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Sanidade Aquícola
26 de Agosto de 2021 Marcela Maia Yamashita
Perulernaea gamitanae: parasito importante para a criação de peixes redondos no Brasil

Caros leitores, gostaria de começar agradecendo à Aquaculture Brasil pela confiança em mim depositada. Como leitora desta revista, me sinto honrada com o convite de me tornar colunista para tratar do tema: Sanidade. Uma proposta um tanto quanto desafiadora e de muita responsabilidade, mas também uma rica oportunidade para trocarmos conhecimentos e informações, dentro de um tema de tamanha importância para a aquicultura. Bem, sou Engenheira de Aquicultura de formação, mestre e doutora nesta mesma área. Trabalho com sanidade de organismos aquáticos, desde minha formação acadêmica até o momento, como profissional deste segmento. Possuo um laboratório de diagnóstico de enfermidades para peixes, localizado na cidade de Sinop-MT, e presto consultoria em sanidade. Com as colunas, pretendo abordar assuntos pertinentes à esta temática, que possuam relevância para o setor, e que agreguem na construção de uma aquicultura que se preocupa com medidas de biosseguridade e com bem-estar dos animais cultivados. Desejo que façamos desta leitura, uma bela troca de experiências.

 

A espécie Perulernaea gamitanae foi primeiramente relatada parasitando tambaquis cultivados no estado do Amazonas em 1999, porém, atualmente constitui-se um dos parasitos de maior importância também para outras espécies de peixes redondos cultivados no país. 

Pertencente ao subfilo Crustacea e subclasse Copepoda, este ectoparasito é facilmente visualizado no peixe devido ao seu tamanho que varia entre 01 e 02 cm de comprimento. Conhecido como “verme-âncora” devido ao formato anterior de seu corpo que se assemelha à uma âncora, o parasito utiliza-se desta estrutura de ganchos para penetrar o tegumento do peixe e se fixar. O local de fixação do parasito provoca lesões hemorrágicas e inflamação, facilitando o desenvolvimento de infecções secundárias causadas por bactérias e fungos, relativamente comuns em peixes infestados por estes crustáceos. 

Importante dizer que esta parasitose não é uma zoonose (doença transmitida ao ser humano). Outro fato interessante a se comentar é que somente as fêmeas de Perulernaea gamitanae parasitam os peixes, enquanto os machos são de vida livre. Sendo assim, somente a fêmea possui o formato característico de “verme-âncora”. Após a cópula, que acontece na água, as fêmeas fertilizadas encontram um hospedeiro definitivo (peixe) e sofrem metamorfose, adquirindo tal forma característica. Cada fêmea possui um par de sacos ovígeros e liberam aproximadamente 300 ovos na água, os quais após uma série de transformações (de náuplios à copepoditos), copularão novamente, fechando seu ciclo de vida que tem duração aproximada de 13 dias.

 

 

Por ser parasito de mucosas, P. gamitanae geralmente é encontrado parasitando a cavidade oral, boca, língua, região faríngea, cavidade opercular, brânquias e narinas. Em infestações massivas, podem chegar a ocupar toda a boca do animal, impedindo sua alimentação e consequentemente trazendo prejuízos à produção. Além disso, sua presença nos peixes causa repulsa ao consumidor devido ao aspecto repugnante que traz ao pescado, dificultando a comercialização do peixe inteiro. Justamente uma das  formas mais vendidas dos peixes redondos nas feiras livres da Região Norte do país.

Aqui vale ressaltar a manifestação clínica diferenciada deste parasito quando presente na tambatinga, que já configura-se como o principal híbrido das espécies de peixes redondos produzidos nas regiões Norte e Centro-Oeste do Brasil. A preferência se deve ao seu melhor desempenho produtivo e rendimento de carcaça, quando comparado ao tambaqui e ao tambacu. Este híbrido, resultado do cruzamento entre a fêmea do tambaqui e o macho da pirapitinga, parece sofrer mais com parasitismo por P.  gamitanae visto que, este ectoparasito causa uma resposta inflamatória acentuada, apresentando edema das regiões oral e faríngea. Em infestações massivas, a região pode ficar tão inchada que, em alguns casos, observa-se deformação da língua dos peixes, o que obviamente dificulta sua alimentação, prejudica seu crescimento e pode levá-los à um quadro de caquexia (perda de peso acentuada) e, consequentemente, à morte. Já no tambaqui, esta parasitose não se apresenta de forma tão severa, e não é observada uma resposta inflamatória tão intensa; o que não significa que não cause prejuízos ao cultivo desta espécie.

 

 

A redução da alimentação observada nos peixes acometidos por P.  gamitanae leva à uma outra problemática: a dificuldade de tratamento. Vários são os produtos quimioterápicos usados no controle das parasitoses para peixes e, na sua grande maioria, são utilizados de maneira “off-label” ou seja, seu uso ainda não está aprovado para aquicultura. 

Em geral, existem duas formas de administração destes produtos: via oral (tratamento adicionado à ração) e banho de imersão. Neste sentido, pensando em uma situação de avançada infestação, onde o animal já não se alimenta adequadamente, a via de tratamento oral ficará comprometida e muitas vezes não será possível, restando somente o banho de imersão, o qual, dependendo do sistema de cultivo utilizado na piscicultura e da dimensão dos tanques, se torna mais oneroso e inviável do ponto de vista econômico. 

Desta forma, e tendo em vista que poucos são os fármacos registrados para o tratamento desta parasitose no Brasil, deixo a reflexão sobre a importância da prevenção não somente deste, como de outros parasitos que acometem os peixes cultivados. A aquisição de alevinos de produtores idôneos, que atestem o estado sanitário dos seus animais; a utilização de tanques de quarentena quando do recebimento de formas jovens e o não aproveitamento da água de transporte são algumas medidas de biosseguridade para evitar a introdução de parasitos na propriedade.

 

 

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Marcela Maia Yamashita

Engenheira de Aquicultura, Mestre e Doutora em Aquicultura e Recursos Pesqueiros pela Universidade Federal de Santa Catarina. Durante a vida acadêmica trabalhou com Sanidade de Organismos Aquáticos, fazendo uso da microbiologia, biologia molecular e utilização de aditivos alimentares como ferramentas no diagnóstico de enfermidades e promoção da saúde em peixes de água doce. Profissionalmente, atuou durante dois anos como responsável técnica por setor de Microbiologia e Biologia Molecular em laboratório veterinário. Atualmente, é proprietária da HelpFish – Sanidade Aquícola, empresa localizada na cidade de Sinop/MT, que presta Assistência em Sanidade à campo, além de contar com laboratório de diagnóstico próprio para doenças infecciosas em peixes, recebendo amostras de todo país.

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Charge Edição nº 22 Publicado em 28/07/2021
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