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Do berço ao prato: Fechando o ciclo do cultivo da ostra nativa Crassostrea gasar em viveiros

Do berço ao prato: Fechando o ciclo do cultivo da ostra nativa Crassostrea gasar em viveiros
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Atualmente reconhece-se a ocorrência de duas espécies de ostras no litoral brasileiro:

Crassostrea rizophorae e Crassostrea gasar (Ignácio et al., 2000; Varela et al., 2007), ambas conhecidas como ostra-do-mangue. Esta última, vulgarmente conhecida como ostra preta, ganhou destaque na ostreicultura do Norte/Nordeste visto seu crescimento superior em relação à C. rizophorae (Legat, 2015). A maioria das ostras nativas comercializadas na região é até hoje proveniente da extração em estoques naturais, onde juvenis são removidos das raízes dos manguezais para posterior engorda em sistema de cultivo, que muitas vezes ocorre em áreas distintas de onde foram coletados.

Os aquacultores compram dos marisqueiros juvenis a partir de 3 cm de comprimento, e os acondicionam em sistema tipo mesa, visto que o cultivo é realizado basicamente em sua totalidade em áreas estuarinas rasas e sujeitas às variações de maré (Pereira et al., 2001) (Figura 1).

 

 

Cultivo de ostras em viveiros

Grande parte da literatura científica trata do cultivo de ostras em sistema de viveiros, como um método para tratar efluentes da piscicultura ou carcinicultura, objetivando uma melhora na qualidade de água (e.g. Ramos et al., 2009). Adicionalmente, estudos que retratam o cultivo de ostras em viveiros sem influência das marés como uma atividade comercial viável por si só, são extremamente escassos e encontrados apenas para a ostra-do-pacífico Crassostrea gigas (e.g. King, 1977; Martinez-Cordova e Martinez-Porchas, 2006).

A fazenda de aquacultura orgânica PRIMAR, localizada no Rio Grande do Norte, trabalha desde 2005 com o cultivo em escala comercial da ostra nativa C. gasar em viveiros escavados e é pioneira na atividade. Apesar de ter sido fundada em 1993, o cultivo de ostras na propriedade iniciou-se apenas em 2005, dois anos após a fazenda conquistar a certificação orgânica com o cultivo do camarão cinza Litopenaeus vannamei. 

Visto que o policultivo e a rotatividade de culturas são ferramentas fundamentais no desenvolvimento da aquacultura sustentável, o biólogo marinho e mentor da PRIMAR, M.Sc. Alexandre Wainberg in memoriam, iniciou a atividade introduzindo a ostra nativa C. gasar nos viveiros da fazenda. A princípio, juvenis eram comprados de pescadores locais e colocados em mesas para engorda e posterior comercialização. Pouco tempo depois o sistema de cultivo foi otimizado para travesseiros flutuantes dispostos em long lines (Figura 2), visto que as mesas promoviam um maior acúmulo de pseudofezes no fundo do viveiro, eram mais difíceis de manejar e dificultavam o controle de predadores naquele ambiente confinado.

A diferença no tempo de cultivo entre a ostra e o camarão dificulta o trabalho com ambas as espécies em um mesmo viveiro, ao mesmo tempo. Enquanto o camarão leva entre 45-60 dias para atingir o tamanho comercial dentro do Sistema PRIMAR de Aquacultura Orgânica, as ostras cultivadas em viveiros levam um mínimo de 12 meses para atingir o tamanho comercial de 8 cm. Em função disto, adotou-se na PRIMAR o sistema de rotação de culturas, onde as ostras são transferidas de viveiro uma vez por ano, evitando assim o acúmulo de matéria orgânica no solo e promovendo a sanidade do ambiente.

Finalmente, o crescimento da ostreicultura extrativista na região está levando à sobreexploração dos estoques naturais de C. gasar, resultando no declínio da disponibilidade de juvenis selvagens para engorda.

Devido sua extensa experiência no setor aquícola somada à sua integração com o meio científico, Alexandre Wainberg inaugurou em 2014 o laboratório de produção de sementes da ostra nativa Crassostrea gasar (Figura 3), com o intuito de fomentar e promover o desenvolvimento sustentável da ostreicultura.

 

Laboratório PRIMAR de produção de sementes

O laboratório PRIMAR, fruto de parceria com pesquisadores especialistas no cultivo de moluscos bivalves, oi projetado para a produção de até 6 milhões de sementes por safra. Após um ano e meio de trabalho árduo e mais de 40 larviculturas sem êxito, o primeiro lote produzido foi para o viveiro em março de 2015. Até hoje, o laboratório já abriu para 4 safras, produzindo mais de 2,5 milhões de sementes distribuídas em 12 lotes.

As safras ocorrem de novembro a maio, período de estiagem e maturação do plantel de reprodutores, o qual já é composto por mais de 2,5 mil indivíduos. Além disso, espécimes selvagens são trazidos todos os anos nos períodos de reprodução para minimizar riscos de endogamia e promover variabilidade genética.

Apesar da maioria das sementes produzidas permanecerem na PRIMAR para posterior comercialização, parte delas também já é direcionada para demais ostreicultores da região através de uma parceria com o Sebrae. O objetivo é ensinar os produtores locais a cultivarem as sementes selecionadas, ao invés de extraírem juvenis do ambiente.

 

O ciclo fechado

O grande diferencial da PRIMAR está justamente em ter a unidade de produção e reprodução próximas e interligadas (Figura 4). Isto permite obtermos dados importantes acerca da biologia e ecologia desta espécie em cativeiro, que ainda são bastante escassos, visto que estamos lidando com um animal ainda em processos iniciais de domesticação.

O controle dos lotes cultivados é rígido, permitindo a identificação de indivíduos com melhores taxas de crescimento e sobrevivência que virão a compor o plantel de reprodutores. Dessa forma, garante-se a produção de sementes de alta qualidade para suprir a base da cadeia produtiva, promovendo o melhoramento genético da espécie.

 

Desafios

Tome-se o exemplo de Santa Catarina, onde a ostreicultura, apesar de recente, é uma atividade consolidada e compõe parcela importante na economia do estado. Isto só foi possível devido o suporte governamental fornecido para a base da cadeia produtiva, onde a Universidade Federal de Santa Catarina subsidia as sementes de C. gigas para os cultivos regionais. Adicionalmente, a espécie que domina a atividade em Santa Catarina, a ostra-do-pacífico Crassostrea gigas, já é cultivada há mais de um século (FAO, 2005). São décadas de pesquisa e otimização de técnicas de cultivo, um cenário bem diferente do que observamos atualmente para a ostra nativa C. gasar, no Norte/Nordeste.

Para contornar as dificuldades e explorar de forma sustentável o potencial de produção de ostras nativas no Norte/Nordeste, são necessários investimentos em pesquisas acerca de produção de sementes, formas de cultivo, maturação e ciclo reprodutivo, tanto em ambiente aberto quanto em viveiros. A Embrapa está com uma extensa pesquisa sobre a C. gasar em andamento, com a participação de atores de vários estados das regiões. m projeto de pesquisa de âmbito internacional, o AquaVitae, também contempla a participação da PRIMAR e da EMBRAPA nas pesquisas com as ostras nativas, além da UNESP, UFSC e FURG, que envolvem as ostras nativas em pesquisas de cultivo multitrófico. Para o desenvolvimento das pesquisas, melhoramento genético domesticação da espécie, procedimentos que levam anos para se concretizarem, é fundamental a colaboração entre iniciativa pública e privada, que tenham interesses em incrementar a ostreicultura no Brasil.

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