o acasalamento. Isso diminui as disputas excessivas, que podem resultar em perdas por mortes ou lesões que inutilizam o reprodutor.

Modificações propostas:

  1. a) com relação aos motéis, recomenda-se que sejam refeitos, aproveitando-se melhor o espaço ocioso ao redor, principalmente avançando em direção às paredes laterais, já que a área escolhida permite essa modificação. Inclusão de uma rampa de acesso individual e ralos exclusivos, que drenem para uma tubulação única com controle externo em nível mais baixo, tipo caixa de passagem (sistema anti-fuga com redes de retenção), podendo ser utilizada para coleta de ovos e limpeza bruta. A ideia do produtor era que a água fosse constantemente renovada, sendo despejada, no final, no açude, onde ele cria peixes. No entanto, a desova de rãs-touro é feita em ambiente lêntico, uma vez que seus girinos são criados em corpos d’água perenes e de água parada, tendo maior tempo de crescimento do que boa parte dos anfíbios anuros;
  1. b) com relação ao pequeno lago interno, recomenda-se que, pelo seu maior tamanho, sejam colocados dois ralos para drenagem, com tubulação de coleta externa nos mesmos moldes dos motéis. Pode-se construir uma rampa aproveitando-se toda uma lateral ou boa parte dela, ou mesmo algumas pequenas rampas de acesso, uma vez que nessa área existe a tendência de aglomeração de animais. Outra sugestão é que sejam construídos mais motéis nesse local, substituindo-se esse pequeno lago, podendo chegar a um número bem mais expressivo do que apenas quatro, já que o cálculo de povoamento para este tipo de baia inclui 1 macho por motel. A tendência é que numa área grande dessas se coloquem apenas 4 machos e 8 a 12 fêmeas, um desperdício de área e investimento;
  1. c) com relação a estrutura em geral, recomenda-se que as paredes sigam até 2,3 m numa lateral (pé-direito) e a cumeeira tenha 2,5 m na outra (meia-água). A cobertura pode ser de lona plástica translúcida, de modo a deixar passar o máximo de luz possível, desde que revestida por tela sombrite de 70 ou 80%. É recomendável que sejam colocados fios de arame liso por debaixo da lona de modo a evitar a formação de poças, por ocasião de chuvas. Nas paredes, podem ser deixados recortes nos tijolos para a instalação de janelas rebatíveis (madeira ou PVC), usadas para controlar a temperatura interna. Em locais mais quentes, também recomenda-se a instalação de exaustores ligados a termostatos, de modo a manter a temperatura interna entre 25 e 29 °C, preferencialmente. No interior podem ser instaladas lâmpadas frias em diversos pontos para controle do fotoperíodo 12:12 ou 14:10 (luz:escuro) e dispersores de água, para manter a umidade relativa do ar igual ou maior que 80%;
  1. d) a área deve ser toda gramada e a colocação de plantas com folhas de grande sombreamento é bem-vinda (ex. jiboias), por reduzir a temperatura da água dos motéis, que não deve ultrapassar os 28 °C.

É importante frisar que não importa o tamanho ou o desenho da baia de acasalamento, ela deve conter os elementos e as configurações necessárias ao bom funcionamento da reprodução das rãs e o manejo deve ser fácil, assim como a sua higienização. A pergunta que deve perseguir o produtor é: estou mimetizando as condições de primavera/verão?*

* Informações complementares na coluna “Primavera e reprodução: casamento perfeito” (2016). Disponível em: http://www.aquaculturebrasil.com/2016/11/10/primavera-e-reproducao-casamento-perfeito/

 

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Andre Muniz Afonso

Formado em Medicina Veterinária pela Universidade Federal Fluminense (UFF/2000), com mestrado em Medicina Veterinária (Área de concentração: Patologia e Reprodução Animal-UFF/2004) e doutorado em Medicina Veterinária (Área de concentração: Higiene Veterinária e Processamento Tecnológico de Produtos de Origem Animal-UFF/2016). Desde 2009 é professor da Universidade Federal do Paraná (UFPR), no Setor Palotina (Palotina/PR), sendo responsável pelas disciplinas de Tecnologia do Pescado, Ranicultura e Análise Sensorial de Alimentos e Bebidas, bem como pelo Laboratório de Ranicultura (LabRan-UFPR). Tem experiência na produção, beneficiamento, industrialização e sanidade de organismos aquáticos, tendo atuado em diversos órgãos voltados a esta temática. Atua principalmente nos seguintes temas: Processamento e Inspeção Higienicossanitária de Produtos de Origem Animal, Vigilância Sanitária, Aquicultura, Sanidade Aquícola e Extensão Rural.

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