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Cultivo de Camarões
13 de Abril de 2020 Aquaculture Brasil
Utilização do sistema simbiótico em berçário de camarões marinhos

A Síndrome da Mancha Branca é uma das principais enfermidades responsáveis por grandes perdas econômicas no setor da carcinicultura, sendo o Vírus da Síndrome da Mancha Branca (WSSV) o principal causador, caracterizado por poder infectar camarões desde as larviculturas às fazendas de engorda, resultando em altas taxas de mortalidade no período de três a dez dias após o surgimento dos primeiros sinais clínicos (Lightner et al., 1996).

Visando reduzir os surtos causados por esta doença e em busca de uma maior biosseguridade alguns empreendimentos realizaram modificações estruturais e no manejo ao longo dos ciclos produtivos (Lightner et al., 2012), passando a adotar estratégias que possibilitem um maior controle das variáveis de qualidade de água, além do adensamento na estocagem dos animais, gerando maior aproveitamento das áreas de cultivo para elevar os índices de produtividade. Dentre os métodos empregados podemos citar: o tratamento térmico (utilização de estufas) (McAbee et al., 2003), a adoção de produção de juvenis (berçários) (Browdy et al., 2017), redução na troca de água, minimizando a possibilidade da entrada de patógenos, e a utilização de fertilizações a base de carbono para controle dos compostos nitrogenados (Samocha et al., 2017).

Porém, o aumento nas densidades de estocagem está intrinsicamente ligado a uma maior demanda de utilização de ração comercial, e consequentemente, a um aumento da necessidade de manejo dos compostos nitrogenados nos sistemas aquícolas. A utilização de fertilizantes a base de carbono rgânico é um método eficaz no ontrole da amônia dissolvida na água (Samocha et al., 2017). Esta é uma das diretrizes utilizadas nos sistemas intensivos com mínima troca de água, que além de propiciar uma melhora na qualidade de água dos cultivos, possibilita um incremento nos índices de desempenho zootécnico, como a redução no fator de conversão alimentar e o aumento do peso médio final (Luis-Villaseñor et al., 2015; Lorenzo et al., 2015), benefícios decorrentes de um maior aproveitamento dos nutrientes dissolvidos, através da conversão destes em biomassa microbiana, a qual poderá servir como fonte de alimentação suplementar aos animais. Entretanto, a manutenção de elevadas relações C:N, decorrente de sucessivas fertilizações orgânicas propicia um aumento nas concentrações de sólidos sedimentáveis nos ambientes de cultivo, podendo causar o entupimento das brânquias dos animais, aumento no consumo de oxigênio e a deterioração da qualidade da água (Schveitzer et al., 2013). Além disso, a combinação entre o excesso de matéria orgânica na água e as altas temperaturas, podem tornar o ambiente de cultivo favorável a proliferação bacteriana (Vieira et al., 2009). 

Determinadas comunidades bacterianas são integrantes essenciais em sistemas com reduzida troca de água, sendo estas responsáveis pela remoção de compostos nitrogenados tóxicos disponíveis na água (Ebeling et al., 2006; Samocha et al., 2017), os quais em elevadas concentrações podem ser prejudiciais aos animais ocasionando até mesmo a morte destes (Ray et al., 2011). Além disto, atuam como biorremediadores, essas comunidades podem ter uma ação probiótica (Ferreira et al., 2015), favorecendo os camarões através de benefícios nutricionais e imunológicos.

Apesar de existirem poucos estudos que descrevam a utilização do sistema simbiótico na aquicultura, este sistema vem sendo utilizado em algumas fazendas comerciais, decorrente da necessidade de um sistema que apresente um maior equilíbrio e um menor aporte de carbono, aumentando assim, a possibilidade da implementação de cultivos intensivos em viveiros de maiores dimensões (Kawahigashi, 2018). Dentre as características inerentes a este sistema têm-se: uma distribuição mais homogênea entre as bactérias heterotróficas e nitrificantes (possibilitando a formação de flocos bacterianos e a remoção do nitrogênio residual do sistema), a estimulação do fitoplâncton e zooplâncton (aumentando a disponibilidade de alimento natural para os animais) e a redução na carga orgânica (Romano, 2017; Kawahigashi, 2018). O resultado caracteriza-se por concentrações reduzidas de sólidos suspensos e uma maior estabilidade quanto aos compostos nitrogenados em comparação aos sistemas intensivos (Romano, 2017; Kawahigashi, 2018).

O bokashi é um processo fermentativo realizado por microorganismos (probióticos) sobre um substrato vegetal ou animal (prebióticos) (Collins e Gibson, 1999; Romano et al., 2018). Esta fermentação controlada de farelos de cereais como o arroz ou o trigo com o emprego de microrganismos possibilita a quebra de moléculas orgânicas complexas em moléculas mais simples, tornando assim disponíveis quantidades balanceadas de micro e macronutrientes (Soto, 2003). A fermentação desses farelos pode resultar na formação de três ácidos orgânicos: o ácido láctico, acético e butírico (Ciani et al., 2013), os quais acarretam a redução do pH no bokashi ao longo do processo fermentativo.
Essa mistura de probióticos e prebióticos, chamada de simbióticos, pode fornecer possíveis efeitos sinérgicos para o cultivo de camarões marinhos.

Diante disso, o presente estudo objetivou avaliar a influência da fermentação anaeróbica e aeróbica de farelo (arroz e trigo) e melaço no desempenho zootécnico do camarão marinho na fase de berçário, apresentando neste manuscrito alguns resultados parciais.

 

 

Material e Métodos

Foram realizados cultivos experimentais no Laboratório de Maricultura Sustentável (LAMARSU) da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE), com duração de 35 dias. Previamente aos cultivos, foi realizada a fertilização inorgânica utilizando uréia (4,5 g/m³ N), superfosfato triplo (0,45 g/m³ P) e silicato de sódio (0,23 g/m³ Si), posteriormente, iniciou-se a fertilização orgânica para maturação da água por meio da utilização de fermentado constituído de farelo de trigo e/ou arroz e melaço de cana de açúcar (Bokashi) (Figura 1).

Durante os experimentos, o fermentado foi adicionado a cada dois dias nas unidades experimentais com sólidos sedimentáveis inferior a 10 mL L-1. A fertilização durante o cultivo foi realizada com fermentado composto por farelo de trigo ou de arroz (10 a 22,5 g/m³), melaço de cana de açúcar (1 a 12 g/m³), bicarbonato de sódio (2 a 4,5 g/m³) e mix de bactérias Kayros Ambiental (0,5 g/m³), contendo Bacillus subtilis, B. licheniformis, Saccharomyces sp., Pseudomonas sp. e Lactobacilus sp. em um total de 5,5x107 a 7,7x108 UFC/g. Após a mistura dos insumos iniciaram-se os processos de fermentação anaeróbica (24 a 48 horas), em seguida, o a fermentação aeróbica (24 horas), com
correção do pH para níveis próximos à 7, através da adição de bicarbonato de sódio.

Quarenta e oito unidades experimentais (40 L de volume útil), foram povoadas com pós-larvas (pL10-12) da espécie Litopenaeus vannamei na densidade de 2.500 a 3.000 PL/m3. As alimentações foram realizadas com ração comercial (45% de proteína bruta, 9,5% extrato etéreo, 13% umidade, 9,5% fibra bruta, 4,0% material mineral, 2,0% cálcio, 3,0% de fósforo) quatro vezes ao dia (08, 11, 13 e 16 horas). A taxa de alimentação foi ajustada com base na realização de biometrias semanais de acordo com a estimativa de
consumo e mortalidades.

As variáveis de qualidade de água, oxigênio dissolvido (OD), temperatura, pH e salinidade foram monitoradas diariamente com auxílio de sonda multiparâmetro (YSI MODEL 556 MPS, OHIO, EUA). Os sólidos sedimentáveis (SS) foram mensurados três vezes na semana através do cone Imhoff (Avnimelech, 2012). Semanalmente foram mensurados o nitrogênio amoniacal total (APHA, 2012), nitrito (N-NO2) (Fries, 1971) e a alcalinidade (APHA, 2012).

Para avaliar a contagem de unidades formadoras de colônia (UFC) de Vibrio sp. foram realizadas análises microbiológicas através do método de tubos múltiplos com diluições seriais sucessivas (1:10) de amostras oriundas da água de cultivo através do método de plaqueamento de superfície. O plaqueamento foi realizado (0,1 ml) em Ágar tiossulfato citrato sais de bile (ágar TCBS), com incubação de 24 horas a uma temperatura de 30°C e posteriormente, foram diferenciadas e quantificadas em colônias de acordo com a coloração apresentada no meio de cultura.

Em relação ao desempenho zootécnico dos camarões, ao final dos cultivos os animais foram despescados para determinação do peso médio (g); fator de conversão alimentar (FCA); produtividade (Kg/m³) e sobrevivência (%), de cada unidade experimental.

 

Resultados parciais

As variáveis de qualidade de água no cultivo mantiveram-se entre: oxigênio 5,09 ± 0,20 mg/L, temperatura 30,01 ± 0,22ºC, pH 7,86 ± 0,15, salinidade 30,65 ± 0,93 g/L, nitrogênio amoniacal total 0,36 ± 0,09 mg/L e N-nitrito 1,06 ± 0,54 mg/L, as quais apresentaram-se dentro do recomendado por Samocha et al. (2017) para berçários intensivos (Tabela 1).

A concentração média inicial (UFC/mL) das colônias de Vibrio sp. na água foi de 6,64 x 103 UFC/mL, com proporções de 77,3% de colônias sacarose negativas e 22,7% de colônias sacarose positivas. Ao final dos ciclos de cultivo a concentração média foi 1,19 x 103 UFC/mL, com proporções de 7,1% das colônias sacarose negativas e 92,9 % de colônias sacarose positivas (Figura 2). A elevada carga orgânica presente nos cultivos intensivos favorece o desenvolvimento de Vibrio sp. Prangnell et al. (2016) encontraram quantidades média de Vibrio sp. no cultivo em biofloco entre 11 a 13 x 10³ UFC/mL, com proporções variando de 39% a 55% das colônias sacarose negativas. Embora a legislação não estabeleça parâmetros para os níveis de Vibrio sp. encontrados no sistema de cultivo esses microrganismos representam um problema a produtividade
dos camarões e a segurança alimentar humana (Moreno e Landgraf, 1997; Rebouças et al., 2017).

O desempenho zootécnico dos camarões cultivados durante 35 dias está descrito na Tabela 2. As sobrevivências foram superiores a 90%, o peso médio final foi de 0,73 g e o fator de conversão alimentar médio de 1,07:1, atingindo produtividades de 1,99 kg/m3 (Tabela 2).

A administração combinada de prebióticos e probióticos (simbióticos) e seus efeitos positivos vêm sendo bastante estudados em animais terrestres e na agricultura. Embora o uso deste sistema seja ainda bastante restrito na aquicultura, bons resultados vêm conduzindo o desenvolvimento de protocolos que melhorem a saúde e o desempenho zootécnico de animais aquáticos cultivados (Cerezuela et al., 2011). Esses benefícios também são descritos por autores como Romano et al. (2018), Azevedo et al. (2016) e Hoseinifar et al. (2014), os quais descrevem estudos avaliando a utilização de prebióticos, probióticos e simbióticos em sistemas de cultivo de catfish, tilápia do nilo e esturjão.

No presente estudo, a utilização da fermentação de carboidrato (Simbióticos) para o cultivo de pós-larvas de L. vannamei apresentou efeitos positivos, considerando os parâmetros de desempenho zootécnico como peso final, sobrevivência, FCA e produtividade na fase de berçário, além de servirem como base para pesquisas futuras.

 

Autores: Luis Otavio Brito da Silva¹*, Allyne Elins Moreira da Silva², Danielle Alves da Silva², Elizabeth Pereira dos Santos², Priscilla Celes Maciel de Lima², Rildo José Vasconcelos de Andrade², Suzianny Maria Bezerra Cabral da Silva¹ e Alfredo Olivera Gálvez¹

¹Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE) - Departamento de Pesca e Aquicultura - Recife, PE - *engpescalo@hotmail.com

² Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE) - Programa de Pós-Graduação em Recursos Pesqueiros e Aquicultura - Recife, PE

 

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