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Navegando na Aquicultura
08 de Setembro de 2021 Rodolfo Luís Petersen
Projeto Cultura da Água: Uma Peregrinação Marinha pela Costa Brasileira divulgando a Aquicultura Sustentável

 

A aquicultura, apesar de ser uma atividade que vem crescendo em média 5,3 % por ano nas últimas décadas, é ainda pouco conhecida de uma forma geral na cultura brasileira. Apesar do crescimento, a maioria da sociedade não está familiarizado com ela, confundindo muito aquicultura com aquarismo. Jornalistas não especializados a criticam como poluente ambiental sem conhecimento técnico. Acadêmicos radicais não apresentam alternativas de manejo, desacreditando-a permanentemente como uma atividade importante de produção de alimentos. Assim como em diversas partes do Brasil e do mundo, a pesca artesanal e industrial enfrenta uma série de dificuldades e conflitos que ameaçam a sua reprodução material e sociocultural, além de colocar os pescadores e empresas em situação de risco e vulnerabilidade. Neste contexto, a Aquicultura tem se tornado umas das atividades de produção de alimentos mais importante do mundo (FAO, 2020). Segundo Valenti (2008), podemos definir sustentabilidade como o gerenciamento dos recursos naturais, financeiros, tecnológicos e institucionais de modo a garantir a contínua satisfação das necessidades humanas para as gerações presentes e futuras. 

Existem na Aquicultura inúmeros desafios ambientais a serem enfrentados, podendo-se destacar, o controle do excesso de efluentes orgânicos e o uso de farinha de peixe na formulação do alimento balanceado (Boyd, 2003). O aprimoramento de tecnologias de zero troca de água com o auxílio de bactérias benéficas, a substituição de proteínas animais por proteínas vegetais na alimentação artificial são alvo de pesquisas importantes em nutrição e qualidade da água. Estes desafios precisam ficar claros para a sociedade já que sempre houve, por ignorância e falta de organização territorial, abusos ocasionados por falta de conhecimento e imediatismo econômico, levando a Aquicultura a possuir uma fama de perturbadora dos ambientes aquáticos. 

Mesmo com o desenvolvimento e crescimento de sistemas superintensivos, onde a água pode ser tratada e reutilizada, a Aquicultura semi-intensiva e extensiva continuará existindo na próxima geração. A conscientização e divulgação de sua importância será relevante para o caminho final de sua transformação, onde a Aquicultura tradicional será substituída totalmente por sistemas que minimizem o uso da água. Lamentavelmente, a sociedade, apesar de os esforços realizados continuamente pelo setor, tem pouco conhecimento do que esta atividade significa. 

 

 

No Brasil, no governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi criado o Ministério de Aquicultura e Pesca (MPA) pela Lei 11.958 de 26 de junho de 2009. A ideia foi tentar enaltecer e promover o crescimento destas atividades de forma sustentável. No início da Aquicultura a nível industrial, a força de trabalho técnico científica era oriunda de disciplinas como Agronomia, Zootecnia, Oceanografia, Veterinária e Biologia. Com o crescimento a nível mundial, cursos específicos de Engenharia de Aquicultura foram criados. Nossa experiência pessoal como pesquisadores e professores universitários indica que os jovens entram na graduação em Aquicultura sem saber nem entender o que esta atividade significa, muito menos seus familiares e a população de uma forma geral. Esforços para reverter este quadro continuam prioritários para o desenvolvimento de uma atividade saudável e sustentável, além de formar profissionais capacitados e evitar o esvaziamento dos cursos.

O objetivo geral do projeto “Cultura da Água” é divulgar a aquicultura marinha na costa brasileira, sendo seus objetivos específicos: interagir com atores do setor produtivo e gestores públicos procurando parcerias na divulgação da atividade, obter material de ensino através da realização de visitas e entrevistas in loco, realizar campanhas de divulgação no âmbito da sociedade, e visitar escolas promovendo aulas e palestras.   

As atividades de divulgação e de obtenção de material de ensino serão realizadas por terra e por mar. A Aquicultura é uma atividade que precisa de água de extrema qualidade para ser sustentável ao longo do tempo. Na maioria das vezes, fazendas de camarões, peixes e moluscos, estão localizadas em áreas de difícil acesso terrestre ou de acesso somente por meio aquático. Um dos diferenciais inovadores do projeto é acessar unidades de produção aquícola desde o MAR, com o auxílio de uma embarcação de pequeno porte (laboratório flutuante) propulsionada a vela e energeticamente autossuficiente, possibilitando a pernoite dos tripulantes. Construído artesanalmente em Florianópolis (SC) no ano 2015, o projeto desta embarcação foi selecionado pela ampla navegabilidade em áreas rasas, assim como pela possibilidade de entrada por estreitos canais, barras e rios, podendo chegar a comunidades e centros de produção aquícolas isolados. Suas caraterísticas estruturais e baixo calado permitem aproximar-se as áreas de mangue de difícil acesso por outras embarcações, permitindo também o arribo a terra em qualquer praia. Seu desenho chama a atenção e é sempre bem-vindo pelas comunidades locais de pescadores artesanais, interessados no método e local de construção, identificando-a rapidamente como não sendo uma embarcação de turismo e lazer. O barco tem a peculiaridade de não possuir ferragens e a amarração de seus cascos, mastro e leme é toda feita com cordas PET de material reciclável. Esta embarcação já vem sendo usada para campanhas de pesquisas de campo na Bahia de Paranaguá-PR desde sua construção. A tripulação das campanhas será formada por professores, estudantes da UFPR ou estagiários externos de cursos de Engenharia de Pesca e de Engenharia de Aquicultura. Acreditamos que esta abordagem alternativa será uma ferramenta técnica e de marketing crucial para atingir o público e a mídia, e desta forma, alcançar os objetivos do projeto. Também poderá ser utilizada como uma ferramenta de pesquisa, possibilitando a obtenção de amostras de água das fontes onde a mesma está sendo utilizada.  Espera-se colocar nosso grão de areia na educação da população geral sobre o significado da Aquicultura, assim como contribuir para a divulgação dos cursos de Engenharia de Aquicultura no Brasil, evitando esvaziamento e potencializando os recursos investidos. 

 

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Capa do colunista Rodolfo Luís Petersen
Rodolfo Luís Petersen

Zoólogo, Mestre em Aquicultura pela Universidade Federal de Santa Catarina e Doutor em Genética e Evolução pela Universidade Federal de São Carlos (SP). Pesquisador e Gerente do Setor de Maturação do Laboratório de Camarões Marinhos (UFSC) desde 1990 até o ano 2001. Em 2003 trabalhou no Departamento de Genética da AQUATEC e desde janeiro de 2004 até dezembro de 2006 foi Gerente de Produção e Diretor Técnico do Laboratório Estaleirinho (Balneário Camboriú/SC). Como professor da UNISUL (Universidade do Sul de Santa Catarina), trabalhou em genética de peixes em parceria com a Piscicultura Panamá (Paulo Lopes/SC), entre 2006 e 2009. Atualmente trabalha como professor e pesquisador no curso de Engenharia de Aquicultura de Centro do Estudo do Mar (CEM/UFPR) e coordena o GECEMar (Laboratório de Biologia Molecular e Melhoramento de Organismos Aquáticos) da Instituição.

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Capa quando o cão pastor é de um produtor de peixes
quando o cão pastor é de um produtor de peixes
Charge Edição nº 22 Publicado em 28/07/2021
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