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Biotecnologia de algas
01 de Junho de 2018 Roberto Bianchini Derner
Cultivo de Macroalgas no Brasil: potencial desperdiçado

Na coluna desta edição vamos mudar um pouco os organismos de interesse, deixando as microalgas e tratando das macroalgas – um grupo de organismos com notável importância social, comercial e ambiental para a aquicultura. O texto a seguir foi desenvolvido pela Dra. Leila Hayashi, professora do Departamento de Aquicultura da UFSC e pelo Dr. Alex Alves dos Santos, pesquisador Centro de Desenvolvimento de Aquicultura e Pesca da EPAGRI.

As macroalgas - com dimensões que variam de alguns milímetros a algumas dezenas de metros - são consideradas mercadorias da aquicultura com grande versatilidade, uma vez que podem ser consumidas in natura ou processadas, com seus produtos empregados para diversas finalidades: desde estabilizantes e agentes espessantes em produtos alimentícios, fármacos, cosméticos, rações e fertilizantes, até produtos biotecnológicos, como filmes biodegradáveis para substituir copos e sacolas plásticas, películas para aumentar o tempo de prateleira de frutas e tintas anti-incrustantes para embarcações.

 

 

 

 

O volume de produção (cultivo) das macroalgas alcança valores importantes nas estatísticas da aquicultura mundial. De acordo com os últimos dados disponíveis da FAO (consulta em: The State of World Fisheries and Aquaculture 2016.), em 2014 a produção (desenvolvida em 50 países, com aumento de 8% ao ano na última década) alcançou 27,3 milhões de toneladas, sendo o maior volume de produção considerando exclusivamente a maricultura. As macroalgas mais cultivadas são: Kappaphycus alvarezii e Eucheuma spp., matéria-prima para extração de carragenana, um colóide amplamente utilizado em diversos ramos da indústria; Saccharina japonica ou “kombu”, utilizada na indústria alimentícia; Gracilaria spp., matéria-prima para extração de ágar, outro colóide de interesse industrial; Undaria pinnatifida ou “wakame” e Pyropia tenera e P. yezoensis ou “nori”, sendo a primeira utilizada na culinária japonesa em saladas (“sunomono”), e as últimas no famoso sushi. Dentre essas macroalgas, apenas algumas são produzidas de forma experimental, artesanal ou em pequena escala no Brasil: Kappaphycus alvarezii no Sudeste e Sul, e Gracilaria no Nordeste. Uma das razões para isso é que as demais espécies são típicas de regiões de clima temperado (águas frias) e sua produção não seria sustentável ao longo do ano no nosso país com clima tropical e subtropical (e águas mais quentes). Mas será apenas esse motivo? Será que o Brasil, com mais de 8.000 km de costa, e com toda sua biodiversidade de macroalgas, não teria potencial para produzir mais espécies, e talvez até novas espécies?

Pesquisas sobre a aplicabilidade das macroalgas estão sendo realizadas com sucesso por diversas instituições brasileiras de pesquisa, e o potencial está sendo descoberto. A maior dificuldade reside na produção de biomassa suficiente para que esses produtos entrem no mercado com um preço competitivo. Dependendo da espécie de alga, uma fase de cultivo indoor é necessária antes dos cultivos em fazendas marinhas. Isso acontece com as espécies de macroalgas de águas frias anteriormente mencionadas. Utilizadas na indústria alimentícia, essas espécies apresentam um maior valor agregado, que equaciona os custos das estruturas de cultivo, sendo economicamente compensador para o produtor. Esta não é a situação das espécies cultivadas no Brasil, cujo cultivo pode ser feito integralmente no mar, sem a fase de laboratório. Além disso, o preço do quilograma da alga seca é mais baixo por ser utilizada para extração de colóides, e não na indústria alimentícia. Existem ainda outros fatores agravantes limitando os cultivos em ambientes marinhos, principalmente devido a toda burocracia para concessão e licenciamento das áreas de cultivo.

 

 

 

 

Considerando esses fatores, qual espécie brasileira teria potencial para cultivo e que fosse economicamente viável para o produtor? Tomando outros países como exemplo, temos um potencial exemplar brasileiro sendo desperdiçado. A produção da Ulva, ou alface-do-mar, já é uma realidade comercial nos países asiáticos há pelo menos 50 anos, e sua produção tem mudado a economia em diversas regiões costeiras de países europeus e latino-americanos. Ulva pode ser consumida fresca, em saladas, mas tem sido agregada a batatas-fritas, snacks, macarrões e pães, devido a suas propriedades nutricionais e sabor agradável. A macroalga Hypnea musciformis foi por muito tempo considerada a correspondente brasileira à espécie introduzida Kappaphycus alvarezii, porém, devido a sua forma fina e quebradiça, a produção massiva em fazendas marinhas é difícil. Vale considerar que ambas as espécies podem ser produzidas em tanques, e talvez essa seja a solução mais interessante.

ais interessante. Outro ponto a ser considerado em aquicultura é que as macroalgas podem auxiliar na diversificação dos cultivos em tanques, através do emprego de sistemas multitróficos integrados. Ao serem cultivadas juntamente com peixes marinhos, moluscos ou camarões, as macroalgas podem absorver parte dos dejetos gerados por estes animais, e usá-los como nutrientes para seu próprio crescimento. Podem ainda servir como aditivos na fabricação de rações, proporcionando melhora na sanidade destes animais. É importante discutir que a aquicultura tem focado seus projetos comerciais em monocultivos, principalmente aqueles de piscicultura, entretanto, talvez seja o momento de pararmos de desperdiçar os outros potenciais produtos que podem diversificar a produção e gerar mais renda aos produtores, a exemplo de outros países que vêm desenvolvendo estruturas de cultivo eficientes e sustentáveis. Em sintonia com essa linha de desenvolvimento de processos aquícolas produtivos, o Estado de Santa Catarina se propôs a realizar no mar o que já faz em terra com sucesso, ou seja, implantar nas fazendas marinhas do Estado o modelo agrário catarinense que é baseado na estrutura familiar de pequena escala, com produção diversificada. As macroalgas marinhas foram consideradas ideais para compor essa proposta de integrar os sistemas de cultivo de moluscos do Estado e, graças aos estudos conjuntos da UFSC com a EPAGRI, a viabilidade ambiental, técnica e econômica do cultivo integrado da espécie inicialmente eleita Kappaphycus alvarezii está sendo estudada em 26 Parques Aquícolas, que totalizam 969,45 ha de área, apresentando uma alternativa de diversificação aos produtores catarinenses.

 

 

 

 

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Capa do colunista Roberto Bianchini Derner
Roberto Bianchini Derner

Biólogo, Mestre em Aquicultura e Doutor em Ciência dos Alimentos pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Pesquisador e Gerente do Setor de Microalgas do Laboratório de Camarões Marinhos da UFSC entre 1989 e 2006. Atualmente é professor no Departamento de Aquicultura e supervisor do Laboratório de Cultivo de Algas (LCA). Coordena diversos projetos de pesquisa na área de recursos pesqueiros e engenharia de pesca/biotecnologia, com ênfase em aquicultura/algocultura - cultivo de microalgas para a produção de compostos bioativos (pigmentos, ácidos graxos, polissacarídeos etc.), biocombustíveis (biodiesel, bioetanol etc.) e tratamento de efluentes líquidos e gasosos.

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