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A Economia Circular na Indústria de pescado: Panorama e desafios para a implantação de sistemas produtivos

A Economia Circular na Indústria de pescado: Panorama e desafios para a implantação de sistemas produtivos
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A Economia Circular e a indústria de alimentos

O consumo humano de alimentos tem um papel relevante para a agenda por um desenvolvimento sustentável. Levantamentos e cálculos da rede “Global Footprint Network” site que monitora a pegada ecológica e a biocapacidade que ainda é mantida em todo o mundo, defende que todos os países, indiferente de seu nível de desenvolvimento, têm grande responsabilidade sobre os desperdícios de alimentos. Como um exemplo do impacto, nos Estados Unidos estimasse que 40% dos alimentos sejam desperdiçados, o que é equivalente à Pegada Ecológica total do Peru e da Suécia combinada, ou a biocapacidade total da Alemanha. Em relação ao pescado, segundo o último relatório sobre o “Estado da Pesca e Aquicultura Mundial”, SOFIA (FAO, 2018) estima-se que a perda seja de 35% do volume capturado.

Em abril de 2019 foi apresentada pelo Ministério da Agricultura Holandês, uma abordagem circular e de sustentabilidade para o sistema agro-alimentar na “Oficina para Qualidade Alimentar e Natureza” realizada pela OECD em Paris, no artigo intitulado “Circular Approach and the Sustainability of the Agro-food System”. O documento, muito aprofundado e técnico no tema, coloca desde o início que o conceito da economia circular no sistema agroalimentar está relacionado à diversas questões ao longo de toda a cadeia de produção de alimentos. Nele, diversas questões são apontadas para a mudança para um modelo de produção mais circular, destacando três pontos chaves:

  1. a) redução do desperdício de alimentos e emissões na produção de alimentos – incluindo gases de efeito estufa;
  2. b) reciclagem de embalagens de alimentos e plástico, em particular e;
  3. c) uso em cascata de produtos alimentícios, incluindo o uso para fertilizantes (Cingiz; Wesseler, 2019).

 

 

Segundo dados do Global Footprint Network (2019):

Cerca de um terço dos alimentos produzidos no mundo para consumo humano – 1,3 bilhão de toneladas a cada ano – são perdidos ou desperdiçados;

A demanda atual por alimentos representa 26% da Pegada Ecológica global e a quantidade de alimentos descartados pelos países, tanto de alta quanto baixa renda, equivale a 9% da Pegada Ecológica da humanidade.

A Economia Circular também é apontada como uma estratégia efetiva para alcançar os objetivos de desenvolvimento sustentável, não apenas para consumo e produção responsáveis (Objetivo 12), como também para atingir o objetivo de Fome Zero (Objetivo 2) . Os sistemas circulares, tanto para produção de alimentos quanto para as práticas agrícolas, assim como o uso de materiais mais naturais e produtos biodegradáveis fechando o ciclo biológico de produção, pretendem ajudar a reduzir o uso de água e fertilizantes e reduzir a contaminação de alimentos. Com as práticas de distribuição e modelos de compartilhamento, previstos numa Economia Circular, para os equipamentos agrícolas, atesta-se que seria possível influenciar positivamente em mudanças desejadas para criar cadeias de valor agrícolas mais sustentáveis, com a redução de perdas de alimentos ao mesmo tempo aumentando a produtividade (Schroeder; Anggraeni; Weber, 2018).

O impacto das práticas de Economia Circular em setores como silvicultura e agricultura são considerados particularmente relevantes para os contextos dos países em desenvolvimento pois podem gerar economias agrícolas circulares capazes de promover sistemas alimentares locais e sustentar meios de subsistência. A noção de uma Economia Circular “restabelecedora e regenerativa por design” é considerada um fator relevante para esses dois setores, pois define a sustentabilidade do desempenho e produtividade dos setores florestal e agrícola com práticas que visam restaurar e ao mesmo tempo não diminuir a capacidade regenerativa dos ecossistemas (Preston; Lehne, 2017).

 

A Economia Circular e a realidade brasileira 

Para aumentar suas chances de êxito para gerar benefícios sociais em ambientes socioeconômicos como do Brasil, a economia circular precisaria ser adaptada ao contexto local, bem como as tecnologias aplicadas precisariam associar os saberes da populaçã o local ao conhecimento científico. Tecnologias comprovadas e descentralizadas, capazes de restaurar os nutrientes orgânicos para o solo para melhorar a produção de alimentos e causar impactos ambientalmente positivos são exemplos voltados à economia circular. Isso é o que aponta um trabalho da organização TEARFUND que investigou os benefícios da economia circular no contexto brasileiro e mostrou que o uso de biodigestores para tratamento de estrume direcionado à produção de fertilizantes e gás de cozinha são tecnologias circulares efetivas para países como o Brasil (inclusive existem experimentos produzindo gás a partir de carapaças de camarão, veremos isso nos próximos artigos). O mesmo trabalho conclui que a busca pelos benefícios sociais da Economia Circular inclui mudanças nas práticas de produção de alimentos. A economia circular poderia contribuir em comunidades pobres que sofrem desigualdades e falta de oportunidades ao ser utilizada de maneira apropriada para atuar de forma complementar a modelos de produção agrícola baseado na Agroecologia, fundamentando-se em quatro pilares: sustentabilidade, estabilidade, resiliência e capital próprio – com grande potencial para responder a situações de exclusão e invisibilidade, endereçando problemas de desigualdade, protagonismo e dignidade das pessoas (Fernandes, 2016).

Para criar uma indústria do pescado baseada em uma economia circular é então, essencial, dar apoio às comunidades locais para que possam conceber sistemas de produção que sejam regenerativos, que não esgotem as populações de peixes ou danifiquem os ecossistemas aquáticos. Com esta premissa, busca-se atividades de pesca e aquicultura mais resilientes e viáveis para as gerações futuras. Na publicação de 2019 da FARNET, rede da UE no âmbito do Fundo Europeu dos Assuntos Marítimos e das Pescas (FEAMP), que integra grupos de ação local, autoridades de gestão, cidadãos e peritos, empenhados no desenvolvimento das comunidades locais, são reunidos casos e estratégias para a implementação da economia circular em zonas pesqueiras e aquícolas. O trabalho abrangente realizado por Burch et al. (2019) apresenta como a implementação de sistemas econômicos circulares poderiam ajudar os produtores e processadores locais a adaptar seu trabalho para criar formas de valorizar ao máximo os recursos utilizados nos processos, em vez de desperdiçá-los. Neste sentido, para planejar sistemas econômicos circulares e concretizar este objetivo em um dado sistema específico (baía, enseada, município, porto, região, etc), é necessário que os estoques e fluxos de materiais (água, comida, excremento, águas residuais, etc) e substâncias (nitrogênio, fósforo, carbono ou CO2, GEE’s, etc.) sejam quantificados e avaliados. De forma geral, modelos econômicos circulares abrangem diversos pontos de mudanças na visão estratégica, que impactam nas várias etapas da cadeia de valor, conforme pode ser observado na figura 1.

A colaboração para criar uma economia circular muitas vezes envolve a utilização compartilhada de serviços e infraestruturas que possibilitem trocas recíprocas e benéficas entre as diferentes partes em um território, destaca o trabalho. A chamada “Simbiose Industrial” envolve a colaboração de todas as partes interessadas dentro de um raio geográfico relativamente pequeno para o intercâmbio de subprodutos e resíduos das atividades produtivas, valorizados como insumos.

Exemplos de iniciativas que vêm apresentando resultados positivos são:

  • O trabalho conjunto para desenvolver novas cadeias de valor a partir das conchas de ostras como insumo para produção de ração animal, fertilizantes, tinta para estradas, filamentos para impressoras 3D e solas de sapato, realizado por 20-25 produtores de ostras e uma fábrica local, em associação com um laboratório de pesquisa na região de Auray e Vannes, França;
  • O apoio para testar um sistema circular na qual os resíduos de restaurantes locais são coletados e utilizados para produzir insetos, transformados em farinha de proteína para ração de peixes destinada à aquicultura, realizado pelo Instituto Oceanográfico Paul Ricard em Esterel Côte d’Azur;

O mesmo trabalho destaca benefícios potenciais da implementação de modelos econômicos circulares para este setor:

  • Otimizar o uso dos insumos de matéria-prima virgem;
  • Diminuir a geração de resíduos, descartados para incineração ou aterro (duas práticas que incorrem em grandes riscos ao meio ambiente);
  • Desenvolver mais formas de gerar valor na produção, com insumos, produtos e processos;
  • Aumentar a resiliência da produção realizada por comunidades.

Além da recuperação de resíduos como matéria-prima de alto valor, numa Economia Circular produtores deverão repensar a maneira de usar os equipamentos e máquinas de pesca e aquicultura. Para tanto, produtores colaborando em toda a cadeia, precisam questionar alguns processos e práticas atuais em busca de soluções inovadoras e novos modelos de comercialização que irão exigir a agregação de mais atividades e atores à cadeia de valor. Neste sentido, modelos de compartilhamento e contratos de aluguel e leasing ao invés da transferência de posse, devem ser desenvolvidos para incluir a manutenção e a revenda e prever a remanufatura e o upgrade de equipamentos, utensílios e instalações. Sistemas econômico circulares, exigirão ainda diferentes cadeias de logística e redistribuição, tanto para recuperação do valor de resíduos quanto para a utilização compartilhada de equipamentos, utensílios e instalações pelo máximo de tempo e qualidade, e demandando regulamentações adequadas para as novas atividades da cadeia circular de produção.

 

Conclusão 

A economia circular depende da colaboração entre produtores. Sua finalidade é maximizar o uso eficiente e efetivo de materiais e isso envolve compartilhar recursos e estabelecer correspondências entre as atividades produtivas e as necessidades de insumos das partes de um sistema produtivo. Para tanto, existem algumas etapas para planejar cadeias de valor para uma economia circular:

  1. Analisar o potencial dos modelos em economia circular para as cadeias de valor;
  2. Conscientização para mudar a mentalidade e o comportamento nas atividades e operações;
  3. Aprofundamento nos conceitos e incentivo ao empreendedorismo;
  4. Estabelecer arranjos e associações para colaboração, compartilhamento e simbiose industrial;
  5. Repensar modelos de negócios baseados na posse de produtos e atrair investimentos para inovações.

Para o setor de pescado, encontrar sinergias e estabelecer associações construtivas essenciais em nível local, é fundamental o desenvolvimento de relações entre pescadores, produtores de aquicultura, indústrias, sociedade civil e instituições locais. Isso pode acontecer no nível de uma única iniciativa, como a criação de uma cadeia de fornecimento de conchas de moluscos ou de carapaças de crustáceos, que exigirá o envolvimento de várias partes interessadas e dependendo da escala de atuação, pode ser necessário mobilizar mais parceiros, identificar e apoiar o desenvolvimento de ideias inovadoras para atividades específicas em economia circular e estudar outras sinergias.

 

Autores: Ms Eng. Alexandre Gobbo Fernandes

Consultor Associado GEOCIDADES – Membro sênior da CEP-Americas (Circular Economy Platform of the Americas)

Consultor especialista em Economia Circular – geocidades.consultoria@gmail.com

 

Eng. Fabrício Flores Nunes

Diretor de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação Tecnológica do Instituto de Pesquisa, Extensão Rural e Organismos Aquáticos – PEROÁ

Consultor em Aquicultura Biotecnológica e Novos Negócios – fabriciofloresnunes@gmail.com

 

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