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Tratamento e reuso de água na aquicultura
27 de Abril de 2024 Katt Regina Lapa
Explorando a relação entre saneamento aquícola e a produção de moluscos: uma perspectiva prática

 

 

Autoras: Eliziane Silva e Katt Regina Lapa

Pensando em saneamento aquícola, foco da nossa coluna, vamos tratar nesta edição de conhecer como o saneamento aquícola está intimamente relacionado à produção de moluscos.

Antes de adentrarmos ao objetivo, gostaria de informar que o assunto de hoje será dividido com a Eliziane, minha amiga e colega de trabalho. Desse modo, deixo o espaço para ela se apresentar.

Que alegria estar aqui com vocês, uma honra! Prazer, sou a Eliziane Silva, Engenheira de aquicultura formada pela Universidade Federal de Santa Catarina, com mestrado e doutorado em Aquicultura pela mesma instituição. Já trabalhei com diagnóstico de enfermidades virais em camarões, com biologia reprodutiva em peixes, projetos de engenharia para aquicultura, cursos EAD para as Ciências Agrárias, entre outras atividades. Atualmente, estou como professora colaboradora na Universidade do Estado de Santa Catarina, o qual leciono para os cursos de Engenharia de Pesca e Ciências Biológicas.

 

Dra. Eliziane Silva, engenheira de aquicultura. Foto: acervo pessoal.

Quando falamos da produção aquícola, estamos falando que a produção destes organismos, sejam eles peixes, crustáceos, moluscos ou algas, acontecerá no meio aquático. Neste sentido, precisamos compreender que a qualidade da água a qual os organismos são expostos irá influenciar diretamente a qualidade de consumo destes animais. Pois bem, para o cultivo de moluscos, isso não é diferente, e neste contexto devemos ter uma atenção especial para estes organismos, pois tratamos de animais filtradores que se alimentam de partículas disponíveis na água.

Vamos fazer uma reflexão… Se a qualidade das águas onde os moluscos forem cultivados não estiver adequada, consequentemente não teremos moluscos de qualidade adequada para consumo, concorda?

Além disso, um aspecto importante para pensarmos é a própria questão da sustentabilidade na malacocultura. O quão sustentável é este tipo de atividade? Bom, você tem conhecimento que não ofertamos alimento (ração) para estes animais, já falamos que eles consomem apenas as partículas disponíveis no ambiente. Dessa forma, podemos dizer que o cultivo de moluscos é sustentável, correto? Sim, até certo ponto. Vamos conversar sobre isso!

 

Aparato experimental para avaliação de velocidade de sedimentação. Foto: acervo pessoal.

Ostras, mexilhões e vieiras são organismos que buscam seu alimento na água, filtrando-a. Mas este processo é seletivo, ou seja, durante a filtração da água pelas brânquias, esses animais conseguem selecionar as partículas que desejam ingerir para sua alimentação. Através da sua estrutura de brânquias e com o auxílio dos palpos labiais, as partículas selecionadas são ingeridas, metabolizadas e os resíduos desse processo são eliminados na forma de fezes. Por outro lado, partículas presentes na água que passam pelas brânquias desses moluscos e não são selecionadas para a alimentação recebem uma substância, denominada de muco, a qual permite agregar essas partículas para que possam ser liberadas no ambiente. O conjunto de partículas não ingeridas agregadas por muco chamamos de pseudofezes (pseudo, justamente por serem fezes falsas, as quais não passaram pelo sistema digestório). Fezes e pseudofezes formam os biodetritos ou biodepósitos.

As fezes e pseudofezes geradas pelos moluscos são liberadas no ambiente e influenciam diretamente em diferentes aspectos ambientais: servem de alimento para outros organismos; são levados por determinadas distâncias de acordo com a velocidade das correntes; acumulam-se no sedimento; atuam diretamente sobre os ciclos de carbono, nitrogênio e fósforo, tanto na água quanto no sedimento marinho; entre outros aspectos. Assim, precisamos compreender que o fato de não ofertarmos alimento para os moluscos é uma grande vantagem em questão ambiental, pois estamos evitando a sobra de ração no ambiente, a qual prejudicará a qualidade de água. Contudo, ainda assim, o cultivo de moluscos contribui com liberação de cargas de fezes e pseudofezes no meio aquático que atua diretamente sobre o ambiente. E você vai me questionar: os moluscos do ambiente natural já geram estas cargas, por que então temos que falar sobre os animais de cultivo?

 

 

Quando inserimos moluscos em estruturas de cultivo, estamos concentrando um número muito maior de animais quando comparado aos ambientes naturais e consequentemente, gerando carga de fezes e pseudofezes maior que aquela gerada pelos organismos que existiam naquele local naturalmente. Logo, podemos pensar… De que forma avaliamos a influência dos cultivos de moluscos sobre o ambiente aquático?

A resposta para a pergunta acima é: conhecendo as características físicas e químicas das fezes e pseudofezes geradas pelas espécies de moluscos. Este foi o tema de uma recente pesquisa que geramos no Laboraratório de Sanidade de Organismos Aquáticos (AQUOS) em parceria com o Laboratório de Moluscos Marinhos (LMM) da Universidade Federal de Santa Catarina, contando com a participação de alunos, técnicos e professores, bem como com a atuação em conjunto com pesquisadores da EPAGRI. O estado de Santa Catarina é o principal produtor de moluscos no Brasil, com 95% da produção nacional, destacando-se quatro espécies: a ostra do Pacífico Crassostrea gigas, o mexilhão Perna perna, a vieira Nodipecten nodosus e a ostra nativa Crassostrea gasar. Destas, o maior volume de produção está nas duas primeiras espécies. O foco do trabalho desenvolvido foi conhecer as características físico-químicas das fezes e pseudofezes do mexilhão e da ostra do Pacífico. Os resultados apontaram a velocidade vertical de sedimentação dos biodepósitos, a taxa de produção e as características químicas em função de carbono, nitrogênio e fósforo das fezes e pseudofezes geradas pelas espécies estudadas nas baías da Ilha de Santa Catarina.

 

Frasco de amostra laboratorial contendo biodepositos ou biodetritos de moluscos. Foto: acervo pessoal.

A produção de biodepósitos é influenciada por diversos fatores como a quantidade e a qualidade das partículas presentes na água, fase de vida dos moluscos, temperatura, salinidade e outras características que influenciam diretamente a fisiologia energética destes animais (capacidade de metabolizar o alimento, transformar em partículas simples e utilizar a energia para seu metabolismo). Assim, a depender do local em que estes organismos estão sendo cultivados, haverá diferenças na produção de fezes e pseudofezes, bem como a velocidade local das correntes de água marinha atuará sobre o transporte para longas distâncias da área de cultivo ou o depósito desse material ocorrerá logo abaixo do mesmo. E agora você vai me perguntar: de que forma esses resultados são relevantes para o cultivo de moluscos pensando de forma prática? Como essa pesquisa pode contribuir com o desenvolvimento da cadeia produtiva de moluscos?

Caracterizar as fezes e pseudofezes de moluscos é fundamental para conhecer a real influência dos cultivos sobre o ambiente. Sabemos que o cultivo de moluscos gera cargas de biodepósitos para o ambiente; mas qual a carga gerada por cada cultivo? Existem poucas informações na literatura. Além disso, há um número reduzido de estudos também acerca das concentrações de carbono, nitrogênio e fósforo das fezes e pseudofezes. Vale ressaltar que essas informações são especialmente dependentes do meio, ou seja, em função do ambiente, das partículas disponíveis presentes nele, o molusco pode aumentar ou diminuir sua produção de fezes e pseudofezes. Além disso, as características das partículas utilizadas na alimentação também irão influenciar as excretas geradas. Para avaliar um local de cultivo, temos de conhecer as características das partículas disponíveis na água do local e observar a produção de biodepósitos dos moluscos cultivados naquele ambiente.

 

Aparato experimental utilizado para coleta de amostras de biodepósitos ou biodetritos. Foto: acervo pessoal.

A determinação das características físico-químicas dos biodepósitos permite que novos estudos possam ser realizados para melhoria da atividade, ou seja, os dados podem ser utilizados para avaliar o ambiente em que os cultivos estão inseridos. Estes resultados serão inseridos em modelos matemáticos que permitem, através de cálculos, gerar simulações ambientais. Na construção destes cenários, é possível considerar diferentes densidades de cultivo, proporções desiguais de espécies e locais de cultivo, além de alterar parâmetros como vento, velocidade de correntes marinhas, salinidade, temperatura e outros que são medidos constantemente. As simulações geradas para cada cenário demonstram resultados aproximados daqueles que podem ser observados no ambiente. Por este motivo, a utilização de modelos que representem de forma adequada os fenômenos que ocorrem no ambiente são fundamentais para avaliar os cultivos de moluscos, discutir e buscar desenvolvimento da atividade tendo em vista uma análise ampla com dados reais do ambiente.

 

 

Retomando a questão da sustentabilidade, os cultivos de moluscos podem ser realmente mais sustentáveis quando comparados às atividades tradicionais de aquicultura, mas demandam a avaliação do ambiente de cultivo e das condições ambientais do entorno do mesmo. Quando estabelecemos cultivos de moluscos em regiões com pouca movimentação das correntes marinhas, é necessário estar ciente do possível acúmulo de detritos orgânicos liberados pelos moluscos. Esse acúmulo pode resultar, ao longo do tempo, em um aumento na quantidade de sedimentos no ambiente. Por isso, é fundamental realizar pesquisas para avaliar a capacidade de assimilação do ecossistema, promovendo o avanço responsável da atividade e a conservação dos habitats aquáticos.

Se você quiser aprender um pouco mais acerca do assunto discutido, venha conhecer nossos trabalhos publicados:

Tese da aluna Eliziane Silva - https://tede.ufsc.br/teses/PAQI0688-T.pdf

Artigo publicado - https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0144860923000729

Além disso, estamos disponíveis para contato:

Eliziane Silva

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E meu currículo acadêmico está no Lattes: http://lattes.cnpq.br/8201219435558816   

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Capa do colunista Katt Regina Lapa
Katt Regina Lapa

Engenharia Civil (FURB-Blumenau-SC), com mestrado e doutorado em Engenharia Hidráulica e Saneamento (EESC-USP-São Carlos-SP, pesquisando tratamento de águas residuárias. Possui pós-doutorado em modelagem numérica ambiental pelo Instituto Superior Técnico da Universidade de Lisboa em Portugal.

Atualmente é professora associada da Universidade Federal de Santa Catarina dos cursos de graduação em Engenharia de Aquicultura e pós-graduação em Aquicultura.

Realiza pesquisa e extensão nas áreas de: sistemas de recirculação para aquicultura, modelagem hidrodinâmica, tratamento de efluentes aquícolas, impactos ambientais dos cultivos no ambiente e dos ambientes nos cultivos.

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Charge Edição nº Publicado em 18/09/2023
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