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04 de Julho de 2022 Maurício Emerenciano
Berçário de tilápias em bioflocos: por que esta abordagem ainda não deslanchou?

Entrevista com os pesquisadores Dr. Gabriel Martins da Unipampa (e-mail: martins.aqua@gmail.com) e Dr. Anselmo Miranda-Baeza da Universidade Estadual de Sonora (UES), México (e-mail: anselmo.miranda@ues.mx). Ambos com ampla experiência na pesquisa e aplicação comercial da tecnologia de bioflocos para tilápias.

 

A literatura científica atual e experiências a campo já demonstraram diversos benefícios da tecnologia de bioflocos para a tilapicultura, tais como (i) economia de recursos (água e ração); (ii) flexibilidade nas formulações das rações (diminuição dos níveis proteicos ou substituição de ingredientes nobres); (iii) ferramenta de manejo para períodos mais frios, além de (iv) impactos positivos na saúde dos animais, atuando como “probiótico natural” inibindo microrganismos patogênicos. Para as fases finais de engorda, na atual conjuntura latino-americana, fica difícil competir com os sistemas tradicionais em termos de custos de produção, mas na fase de produção de juvenis (berçário) esta tecnologia pode sim ter viabilidade econômica, e ajudar os produtores a terem maior previsibilidade e controle neste período tão crítico.

No entanto, é comum escutarmos o discurso: “...o bioflocos ainda não é tão lucrativo/competitivo comparado aos sistemas tradicionais”. Aqui vale uma reflexão. Será que teremos que esperar grandes surtos de doenças para que a indústria comece a olhar com mais atenção as tecnologias de cultivos intensivos protegidos (não somente os bioflocos, mas também o RAS, BioRAS, entre outros)? Ou será que teremos que esperar a “água bater no pescoço” para haver uma real sensibilização? Será que o exemplo da carcinicultura (mancha branca no Brasil e EMS/AHPND ou Síndrome da mortalidade súbita no México), onde os produtores correram contra o tempo e montaram a “toque de caixa” seus berçários intensivos, já não valeu como um belo aprendizado? Claro que existem exceções, mas num contexto geral me parece que ainda estamos um pouco atrasados neste quesito.

 

 

 

 

1. Poderiam descrever brevemente a experiência de vocês com a tecnologia de bioflocos no cultivo de tilápias?

Gabriel: Tenho trabalhado com o sistema de bioflocos desde 2012, quando ingressei no doutorado em Aquicultura (FURG). Nesses 10 anos colaborei na implementação de duas unidades de produção comercial utilizando o sistema de bioflocos, além de contribuir no desenvolvimento da fazenda Acuícola Garza (Mérida, Yucatán, México) e estabelecimento de pesquisas em laboratórios de aquicultura.

Anselmo: No noroeste do México temos trabalhado em colaboração com a empresa Centro Acuícola del Estado de Sonora. Os estudos já realizados demostraram que em condições comerciais é possível produzir alevinos de tilápia com excelente qualidade em sistemas BFT. Além disso, são obtidas economias significativas em água, ração e espaço. Também foi demonstrado que é possível produzir alevinos de Oreochromis niloticus em bioflocos com água de poços salinizados (12 ‰). As respostas produtivas foram semelhantes entre organismos cultivados em água doce e água salobra. Em nossa experiência, em condições comerciais, os alevinos de tilápia se aclimatam rapidamente aos sistemas BFT.

 

2. De uma forma bem genérica, como vocês vêem a evolução dos sistemas de bioflocos para a tilapicultura no Brasil e no México, no âmbito comercial, ao longo dos últimos dez anos?

Gabriel: Em 2012 praticamente não existiam produções comerciais utilizando o sistema de bioflocos para tilápias, embora o sistema já fosse implementado na produção de camarão marinho. Para a piscicultura, inicialmente a perspectiva era de que o sistema fosse amplamente utilizado para a produção de juvenis. Nessa última década essa projeção se confirmou, e em 2022 é possível identificar unidades produtivas utilizando os bioflocos em quase todas as regiões do BR.

Anselmo: Do meu ponto de vista o desenvolvimento é lento. Os produtores e investidores ainda têm dúvidas sobre a rentabilidade dos sistemas BFT. Por outro lado, algumas empresas consideram que é difícil encontrar técnicos capacitados para sua operação. Vários empresários apontam que suas margens de lucro são baixas e, portanto, não correm o risco de modificar seus sistemas de produção. No entanto, sob certas circunstâncias, como escassez de terra e água, os empresários que assumiram o risco estão conseguindo produzir durante todo o ano, de forma lucrativa e em locais onde antes não era possível fazê-lo (em áreas semi-desérticas, por exemplo).

 

3. Qual foi o papel da pesquisa/academia nesta evolução? Existe uma adequada comunicação entre a academia e a indústria?

Gabriel: Principalmente na formação de recursos humanos. Os egressos dos cursos que possuem laboratórios de aquicultura têm colaborado muito com a transferência de tecnologias. Além disso, os cursos ministrados, especialmente pela equipe do Projeto Camarão da FURG, têm possibilitado a disseminação do conhecimento. A comunicação entre os elos envolvidos ainda necessita de maior aproximação, mas com o avanço das atividades de empreendedorismo pelas universidades é possível que essa lacuna seja preenchida.

Anselmo: A comunicação e a articulação indústria-academia não são ideais, existem muitas áreas de oportunidade, porém é necessário mudar a abordagem atual. A abertura em ambas as direções deve aumentar. Uma opção pode ser o desenvolvimento de pesquisas dentro das empresas, em projetos que resolvam problemas específicos. Estes não necessariamente exigem grandes investimentos, uma vez que se utiliza a infraestrutura das empresas e o know-how das universidades ou centros de pesquisa. Na Universidade Estadual de Sonora (UES), há uma pós- -graduação em indústria (Mestrado em Sistemas de Produção Biossustentáveis). É uma modalidade do Conselho Nacional de Ciência e Tecnologia do México que se destina a recursos humanos que trabalham em empresas. As teses são desenvolvidas dentro da indústria e têm como foco a melhoria dos processos produtivos. Nessa modalidade, o compromisso e os benefícios são compartilhados (academia-indústria).

 

 

 

 

 

4. Com especial atenção a fase de berçário, quais as principais barreiras que impedem uma adoção mais massiva por parte dos produtores?

Gabriel: Considero a mão-de-obra qualificada como uma barreira significativa, pois é necessário ter mais pessoas capacitadas para projetar e operar sistemas superintensivos. Além disso, aos poucos tem sido implementadas as diferentes fases na produção (com distintas nomenclaturas: berçário, pré-cria, pré engorda e engorda), reduzindo o uso da estocagem única. Desenvolver essa compreensão irá estimular mais produtores a se especializarem na produção de juvenis. Finalmente, o custo de implementação e produção no sistema de bioflocos tem gerado dúvidas em alguns empreendedores e se torna uma das razões para não termos uma maior utilização do sistema de bioflocos.

Anselmo: Principalmente a falta de conhecimento a nível comercial, além da aversão ao risco dos investidores. Por outro lado, a ligação com a academia deve ser reforçada. A falta de pessoal técnico capacitado também pode ser mencionada. Acredito que as universidades e centros de pesquisa estejam formando recursos humanos com alto potencial, mas ainda são poucas as empresas que produzem no sistema BFT, reduzindo as oportunidades de treinamento, capacitação e transferência de tecnologia.

 

5. Será que estamos vivendo um momento “inicial” da adoção dos bioflocos (ou de outros sistemas intensivos protegidos) nos berçários de tilápias ou realmente já virou cena do passado?

Gabriel: no cenário atual considero difícil fazer uma projeção, pois os custos de produção subiram significativamente. Alguns produtores recuaram e estão trabalhando com produtividades mais baixas em maiores áreas. Em contrapartida, a produção segmentada (com diferentes fases) parece avançar cada vez mais. É bastante provável que a próxima década vá ser caracterizada pelo enorme crescimento do sistema de bioflocos. Não considero que estamos em um momento inicial, pois já existem informações suficientes sobre a viabilidade técnica do sistema de forma comercial.

Anselmo: Acredito que à medida que os recursos se tornarem mais escassos, os sistemas de produção de tilápias tenderão a evoluir. Os sistemas protegidos têm garantido resiliência e previsibilidade em outras áreas de produção de alimentos (horticultura, aves, suínos etc.). Mesmo com relativos altos custos de produção, eles ainda são rentáveis pois ganharam escala. Além disso, são mais biosseguros, podem minimizar o impacto ambiental e reduzir o uso de recursos naturais, gerando uma boa imagem diante dos consumidores.

 

6. Por gentileza, deixem suas considerações finais aos leitores da Aquaculture Brasil.

Gabriel: A produção segmentada com diferentes fases já é uma realidade na piscicultura, onde os produtores têm aumentado a eficiência pela aplicação desse conceito. Nesse sentido, nos próximos anos veremos cada vez mais produtores especializados em realizar berçário, principalmente utilizando o sistema de bioflocos. Esse sistema possibilita a utilização de uma área reduzida, pouco volume de água para renovação, menores taxas de conversão alimentar, além de estabilidade da qualidade de água e controle sanitário. Os empreendedores que almejam competitividade a médio e longo prazo, certamente estão analisando o uso deste sistema.

Anselmo: Convido os produtores a explorarem mais a produção de alevinos em sistemas BFT. Dependendo da realidade e clima da região, as fazendas, com a assessoria adequada, podem produzir alevinos maiores em períodos mais curtos, agilizando todo o processo produtivo.

 

 

 

 

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Maurício Emerenciano

Maurício Emerenciano é graduado em Zootecnia (UEM), mestre em aquicultura (FURG) e doutor em Ciências pela UNAM (México). Em 2014 foi ganhador da Medalha Alfonso Caso (menção honrosa designada às melhores teses e dissertações dos Programas de Pós-Graduação da UNAM/México). Atua na aquicultura desde 2002 e como pesquisador já realizou cooperação científica em diversos centros de pesquisa como Waddell Mariculture Center (EUA), CSIRO (Austrália) e IFREMER (França). Foi consultor científico em aquicultura para o governo do Chile, do México e Polinésia Francesa (Pôle d’Inovación de Tahiti). Membro do Biofloc Technology Steering Committee (AES), voltado a ações científicas e tecnológicas referentes ao sistema BFT. Possui capítulo de livro referência mundial da tecnologia de bioflocos (Biofloc Technology - The practical guide 3rd edition). Já proferiu mais de 20 cursos e diversas palestras sobre tecnologias “mais verdes” de produção para produtores, indústria e academia no México, Brasil, Chile e Colômbia. Atualmente é professor e pesquisador da Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC), campus Laguna/SC, onde coordena projetos de pesquisa vinculados ao setor público e privado.

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Charge Edição nº 22 Publicado em 28/07/2021
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