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Sanidade Aquícola
15 de Setembro de 2022 Marcela Maia Yamashita
Acantocefalose - Já temos uma solução?

 

 

 

Os acantocéfalos são vermes pertencentes ao filo Acanthocephala que, em sua fase adulta, parasitam o trato gastrointestinal dos peixes. Por muitos anos, a enfermidade causada por este parasito, denominada Acantocefalose, não constituía grande perigo aos cultivos do nosso país, no entanto, com o passar dos anos e o aumento da produção de espécies nativas, principalmente do tambaqui (Colossoma macropomum), esta situação mudou. Atualmente, os acantocéfalos são causa de preocupação principalmente para os produtores da região Norte do Brasil, que cultivam tambaquis e seus híbridos, pirarucus ou matrinxãs. O primeiro relato oficial desta parasitose em peixes cultivados foi em 2001, em tambaquis, no estado do Amazonas. Desde então, o número de registros foi aumentando, atingindo cultivos comerciais de outros estados, como: Rondônia, Roraima, Amapá, Mato Grosso e Maranhão. Acredita-se que a origem desta infecção foi advinda de animais selvagens, uma vez que os acantocéfalos foram inicialmente descritos de peixes de vida livre, porém, a disseminação entre os cultivos de diferentes estados brasileiros deva ter sido facilitada pelo transporte de formas jovens portadoras deste parasito. Aliado à isto, a intensificação dos cultivos, associada à um manejo inadequado da qualidade da água e ao não emprego de práticas de manejo sanitário, podem ter agravado ainda mais a situação.

Como na grande maioria das doenças que afetam os peixes, os sinais clínicos desta enfermidade não são específicos e, para serem notados, os parasitos devem estar presentes em grandes quantidades, causando desta forma, oclusão parcial ou total do intestino. Esta condição interfere na passagem do alimento no trato gastrointestinal, prejudicando sua absorção e digestão, o que naturalmente reduziria o desempenho produtivo e retardaria o crescimento dos peixes. Além disso, o produtor poderia ainda notar: redução no consumo da ração, desnutrição, caquexia e morte dos peixes.

A espécie de acantocéfalo descrita parasitando tambaquis, se chama Neoechinorhynchus buttnerae. Este parasito está entre os três principais agentes causadores de enfermidades nos cultivos de tambaqui, sendo os outros dois: o crustáceo Perulernaea gamitanae e o protozoário Piscinoodinium pillulare; ambos já abordados nessa coluna (edição 22 e 23, respectivamente).

 

 

 

 

De ciclo de vida bastante complexo, envolvendo na maioria das vezes o peixe como hospedeiro definitivo e um artrópode (microcrustáceo pertencente ao zooplâncton) como hospedeiro intermediário, acredita-se este ser o principal motivo pelo qual é tão difícil combater os acantocéfalos nos cultivos. Pensando de maneira simples, uma das formas de combater este parasito seria interromper o seu ciclo de vida. No entanto, para isto seria necessário eliminar o hospedeiro intermediário (membro do zooplâncton), o que poderia acarretar em um desequílibrio no viveiro e, por consequência, na qualidade da água, o que poderia ser ainda pior pensando no bem-estar dos peixes.

Neste momento da leitura, você deve estar se perguntando: “Tudo bem, tudo isso eu já ouvi falar. Mas existe uma solução para este problema?”. Bem, para o tratamento desta parasitose ainda não dispomos de um medicamento liberado no Brasil, sendo baixa a diversidade de anti-helmínticos que dispomos para uso em aquicultura no nosso país. No entanto, o que temos observado à campo, é o uso off-label de diversas moléculas, sendo o grupo dos benzimidazóis (ex: mebendazol) o mais utilizado por apresentar rápida eficácia. Aqui cabe lembrar que, a utilização destes produtos nos cultivos deve ser cautelosa, uma vez que possuem efeitos tóxicos e biocumulativos nos peixes que, chegarão ao consumidor final. Por isto, muitas pesquisas tem sido conduzidas na busca por tratamentos alternativos, porém igualmente eficazes e sem efeitos nocivos aos peixes, consumidor final e ambiente. Neste sentido, extratos vegetais com compostos bioativos, como os óleos essenciais, vêm sendo avaliados no tratamento da acantocefalose porém, seu uso em larga escala não é algo ainda consolidado no setor produtivo.

 

Sendo assim, a palavra-chave para evitar esta parasitose nas pisciculturas ainda seria a prevenção. A adoção de uma correta desinfecção dos viveiros antes do início de um novo ciclo de produção, principalmente em tanques que anteriormente apresentaram problema com este parasito, assegurará a eliminação de seus ovos, que poderiam permanecer viáveis quando do repovoamento dos tanques. O “vazio sanitário” de no mínimo um ano (ou seja, 01 ciclo de produção) com o cultivo de uma outra espécie de peixe que não seja a espécie –alvo do parasito, também é uma medida preventiva que tem sido adotada por alguns produtores da região Norte e tem apresentado bons resultados. Este parasito é espécie-específico, ou seja, N. buttnerae parasita somente determinada espécie de peixe, desta forma, cultivar outra espécie interromperia seu ciclo de vida. Além disso, evitar a introdução de animais contaminados nas pisciculturas é uma das principais medidas preventivas pois, acredita-se que esta seja a principal porta de entrada deste parasito nos cultivos.

Aqui chamo atenção para a importância da exigência de laudos sanitários dos fornecedores de formas jovens ou adultos. Ou, quando isto não for possível, a realização de exames diagnósticos dos lotes de animais que adentram a piscicultura. É muito comum tanto para compradores quanto para fornecedores, não abordarem este assunto. Sendo necessária uma mudança de postura de ambos os lados: laudos sanitários atestam a saúde dos peixes e agregam valor ao produto, ao mesmo tempo que trazem segurança à quem os adquire.

Desta forma, no caso da acantocefalose, uma vez que o tratamento ainda não está bem definido, a adoção de medidas preventivas é altamente recomendada às produções.

 

 

 

 

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Marcela Maia Yamashita

Engenheira de Aquicultura, Mestre e Doutora em Aquicultura e Recursos Pesqueiros pela Universidade Federal de Santa Catarina. Durante a vida acadêmica trabalhou com Sanidade de Organismos Aquáticos, fazendo uso da microbiologia, biologia molecular e utilização de aditivos alimentares como ferramentas no diagnóstico de enfermidades e promoção da saúde em peixes de água doce. Profissionalmente, atuou durante dois anos como responsável técnica por setor de Microbiologia e Biologia Molecular em laboratório veterinário. Atualmente, é proprietária da HelpFish – Sanidade Aquícola, empresa localizada na cidade de Sinop/MT, que presta Assistência em Sanidade à campo, além de contar com laboratório de diagnóstico próprio para doenças infecciosas em peixes, recebendo amostras de todo país.

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Charge Edição nº 22 Publicado em 28/07/2021
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