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16 de Fevereiro de 2022 Aquaculture Brasil
Piscicultura marinha ornamental: empresa brasileira reproduz o anthias cauda de lira Pseudanthias squamipinnis (Peters, 1855) em cativeiro

 

A espécie anthias cauda de lira Anthias squamipinnis (Peters, 1855) é um peixe recifal que apresenta ocorrência no oceano Pacífico e no Mar Vermelho. Desperta grande interesse dos aquaristas devido a sua intensa coloração e o hábito reprodutivo de formar haréns. São hermafroditas protogínicos da família Serranidae (a mesma do mero e da garoupa-verdadeira) (Allsop & West, 2003). Exemplares desta espécie inicialmente maturam como fêmeas e como resultado de complexas relações sócio-demográficas, algumas fêmeas invertem o sexo para machos. A coloração dos machos é bem distinta das fêmeas, o que facilita a diferenciação sexual. Apresentam desova pelágica, tais como outras espécies de interesse no aquarismo tais como o blue tang (Paracanthurus hepatus) e o yellow tang (Zebrasoma flavences). 

A família Serranidae contribui com 2% do total de peixes marinhos ornamentais comercializados no mundo. Maldivas e Arábia Saudita são os maiores exportadores de Pseudanthias squamipinnis. A comercialização da espécie depende totalmente da captura de exemplares nos recifes de corais. Poucos estudos existem sobre a reprodução da espécie em cativeiro. Ainda existem muitas lacunas no conhecimento para a definição de um “pacote tecnológico” para produção desta espécie, diferentemente, por exemplo, da produção do peixe-palhaço (Amphiprion sp.) e do neon goby (Elacatinus figaro). Cabe ressaltar, entretanto, que estas espécies apresentam desova demersal, cuidado parental e larvas de maior tamanho, reduzindo sobremaneira a dificuldade da larvicultura em cativeiro. Espécies com desova pelágica produzem larvas muito pequenas implicando na utilização de técnicas complexas de larvicultura, uma vez que a metodologia convencional de cultivo de larvas baseada no emprego de rotíferos com primeiro alimento seguido do uso de náuplios de Artemia sp. não se mostra apropriada para estas espécies ornamentais de desova pelágica. 

Os anthias podem formar grupos de mais de 2.000 peixes nas faces dos recifes de coral. Estes grupos são formados por machos territoriais, fêmeas e machos não territoriais. Os machos territoriais realizam performances acrobáticas (natação em “U”) e permanecem o tempo todo defendendo uma área do recife associada a seu harém (Lieske & Myers, 1994; Myers, 1999). Dentre as fêmeas também se estabelece uma hierarquia de dominação por tamanho. Quando o macho territorial morre, a fêmea dominante inverte o sexo, e assume o harém (Popper & Fishelson, 1973; Shapiro, 1988). A mudança de sexo é controlada pela presença ou ausência do macho, que inibe a tendência da fêmea em trocar de sexo através da agressividade de dominação (Shapiro, 1981a). A reversão sexual é completada em duas a quatro semanas quando o macho é removido ou em 170 a 280 dias em grupos onde somente ocorrem fêmeas (Shapiro, 1981b; Sadovy & Shapiro, 1987).

 

Parceria Público-Privado

O Laboratório de Piscicultura Marinha (Lapim) do Instituto de Pesca, em Ubatuba/SP, vem desenvolvendo, desde 2005, estudos sobre o cultivo de peixes marinhos como alternativa ao extrativismo e como instrumento de conservação destes recursos pesqueiros. Mais recentemente, a equipe vem utilizando este conhecimento para aplicação em peixes marinhos ornamentais, visando desenvolver protocolos para produção em cativeiro destas espécies, com o objetivo de contribuir na redução da extração das mesmas na natureza e auxiliar na preservação dos recifes de corais. Em 2020 o Lapim iniciou uma parceria com a empresa Biomarine Aquicultura Ornamental, visando otimizar esforços para o avanço na reprodução de peixes marinhos ornamentais com foco em espécies hermafroditas de elevado valor. 

A Biomarine é uma empresa do ramo de criação de peixes ornamentais marinhos. Encontra-se estabelecida na cidade de São Paulo/SP desde 2018. Vem atuando na produção de diversas espécies marinhas, em especial os peixes-palhaços, e empreendendo esforços para o desenvolvimento de novas técnicas de larvicultura, com foco na produção de novos organismos como alimento (principalmente copépodes) e na diversificação de espécies produzidas em cativeiro. Os esforços da Biomarine já resultaram no isolamento e produção do copépode Bestiolina similis c.f., (Sewell, 1914) e Pseudodiaptomus richardi (Dahl F., 1894). Estas cepas vêm sendo testadas com sucesso na reprodução em cativeiro de algumas espécies de peixes marinhos ornamentais, a exemplo do peixe mandarim Syncyroupus splendidus, neon goby azul Elacatinus evelynae, orquídea dottyback Pseudochromis fridimani entre outras ainda em desenvolvimento.   

Assim, o presente artigo tem o objetivo de descrever a tecnologia utilizada na   reprodução em cativeiro da anthias cauda de lira Pseudanthias squaminipinis, a partir dos esforços dessa parceria público-privada.

 

 

Material e Métodos

Os trabalhos foram conduzidos nas instalações da Biomarine Aquicultura Ornamental entre agosto e novembro de 2021. Os reprodutores de anthias cauda de lira foram adquiridos no comércio especializado, sendo compostos por exemplares maduros em maio de 2021. Foram adquiridos 01 macho e 02 fêmeas, sendo em seguida submetidos ao processo de quarentena por 20 dias com objetivo de evitar a introdução de patógenos, visto que a Biomarine trabalha em sistemas de recirculação de água salgada. Nessa etapa, os exemplares receberam banhos de água doce (3min) e foram mantidos continuamente em difosfato de cloroquina (15mg/L). A observação diária não identificou manifestações sintomáticas de qualquer patógeno ou mortalidade. 

Finalizada a quarentena, os reprodutores foram transferidos para um tanque de reprodução. Este tanque possui um volume de 1.700L, formato circular (com 1,35m de diâmetro e coluna d’água de 1,20m), montado com várias rochas e cascalho ao fundo com objetivo de simular o ambiente natural e oferecer abrigo aos peixes. O sistema é recirculante, com a salinidade mantida em 34, temperatura em 26º C e fotoperíodo 12C/12E (12 horas de iluminação e 12 horas de escuro).

Os reprodutores foram alimentados de três a quatro vezes ao dia. A dieta consistiu no oferecimento de patê congelado (preparado com base em frutos do mar), vôngole (Anomalocardia brasiliana) congelado picado, camarão congelado e ração comercial Tetra Marine flakes. 

 

Primeiras desovas

As primeiras desovas foram observadas cerca de trinta dias após a soltura dos exemplares no tanque de reprodução (Figura 01). Os ovos foram coletados usando um dispositivo cilindricos, com malha de retenção de polyester e abertura de 200 micras, instalado na saída da água do tanque. O coletor é instalado antes da desova, permanecendo por até três horas após a mesma. Os ovos são coletados e imediatamente passam por um processo de limpeza, para separação de impurezas e desinfecção. 

Os ovos de anthias cauda de lira foram coletados entre os dias 31/08 e 01/09 de 2021 e transferidos para o tanque de larvicultura.

 

Larvicultura

O processo de larvicultura foi conduzido com água natural marinha originária do Litoral Norte do estado de São Paulo. Todas as atividades de reprodução e larvicultura da Biomarine são conduzidas com água marinha natural. O tanque de larvicultura consiste em uma caixa d’água de 500L (polietileno azul), com fotoperíodo de 15C/9E fornecido por três luminárias LED de 80w (6000k e 3.500 lux na superfície). A temperatura da água foi mantida em 28,5º empregando-se termostato digital associado a aquecedor (250W) e a salinidade mantida em 33. 

A alimentação das larvas consistiu no fornecimento de náuplios de copépodes Bestiolina simili c.f, que foram obtidos a partir de uma cultura pré-existente na Biomarine. Esta cultura foi constituída em dezembro de 2020 a partir de amostras de zooplâncton naturais extraídas com redes de arrastos no litoral Sul do estado de São Paulo e posterior seleção e isolamento em microscópio estereoscópio (20x). Os náuplios de copépodes foram concentrados no tanque de cultivo de copépodes e selecionados com uso de malha de 80 micra, sendo então, fornecidos às larvas a partir do 3º dia contado a partir da desova. A reposição dos náuplios foi efetivada três vezes ao dia até o 15º dia. O tanque de larvicultura utilizou a técnica de “água verde”, recebendo diariamente a adição de microalgas Tetraselmis sp. com objetivo de manter a qualidade de água, fornecer turbidez e servir de alimento para os náuplios de copépodes. 

Inicialmente o tanque de larvicultura foi preparado utilizando-se de um povoamento simultâneo de copépodes adultos (aproximadamente 1/10mL) e microalgas Tetraselmis sp.. O povoamento simultâneo dos copépodes e microalga foi realizado por ocasião da colocação dos ovos no tanque, tendo como objetivo de que estes copépodes adultos, embora não servissem como presas imediatas, pudessem se reproduzir no tanque ao longo do processo e, assim, fornecer uma quantidade de náuplios em fase n1 às larvas. Essa técnica foi utilizada visando mitigar os efeitos do rápido crescimento dos náuplios de copépodes e a dificuldade de volume de náuplios n1, uma vez que a estratégia de concentração e seleção de náuplios a partir do cultivo oferece baixo percentual de náuplios n1, mesmo com adoção de malha apropriada, em razão da rápida taxa de crescimento da espécie Bestiolina simili sob condições ideais de cultivo. 

Sete dias após a desova (Figura 02) era possível observar expressivo desenvolvimento das larvas, com abertura mandibular, intensa pigmentação corporal e forte resposta de caça às presas (náuplios de copépodes).

Inicialmente, não houve recirculação de água no tanque de larvicultura, o que permitiu o crescimento dos náuplios de copépodes até a fase adulta. Notadamente, esses copépodes adultos e copepoditos tornaram-se o alimento base das larvas após a segunda semana de vida, ao passo que a alimentação, neste estágio, foi migrada para copépodes da mesma espécie, porém selecionados com uso de malha entre 80 a 100 micras. A abertura do sistema recirculante somente foi iniciada após o 15º dia com objetivo de reduzir a carga de alimento vivo excessiva disponível no tanque de cultivo, sendo intensificada a partir do 26º dia (Figura 03).

Nesta larvicultura de anthias cauda de lira não foram utilizados rotíferos. Entendemos que o reduzido tamanho da larva impediria a predação dos rotíferos. A introdução de náuplios de Artemia sp. foi realizada a partir do 30º dia com as larvas já em processo de metamorfose. A utilização de Artemia sp. foi alternada com o fornecimento de náuplios do copépode Bestiolina simili. 

O alimento inerte (ração) foi utilizado após a metamorfose. Inicialmente os juvenis exibiram forte rejeição a qualquer alimento inerte. Esse cenário começou a se modificar quando o alimento inerte foi associado ao zooplâncton congelado Zoo P (Aquasmart). Passadas duas semanas de adaptação, os juvenis aceitavam alimentos inertes (ração Tetra Marine Flakes e Dr. Bassleer Baby Nano), quando então puderam ser disponibilizados para a comercialização.

 

 

Conclusão

Muitos desafios e ajustes ainda precisam ser feitos para que a produção do anthias cauda de lira possa permitir o fornecimento regular de quantidades expressivas de juvenis para comercialização. Nossos resultados reforçam o pioneirismo e o comprometimento da Biomarine em promover a produção sustentável de peixes ornamentais marinhos, contribuindo na preservação dos recifes de corais e na promoção de um aquarismo marinho consciente e responsável. 

 

Autores: Eduardo Gomes Sanches1*, Flavio Félix Bobadilha2*, Adilson Ramos Santos2, Bruna Larissa Meganhe1, Laura de Oliveira Camilo1
 
¹Laboratório de Piscicultura Marinha
Instituto de Pesca/APTA/SAA - Ubatuba, SP
*egsanches@sp.gov.br
 
¹Biomarine Aquicultura Ornamental - São Paulo, SP
* flaviobobadilha@gmail.com
 
 
Faça o download e confira o texto completo com todas as ilustrações. Clique aqui

 

 

 

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