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Green Technologies
07 de Fevereiro de 2020 Maurício Emerenciano
Vibriose em camarões marinhos – um desafio mundial

Tendo em vista a grande repercussão e o crescente interesse sobre o tema, a coluna Green Technologies dessa edição traz na íntegra a recente matéria publicada no site da Kona Blue assinada por Maria Angélica Reis, William Bauer e o titular dessa coluna.

Dentre os mais diversos microorganismos patogênicos existentes no meio aquático, as bactérias do gênero Vibrio estão entre as principais causadoras de mortalidade na carcinicultura em todo o mundo. Os víbrios são um tipo de bactéria em forma de bastonetes curvos (como uma vírgula). São bacilos gram-negativos, altamente móveis e podem crescer em condições ricas em oxigênio dissolvido ou nula. Já foram identificadas 147 espécies de víbrios, e é possível que ainda existam muitas outras a serem descobertas. Felizmente a maioria não é capaz de causar enfermidades em camarões, apesar de alguns serem capazes de promover grandes prejuízos na carcinicultura e dizimar produções rapidamente. A maioria são oportunistas e infectam animais já enfraquecidos por estresse (por exemplo má qualidade de água) e/ou outros vírus e parasitas.

As vibrioses podem se manifestar de diferentes formas, como a vibriose entérica (causando alterações no intestino), vibriose cuticular (com lesões externas melanizadas), hepatopancreatite, opacidade muscular (facilmente confundida com IMNV – Infectious Myonecrosis Virus ou Vírus da Necrose Muscular Infecciosa) e a vibriose sistêmica. Importante frisar que nem sempre o animal apresenta externamente a característica azulada ou luminescente. O método de análise de carga de víbrios mais comum é a contagem do número de colônias presentes na água e também nos próprios animais. Para tal, é realizado o plaqueamento em meio de cultura seletivo para víbrios chamado ágar TCBS - Tiossulfato-Citrato-Bile-Sacarose. É um meio de cultura seletivo para bactérias desse gênero, e que normalmente formam dois tipos diferentes de colônia, verdes e amarelas. Um equívoco comum entre muitos aquicultores é relacionar a cor da colônia à patogenicidade. Essa prática deve ser tomada com cautela uma vez que ainda não foi totalmente elucidada pela ciência. Outros métodos de identificação incluem testes laboratoriais bioquímicos ou moleculares.

As principais causas dos surtos de Víbrios estão relacionadas as grandes entradas de nutriente no sistema, seu acúmulo (seja na coluna de água ou no solo) e sua capacidade de remediação. Neste sentido prevenir este acúmulo e remover quando necessário são práticas cruciais, para assim mitigar o impacto de enfermidades (principalmente a famosa EMS – sigla em inglês de Early Mortality Syndrome, causada pelo V. parahaemolyticus). Um método essencial de controle é a inibição por competição, realizada pela adição na água de probióticos. As bactérias probióticas adicionadas competem pelos substratos (tanto na água quanto no trato gastrointestinal dos camarões), não deixando “espaço” para os víbrios patogênicos se desenvolverem. Há ainda a utilização de ácidos orgânicos e óleos essenciais que atuam reduzindo o pH do trato (inibindo a proliferação do patógeno) e estimulando o sistema imunológico dos animais, respectivamente. Ainda é necessário que os carcinicultores entendam que o estresse ambiental e nutricional, além da genética dos animais, desempenham papéis importantes na resistência dos camarões a esses microorganismos. A região da produção e suas características como a carga ambiental desse patógeno também desempenham um papel importante. Por exemplo, em uma região caracterizada por cultivos intensivos no Sul do Vietnã, em uma amostragem feita no mês de julho de 2019 (período chuvoso) num raio não maior que 10 km, mais de 80% das amostras realizadas entre canais, rios e bacias de decantação, apresentavam altas contagens de Víbrios incluindo os causadores da EMS. Todo cuidado é pouco quando o assunto é esse vilão da carcinicultura.

*Colaboração: Maria Angélica Reis e William Bauer (Kona Blue Aquacultura).

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Maurício Emerenciano

Maurício Emerenciano é graduado em Zootecnia (UEM), mestre em aquicultura (FURG) e doutor em Ciências pela UNAM (México). Em 2014 foi ganhador da Medalha Alfonso Caso (menção honrosa designada às melhores teses e dissertações dos Programas de Pós-Graduação da UNAM/México). Atua na aquicultura desde 2002 e como pesquisador já realizou cooperação científica em diversos centros de pesquisa como Waddell Mariculture Center (EUA), CSIRO (Austrália) e IFREMER (França). Foi consultor científico em aquicultura para o governo do Chile, do México e Polinésia Francesa (Pôle d’Inovación de Tahiti). Membro do Biofloc Technology Steering Committee (AES), voltado a ações científicas e tecnológicas referentes ao sistema BFT. Possui capítulo de livro referência mundial da tecnologia de bioflocos (Biofloc Technology - The practical guide 3rd edition). Já proferiu mais de 20 cursos e diversas palestras sobre tecnologias “mais verdes” de produção para produtores, indústria e academia no México, Brasil, Chile e Colômbia. Atualmente é professor e pesquisador da Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC), campus Laguna/SC, onde coordena projetos de pesquisa vinculados ao setor público e privado.

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Charge Edição nº 11 Publicado em 01/04/2018
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