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Entrevista – Ligia Uribe Gonçalves

Entrevista – Ligia Uribe Gonçalves
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Zootecnista formada na Faculdade de Zootecnia e Engenharia de Alimentos da USP.

 

AQUACULTURE BRASIL: Após a Zootecnia, qual foi a sua especialização?

Ligia Uribe Gonçalves: Tenho Doutorado pela Faculdade de Zootecnia e Engenharia de Alimentos da USP e durante o doutorado realizei um estágio sanduíche na Università degli Studi di Firenze na Itália. Após, fiz Pós-Doutorado na Escola Superior de Agricultura “Luiz de Queiróz” da USP.

 

AQUACULTURE BRASIL: A ligação com a aquicultura começou na graduação ou ainda antes? Comente um pouco sobre sua carreira até aqui e projetos em que está envolvida.

Ligia Uribe Gonçalves: Sempre tive paixão por peixes ornamentais e foi num curso sobre criação de peixes ornamentais que surgiu meu interesse pela aquicultura durante a graduação. Logo procurei a Profa. Elisabete Viegas para ser minha orientadora de iniciação científica. Iniciei na ciência com estudos de produção de coprodutos de resíduos de pescado para serem incluídos em dietas para peixes. Meus primeiros estudos foram com tilápias e depois passei a trabalhar com as espécies nativas: dourado, lambari, pacu, tambaqui e pirarucu. Em São Paulo, foquei a pesquisa mais para lipídios dietéticos, mas quando cheguei no Amazonas, vi que não fazia muito sentido continuar com esses estudos, pois faltavam conhecimentos mais básicos das espécies amazônicas. Então, encarei o grande desafio de trabalhar com a fase inicial do pirarucu. Iniciamos com a parte nutricional, mas logo vimos que tínhamos muito para conhecer desde a biologia da espécie até tratamento para doenças. Tem sido uma experiência muito gratificante trabalhar com o pirarucu.

 

AQUACULTURE BRASIL: Como coordenadora do projeto Gigas, explique para os leitores que ainda não conhecem, quando começou, onde é executado e quais seus principais objetivos?

Ligia Uribe Gonçalves: O projeto GIGAS nasceu em 2015, com recursos da CAPES e da FAPEAM, no Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia – INPA, Manaus, Amazonas. O nosso objetivo é realizar pesquisas direcionadas ao desenvolvimento morfológico, nutrição, manejo alimentar, sanidade das fases iniciais do pirarucu, com propostas de novas técnicas de manejo para uma larvicultura intensiva que promova maior sobrevivência dos animais e garanta juvenis saudáveis para a fase de engorda na piscicultura. Desde a sua criação, temos a honra de contar com a colaboração do Dr. Luís Conceição, da Sparos LDA em Portugal, que foi nosso bolsista Pesquisador Visitante Especial do Programa Ciências sem Fronteiras da CAPES.

 

 

AQUACULTURE BRASIL: Quais os avanços em termos de pesquisa obtidos desde 2015 quando o Projeto Gigas começou?

Ligia Uribe Gonçalves: Os principais avanços que tivemos foram o conhecimento dos principais eventos durante a metamorfose da larva do pirarucu, com finalização da formação das escamas acontecendo em animais com mais de 12 centímetros de comprimento. Verificamos que algumas rações comerciais podem desencadear problemas como hérnia e úlcera estomacal. Além disso, identificamos que larvas menores a 4 cm apresentam dificuldades pra digestão de zooplâncton do grupo ostacoda, que causam atraso no crescimento e até mortalidade. Estabelecemos um protocolo seguro para transição alimentar e utilização de ração comercial nas larvas de pirarucu com 4 centímetros de comprimento. Identificamos os principais parasitos que ocorrem nas pisciculturas de pirarucu, sendo que os tricodinídeos e os monogenéticos são os mais preocupantes nas larvas e juvenis, respectivamente. Com os nossos protocolos alimentares temos obtido 70% de sobrevivência, considerando a captura das larvas com 1,5 a 2 centímetros de comprimento.

 

AQUACULTURE BRASIL: Atualmente, quais os principais desafios do projeto Gigas?

Ligia Uribe Gonçalves: Nosso principal desafio é produzir microdietas para dar continuidade às pesquisas, pois grande parte dos alimentos foram feitos na empresa Sparos, em Olhão, Portugal. Estamos adquirindo os equipamentos e em breve poderemos processar rações (microdietas) mais adequadas para larvas de peixes e camarões.

 

AQUACULTURE BRASIL: Como é a relação do Projeto Gigas com os produtores, há uma troca de informações? Há participação de colaboradores externos ao Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia?

Ligia Uribe Gonçalves: Nossos primeiros estudos foram realizados na piscicultura Boa Esperança, propriedade do Sr. Megumi Yokoyama, o “Pedrinho”, em Primavera de Rondônia, Rondônia. Esse primeiro contato com a família Yokoyama foi essencial para troca de informações com o produtor, quando aprendemos muito sobre o manejo reprodutivo e também das formas jovens. Essa colaboração foi muito importante para planejarmos os nossos experimentos. Além disso, os primeiros ensaios no INPA foram executados com larvas de pirarucu provenientes da piscicultura Boa Esperança. Hoje também temos parceria com o Sítio Amadeu Cirino, propriedade do Sr. Ari, que está localizado no munícipio de Coari, interior do Amazonas. Para atender os técnicos e produtores, realizamos algumas vezes o curso de capacitação chamado “Larvicultura intensiva do pirarucu” em Manaus e Coari no Amazonas e Paragominas no Pará. Em novembro, ofereceremos mais uma vez o curso no Congresso Zootecnia da Amazônia em Santarém no Pará.

 

AQUACULTURE BRASIL: O projeto Gigas é financiado por agências de fomento ou apenas com recursos próprios? E estes recursos estão assegurados para a continuidade das pesquisas, mesmo diante do cenário atual de crise no Ministério da Educação, ou podem estar comprometidos?

Ligia Uribe Gonçalves: Nós obtivemos recursos da CAPES e FAPEAM, porém esses projetos foram finda dos em janeiro de 2019. Atualmente, tenho somente um projeto com pirarucu em vigência com recursos da FAPEAM e CNPq (Edital Primeiros Projetos de Pesquisa), que também está em fase final de utilização dos recursos financeiros. Infelizmente, no último edital da FAPEAM, destinado para aquicultura, somente foi possível apresentar proposta com tambaqui e matrinxã. Acredito que toda pesquisa brasileira está comprometida com o atual cenário brasileiro. Nós estamos tentando encontrar uma solução para que as nossas pesquisas não parem. Recentemente, conseguimos a aprovação da Advocacia Geral da União para comercializar os juvenis de pirarucu que são os resultados das nossas pesquisas, e assim, conseguir algum recurso para comprar insumos e continuar com os ensaios, mesmo que em “marcha” mais lenta.

 

AQUACULTURE BRASIL: Qual a sua perspectiva para a produção de peixes nativos no Brasil, em especial sobre o Pirarucu?

Ligia Uribe Gonçalves: Eu acredito muito no potencial dos peixes amazônicos. Isso pode ser visto com o tambaqui, como principal representante, está lá no topo da produção aquícola brasileira. Em relação ao pirarucu, acho que faltam muitos estudos para deixar o produtor mais confiante em relação ao alto investimento inicial da sua produção, mas já vi casos de sucesso no Brasil. Nesse momento, acho que a espécie seria muito interessante para ser trabalhada em policultivo com peixes onívoros. O pirarucu pode atuar como predador de peixes forrageiros, diminuindo a quantidade de competidores de alimento e oxigênio, e o peixe onívoro pode se aproveitar do resto do alimento do pirarucu, além de filtrar a grande quantidade de plâncton que haverá na água devido os resíduos nitrogenados e fosfatados. Não falta mercado para comercializar a carne do pirarucu, já recebi comerciantes querendo indicação de produtores que poderiam oferecer regularmente 20 toneladas de pirarucu ao mês, mas não encontramos.

 

AQUACULTURE BRASIL: Em 2016 uma legislação que permitia o cultivo de peixes não nativos nos rios do Estado do Amazonas foi publicada e logo depois acabou sendo revogada sob apelo de instituições ambientais. Em sua opinião, valeria a pena arriscar a introdução de uma espécie não nativa nestes locais? Ou as espécies da aquicultura nacional tem potencial para alavancar a produção do Amazonas?

Ligia Uribe Gonçalves: Na minha opinião não vale a pena arriscar a introdução de espécies exóticas nos rios do Amazonas, pois além dos problemas ambientais, as espécies nativas possuem desempenho zootécnico excelente na região.

 

AQUACULTURE BRASIL: Atualmente o maior desafio do cultivo de Pirarucu e os peixes nativos redondos está na nutrição?

Ligia Uribe Gonçalves: Acredito que para o pirarucu os maiores desafios são a inconstância na oferta de juvenis, preço muito elevado do juvenil, alto investimento e falta de tecnologias específicas para a espécie. Em relação ao tambaqui, o maior desafio é sanitário, algumas doenças têm prejudicado a produção e a utilização de medicamentos sem controle podem causar sérios problemas de segurança ambiental e alimentar.

 

AQUACULTURE BRASIL: Deixe um convite para futuros alunos interessados em ingressar em uma pós-graduação que possam colaborar com o projeto Gigas?

Ligia Uribe Gonçalves: Primeiramente, gostaria de agradecer a equipe da revista Aquaculture Brasil pelo interesse no Projeto GIGAS. As demais pessoas que tiverem interesse em conhecer um pouco mais do nosso trabalho, podem acessar a nossa página www.projetogigas.com e também nos seguir nas redes sociais@projetogigas e facebook.com/projetogigas. Os que tiverem interesse em pós-graduação podem obter maiores informações nos sites:

PPG-Aquicultura: http://pgaquicultura.inpa.gov.br/

PPG-Ciências Pesqueiras nos Trópicos: http://ppgcipet.ufam.edu.br/

PPG-Ciência Animal: https://ppgcan.ufam.edu.br/

 

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