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Atualidades e Tendências da Aquicultura
01 de Janeiro de 2019 Fábio Rosa Sussel
Pesquisa-se o que interessa ao pesquisador, e não ao setor produtivo

Regra geral o que se vê são publicações que levaram anos (um baita contrassenso em tempos modernos) de trabalho árduo, redigidos num impecável inglês e publicados em revistas de alto “impacto”. Exceto algumas revistas científicas de notório impacto, reconhecidas publicamente, tipo Nature, eu como pesquisador científico ainda tenho dificuldade para compreender o que realmente significa este tal fator de impacto.

Impacto pra quem? Pra qual setor? Qual a contribuição efetiva disso para o bem da humanidade? Pesquisa-se, com financiamento público, o que dá publicação e não o que realmente interessa ao setor produtivo. É explicito que a linguagem utilizada nos artigos é toda voltada para outro pesquisador ler. Até por que, somente o seleto grupo de pesquisadores renomados publicam nas tais revistas de alto impacto, as quais são fechadas a grande parte da sociedade. Há exceções? Sim, é fato que há. Poucas, mas tem.

 

 

Do que adianta ter uma vasta lista de publicações científicas se o setor produtivo desconhece a importância dos achados científicos de determinado pesquisador. No caso da produção de organismos aquáticos, se a Peixe BR ou a ABCC ou a Peixe SP nunca ouviram falar ou desconhecem as efetivas contribuições que um pesquisador renomado no meio acadêmico tem deixado ao setor, algo de errado tem. Ou será que estas entidades não têm condições de julgar quais são as reais demandas do setor produtivo?

“-Ah, mas é que eu faço pesquisa de base.” Ou então a clássica frase: “-A sociedade não valoriza, não reconhece a importância da pesquisa científica.” Desculpas esfarrapadas e proporcionalmente levianas à capacidade intelectual de quem pensa assim. Não é obrigação da sociedade entender a complexidade de uma pesquisa de base e muito menos interpretar e tirar conclusões do linguajar científico utilizado. Quem tem obrigação de COMUNICAR-SE com a sociedade é o pesquisador! Até porque é a sociedade quem banca este profissional. E não só por isto. O ser estudado e que se considera “evoluído” perante o resto da sociedade é o tal do pesquisador. Então é obrigação dele se COMUNICAR com a sociedade.

Quer mais um absurdo? Os salários dos pesquisadores/professores são pagos pela sociedade, as pesquisas são financiadas com dinheiro público e os melhores resultados são publicados em revistas fechadas, que cobram cifras consideráveis para permitir acesso aos artigos publicados (Tem ainda os passeios em congressos internacionais com todas as despesas pagas, mas nem vou citar aqui para evitar a indignação do setor produtivo). Ou seja, a sociedade que bancou a realização destas pesquisas simplesmente não tem acesso livre aquilo que financiou. Afinal, pesquisa-se pra quem?

Isto configura-se numa clássica situação de aprisionamento de conhecimento! Conhecimento tem que ser disponibilizado e não aprisionado. Mas qualquer cidadão pode ir até uma biblioteca de Universidade e acessar estes artigos! Sim, mas esta biblioteca utilizou recursos públicos para ter direito ao acesso destes artigos. Além do mais, em tempos modernos, o cidadão comum deveria ter o livre direito de acessar isto em qualquer internet.

Se por questões científicas este modelo e esta estrutura deve ser mantida, OK. Mas o conhecimento gerado precisa, de alguma forma, ser disponibilizado a sociedade. Ou seja, deveria ser obrigação do pesquisador comunicar-se não somente com seu seleto grupo de colegas por meio de vossos artigos científicos, mas também com o cidadão comum, através de uma linguagem simples e compreensível ao setor produtivo. Ou, melhor ainda, transformando os achados científicos em soluções perante as demandas do setor produtivo. Afinal, é este quem banca os salários e as pesquisas.

Porém, a questão é que não há interesse por parte dos pesquisadores que a sociedade saiba e tenha conhecimento do que efetivamente ele está pesquisando. Afinal, ele pesquisa o que dá publicação e não exatamente para atender às demandas da sociedade. Ao tornar público o que realmente pesquisam, permitirá que a sociedade conclua que em torno de 70% do que foi publicado não serviu para absolutamente nada.

As pesquisas deveriam ter como premissa o atendimento de demandas do setor produtivo. A partir disso, o pesquisador é que teria que se virar nos 30” para encontrar o que dá publicação. E não o contrário. Atualmente, pesquisa-se o que dá publicação..... o setor produtivo é que se vire para encontrar alguma utilidade naquilo que foi publicado. Há exceções? Sim, há! Mas... regra geral é procurar um delineamento ou um assunto que simplesmente dê publicação.

Por muito tempo o setor produtivo aguardava ansiosamente por soluções tecnológicas vindas da academia. Porém, os tempos são outros. Atualmente, é gritante o descompasso entre academia e setor produtivo. Simplesmente as coisas se inverteram, já que é notório a quantidade de novas tecnologias que partem da iniciativa privada. Quer uma constatação prática? A edição deste ano da AquiShow, em parceria com as revistas Aquaculture Brasil e Seafood Brasil, lançaram o prêmio Inovação Aquicola. De todos os cases inscritos para concorrer, 66% são iniciativas do setor privado. Será que os pesquisadores estão tão ocupados com suas pesquisas que não tiverem tempo para inscrever seu cases ou é a iniciativa privada a grande responsável pelas novas tecnologias junto ao setor produtivo?

No caso específico da produção de organismos aquáticos, o setor produtivo tem meia culpa nisso. Atualmente já temos associações e entidades devidamente respaldadas e com autonomia para cobrar maior objetividade e aplicabilidade dos trabalhos científicos.

“-Mas Fábio, vc como pesquisador científico está jogano contra seus colegas?” Nããããoooo, muito pelo contrário! Contra fatos não há argumentos! É urgente a necessidade de se reinventar o modo de fazer pesquisa, bem como a postura do pesquisador perante a sociedade. Afinal, o ser estudado, titulado e, portanto, flexível a mudanças é o pesquisador. Pelo contrário, seus cargos não durarão por muito tempo.

 

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Capa do colunista Fábio Rosa Sussel
Fábio Rosa Sussel

Fábio Sussel é Zootecnista formado pela Universidade Estadual de Maringá, possui mestrado em nutrição de peixes pela UNESP de Botucatu e doutorado, também em nutrição de peixes, pela USP de Pirassununga. Pesquisador Científico em Aquicultura do Instituto de Pesca de São Paulo (em licença temporária). Especialista em proteína aquática, com ênfase na produção comercial de lambari e produção de camarão marinho em água salinizada. Idealizador e primeiro apresentador do programa AquaNegócios da Fish TV. Apresentador do Canal #VaiAqua do Youtube.

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Charge Edição nº 11 Publicado em 01/04/2018
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