Principal Artigos Aspergillus niger e colina vegetal em dietas para tilápias em sistemas fechados de produção
0

Aspergillus niger e colina vegetal em dietas para tilápias em sistemas fechados de produção

Aspergillus niger e colina vegetal em dietas para tilápias em sistemas fechados de produção
0

A intensificação dos sistemas aquícolas é uma realidade nos dias de hoje, e neste cenário, dois sistemas fechados de produção ganham destaque: o sistema de recirculação de água (RAS na sua sigla em inglês) e o sistema de bioflocos. Paralelamente, a intensificação dos sistemas aumenta a demanda por dietas mais bem elaboradas e nutricionalmente mais completas. Em sistemas intensivos de produção a nutrição, por meio de aditivos e ingredientes funcionais, é uma ferramenta para aumentar a saúde dos animais nestes ambientes mais confinados, garantindo assim o resultado esperado.

Neste sentido o Aspergillus niger é um fungo multicelular amplamente conhecido por diversas indústrias e durante os processos podem-se gerar subprodutos que posteriormente secos, geram uma biomassa comumente denominada de micélio que pode ser utilizada na nutrição animal. Por outro lado, a colina vegetal surge como um aditivo alternativo. A colina é uma vitamina do complexo B e é normalmente incluída em dietas animais em outras formas como o cloreto de colina. No entanto, esta forma apresenta algumas desvantagens como alta capacidade de absorver água, acelerando o processo de oxidação de outras vitaminas na dieta. Estudos já demonstram efeitos positivos da utilização de colina vegetal na alimentação de coelhos, frangos de corte e até mesmo a tilápia do Nilo em sistemas de água-clara.

Diante disso, os autores do presente trabalho tiveram como objetivo avaliar diferentes níveis de inclusão de biomassa seca de A. niger (ingrediente alternativo) e colina vegetal (aditivo) (Figura 1) em dietas para tilápia do Nilo (Oreochromis niloticus) em sistema de recirculação de água e sistema de bioflocos, respectivamente.

 

Desenvolvimento, Resultados e Discussão: 

Experimento 1: Biomassa seca de Aspergillus niger em rações extrusadas para alevinos de tilápia do Nilo

O experimento foi conduzido no Laboratório de Aquicultura (LAQ) da Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC), sede Laguna-SC. Durante 42 dias, o experimento foi conduzido em um delineamento inteiramente ao acaso contendo 4 tratamentos com 4 repetições. Foram povoados 320 juvenis de tilápia do Nilo (Oreochromis niloticus) com peso inicial de 1,72 ± 0,16 g (20 peixes por cada unidade experimental). Os tratamentos apresentavam diferentes níveis de inclusão de biomassa seca de A. niger (denominada micélio) nas rações com 0% (controle), 2%, 4% e 8%. O nível de PB das dietas foi de 40% PB . Ao término do experimento, foram avaliados: desempenho zootécnico, índices somáticos e bromatológico da carcaça (sem vísceras) dos peixes.

Os parâmetros de qualidade de água mantiveram-se dentro das faixas ideais para a espécie. Em relação aos parâmetros zootécnicos (Tabela 1) não houve efeito significativo para peso final e consumo de ração. Já a conversão alimentar, ganho em peso e taxa de crescimento específico apresentaram diferenças e os melhores níveis de inclusão de biomassa seca de A. niger apontados pela regressão para esses parâmetros foram 3,75, 4,24 e 4,25%, respectivamente. Além disso, foi possível observar o efeito quadrático para índice hepatossomático em que o melhor nível de inclusão, de acordo com a análise de regressão foi de 5%.

Os parâmetros de composição de carcaça não apresentaram efeito significativo, ou seja, não há perda nutricional da carcaça sem vísceras diante dos diferentes níveis inclusão de A. niger, o que reflete em um ótimo resultado para o consumidor final.

 

Experimento 2: Colina vegetal em dietas para juvenis de tilápia do Nilo em sistema de bioflocos: Efeitos no desempenho, metabolismo energético e sistema antioxidante

O experimento 2 foi realizado no Laboratório de Aquacultura do Oeste (LAQUA- Oeste) da Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC), Chapecó-SC. O experimento foi conduzido em um delineamento inteiramente casualizado, contento 4 tratamentos com 5 repetições, totalizando 20 unidades experimentais. Os tratamentos consistiram de diferentes níveis de inclusão de colina vegetal na dieta dos peixes (0, 400, 800 e 1200 g/kg de ração), elaborados a partir de uma dieta basal com 48% PB. Em cada unidade experimental foi estocado 10 juvenis de tilápia do Nilo (peso médio inicial de 8,03 ± 0,03 g) e o experimento teve duração de 40 dias.

Após o período experimental, foi avaliado o desempenho zootécnico, índice hepatossomático (IHS), análises bioquímicas no sangue, enzimas envolvidas no metabolismo energético das brânquias e variáveis oxidantes e antioxidantes do fígado. Os dados foram analisados através de ANOVA uma via seguido pelo teste de Tukey com 5% de significância (P < 0,05).

Os parâmetros de qualidade de água mantiveram dentro das faixas ideais para a espécie. Não houve diferença significativa entre os tratamentos para os parâmetros de desempenho zootécnico e índice hepatossomático (Tabela 2). Os autores atrelam tal feito a produtividade natural do sistema de bioflocos, possivelmente suplementando as deficiências vitamínicas dos animais. Estudo recente avaliando a colina vegetal em água-clara para tilápias (Baldissera et al., 2019) demonstrou efeitos positivos com a suplementação. Tal resultado evidencia que os microorganismos presentes nos bioflocos podem ter suprido a demanda por colina vegetal na dieta.

As análises bioquímicas mostraram uma diminuição nos níveis de aspartato aminotransferase (AST) na dose suplementar de 800 mg/kg ração (Tabela 3). AST e alanina aminotransferase (ALT) são enzimas que quando estão em níveis altos no sangue podem indicar alguma condição patológica no animal, catabolismo proteico e principalmente lesões no fígado. Tais resultados demonstraram uma evidência do efeito hepatoprotetor da colina vegetal que já foi confirmada por outros estudos.

No que diz respeito ao metabolismo energético das brânquias (Tabela 4), pode ser observado um aumento nos níveis das enzimas creatina quinase (CK- CYT) e na piruvato quinase (PK) nos tratamentos com inclusão de colina vegetal, o que indica uma melhora na produção de ATP. Em relação às variáveis oxidantes e antioxidantes do fígado (Tabela 6), destaque para o aumento significativo na atividade da glutationa S- transferase (GST) nos tratamentos 800 e 1200 mg/kg de ração. A GST é uma das enzimas antioxidantes mais importantes do fígado, sendo que sua principal função é o sequestro de radicais livres e, consequentemente, seu aumento também diminuiu a peroxidação lipídica (TBARS).

 

Considerações Finais

Ambos os experimentos apresentaram resultados positivos e relevantes para nutrição de tilápias em sistemas intensivos. Os aditivos e ingredientes funcionais são ferramentas importantes para aumentar a saúde dos animais principalmente em ambientes mais confinados. O experimento 1 possibilitou a inclusão de 4% de biomassa seca de A. niger em dietas para tilápia do Nilo melhorando os parâmetros de desempenho. Em relação ao experimento 2, a adição da colina vegetal acarretou efeitos positivos nos parâmetros bioquímicos, principalmente comprovando o efeito hepatoprotetor desse aditivo.

 

Agradecimentos

Os autores agradecem a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES). As equipes dos laboratórios LAQUA-Oeste e LAQ (UDESC) e ao Dr. Bernardo Baldisserotto e equipe (UFSM) pelo suporte técnico. E por fim, a empresa Tate&Lyle pela parceria no experimento 1.

 

Autores:

Alison Alves de Sousa*1, Aleksandro Schafer Da Silva1,2, Luisa Nora2, Diogo Luiz

de Alcantara Lopes1,2, Giovanni Lemos de Mello3, Ana Luiza de Freitas dos Santos2,

Maurício Gustavo Coelho Emerenciano1,3

 

1Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC) – Programa de Pós-Graduação em Zootecnia – Chapecó, SC – *alisonasousa@outlook.com 

2Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC) – Departamento de Ciências Animais Chapecó, SC

 3Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC) – Departamento de Engenharia de Pesca e Ciências Biológicas – Laguna, SC

 

Faça o download e confira o texto completo com todas as ilustrações. Clique aqui