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Cultivo de peixes marinhos como alternativa de conservação: conhecendo o projeto Meros do Brasil

Cultivo de peixes marinhos como alternativa de conservação: conhecendo o projeto Meros do Brasil
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O Laboratório de Piscicultura Marinha (Lapim) do Instituto de Pesca, em Ubatuba/SP, vem desenvolvendo, desde 2005, estudos sobre o cultivo de peixes marinhos como alternativa ao extrativismo e como instrumento de conservação destes recursos pesqueiros.

A primeira espécie estudada pelo laboratório foi a garoupa-verdadeira Epinephelus marginatus. Exemplares da espécie foram capturados e mantidos em cativeiro, buscando formar um plantel de reprodutores e obter a produção de formas jovens. Os estudos mostraram também, que o período de desova da garoupa tende a se concentrar em torno de dezembro, justamente o período em que afluem mais turistas para o litoral, com consequente aumento da demanda por peixes para restaurantes e hotéis, o que leva a um inadequado aumento do esforço de pesca sobre a espécie.

 

 

Estes estudos possibilitaram importantes avanços no cultivo destes peixes em cativeiro, com destaque para o desempenho produtivo da garoupa-verdadeira, elucidando importantes questões do ponto de vista de manejo desta espécie e propiciando a formação de um banco de reprodutores que permitiu iniciar pesquisas de inversão sexual, crioconservação de sêmen, reprodução induzida e produção de formas jovens, visando a realização dos primeiros ensaios de engorda em escala massiva desta espécie no Brasil (Sanches et al., 2008a; Sanches et al., 2009). A crioconservação do sêmen da garoupa-verdadeira pode ser considerada um fato histórico para a piscicultura marinha brasileira, tanto pelo valor econômico deste peixe como por seu potencial para cultivo, tendo contribuído para a reprodução da espécie em cativeiro e possibilitado a primeira produção de formas jovens de garoupa-verdadeira no Brasil (Sanches et al., 2008b).

Atualmente, o Laboratório de Piscicultura Marinha do Instituto de Pesca integra o Projeto Meros do Brasil, atuando na reprodução de outro “parente” da garoupa, o mero Epinephelus itajara.

 

Os trabalhos do Instituto de Pesca com o mero 

Através de uma parceria entre o Instituto de Pesca, a Embrapa Tabuleiros Costeiros, a Bahia Pesca, o Instituto Meros do Brasil e com o patrocínio do Programa Petrobras Ambiental, um grupo de meros foi capturado em três estados do Brasil (Pernambuco, Sergipe e Bahia) e mantido no laboratório. Os peixes vêm respondendo muito bem ao cativeiro, ganhando peso rapidamente com baixas taxas de mortalidade, demonstrando alto grau de domesticação.

Após seis meses de administração de hormônios andrógenos a oito exemplares com peso variando entre 2,0 a 12,0 kg, foi obtida, de maneira inédita para a espécie, a inversão sexual de exemplares com a produção de sêmen.

Este feito pode ser considerado como de extrema relevância para a espécie e para o projeto, já que abre as portas para a reprodução destes peixes em cativeiro, com inegáveis vantagens para a conservação da espécie, como por exemplo, a ampliação da base de estudos para se conhecer melhor a biologia reprodutiva deste serranídeo.

Através de uma parceria com a equipe de pesquisadores da Embrapa Tabuleiros Costeiros (Aracaju/SE) este sêmen foi caracterizado quanto a volume, densidade espermática, viabilidade, taxa de motilidade e duração da motilidade e a seguir foi crioconservado, utilizando-se um protocolo desenvolvido pelo pesquisador do Instituto de Pesca, Eduardo Gomes Sanches, visando sua posterior utilização em procedimentos de reprodução do mero em cativeiro.

O processo de caracterização envolveu a utilização do Sperm Class Analyzer (SCA), um sistema computadorizado acoplado a um microscópio que analisa diversos parâmetros da movimentação do espermatozóide. Elimina a subjetividade das análises, permitindo conclusões seguras sobre a viabilidade do sêmen. A conservação de sêmen traz inúmeras vantagens para o desenvolvimento de um protocolo de cultivo para uma espécie. Permite a otimização do transporte deste material, bem como seu armazenamento em bancos de germoplasma. Estes bancos apresentam grandes benefícios, tais como: manutenção do estoque de sêmen de um grande número de exemplares em botijões criogênicos, garantindo a variabilidade genética e intercâmbio entre as diversas instituições de pesquisa, fornecimento contínuo de sêmen durante toda a estação reprodutiva e redução dos custos na manutenção dos plantéis de reprodutores. O próximo passo será a maturação das fêmeas em cativeiro e a utilização do sêmen congelado na fertilização de seus ovócitos e a produção de larvas de mero.

 

 

Conhecendo o mero

 O mero Epinephelus itajara (Lichtenstein, 1822) é um peixe marinho, que junto com as garoupas, chernes e badejos compõe a família Epinephelidae. Pode atingir comprimento acima de 2,5 metros e peso além de 450 kg (Heemstra & Randall, 1993). O termo itajara proveniente do tupi-guarani, pode ser traduzido como “ita”: pedra, e “jara”: senhor, portanto o mero é conhecido como o “senhor das pedras”.

Sua ocorrência tem sido documentada em águas de zonas tropicais e subtropicais da costa oeste do Pacífico, da Costa Rica ao Peru, e também, em ambas costas, oeste e leste e do Atlântico, respectivamente, entre Senegal e Congo (África), e entre a Carolina do Norte (EUA) e Santa Catarina (Brasil). Juvenis são estuarino-dependentes abrigando-se entre as raízes do mangue vermelho (Rhizophora mangle) (Frias-Torres, 2006). Os adultos se refugiam em parceis mais afastados da costa e em ambientes artificiais como embarcações naufragadas e pilares de pontes. Os Meros são predadores situados em níveis superiores da cadeia trófica, alimentam-se principalmente de crustáceos, lagostas e caranguejos. Juvenis alimentam-se de camarões, caranguejos e bagres marinhos. Partes de polvos, tartarugas e outros peixes também foram encontrados (Sadovy & Eklund, 1999). São animais que, apesar do grande porte, são considerados pacíficos e curiosos, permitindo, por vezes, a aproximação orientada de mergulhadores.

De acordo com Bullock et al. (1992), apresentam maturidade sexual entre 5 a 7 anos com comprimento total acima de 110 cm e peso superior a 40 kg (quando saem dos manguezais). Possuem ciclo de vida acima de 40 anos e agregam-se para reproduzir em épocas e locais conhecidos por alguns pescadores, o que facilita a pesca predatória. Essas características tornaram a espécie muito vulnerável, em especial a pesca e poluição, colocando-a em sério risco de desaparecer da costa brasileira.

Reprodutivamente, assume-se que o mero, similarmente aos seus congêneres Epinephelus, expressa fortes evidências de uma sexualidade reconhecida com o padrão hermafrodita sequencial protogínico (Bullock et al., 1992), na qual alguns indivíduos desenvolveriam tecido testicular para funcionarem como machos, depois de sofrerem degeneração do ovário. Não está definido se todos machos são obrigatoriamente fêmeas alteradas (monandria), ou se os indivíduos podem amadurecer como macho ou fêmea na “fase inicial” e qualquer um pode se tornar um macho na “fase terminal” (diandria). Embora os condicionantes que pressionam a decisão da mudança nos papéis sexuais são controversos em hermafroditas, para muitas espécies com sistema social harêmico, o número relativo de machos ou fêmeas e o tamanho dos indivíduos, em populações sob condições de confinamento, têm sido críticos para influenciar a frequência de sucessão do sexo.

Os meros são solitários, contudo, no período reprodutivo formam cardumes, fenômeno conhecido como “agregações”, em épocas e locais específicos com a finalidade de encontrar parceiros. Nesse aspecto, as pesquisas têm constatado o desaparecimento gradual dos meros em locais onde costumavam ser abundantes, especialmente durante suas agregações. No entanto, não se sabe exatamente o número de indivíduos e o peso total que tem sido capturado anualmente de forma ilegal.

Em função da diminuição dos estoques desta espécie e das características de sua biologia reprodutiva, o governo dos Estados Unidos declarou, em 1999, o mero como espécie protegida, proibindo sua captura na Zona Econômica Exclusiva Americana e nas águas territoriais da Flórida (NMFS, 1999). Na região do Caribe a proibição teve início antes, em 1993. Esse histórico aliado a falta de informações consistentes sobre sua bioecologia, foram decisivos para inclusão dessa espécie na lista vermelha das espécies ameaçadas da IUCN (The International Union for Conservation of Nature), classificada como Criticamente Ameaçada (Pusack & Graham, 2009). Há mais de quinze anos protegida da pesca em todo o Golfo do México, somente em 2002 a espécie recebeu proteção em águas brasileiras (IBAMA, portaria nº 121, de 20 de setembro de 2002). Com isso, tornou-se a primeira espécie de peixe marinho a receber uma portaria específica que estabeleceu a moratória da pesca pelo período de 5 anos, no qual priorizou-se a realização de estudos aprofundados. Em 2007, a portaria do IBAMA n° 42/2007 prorrogou por mais cinco anos a proibição da pesca, transporte e comercialização do mero.

No ano de 2012, esforços conjuntos dos pesquisadores do Projeto Meros do Brasil e Ministério do Meio Ambiente (ICMBio) produziram subsídios para proposição de nova prorrogação Instrução Normativa Interministerial/ INI N° 13/2012 – a qual foi novamente renovada em 2 de outubro de 2015 por mais 8 anos, através de Portaria Interministerial N°13/2015 tendo como prioridade a recuperação das populações de meros no país.

 

Projeto Meros do Brasil 

Em 2002, tendo em vista o cenário de declínio dos meros na costa brasileira, um grupo de pesquisadores em Santa Catarina criou o Projeto Meros do Brasil, com o objetivo de viabilizar recursos para a pesquisa e conservação de meros.

Em 2006, e por mais outras duas edições, (2012 e 2018), o Projeto Meros do Brasil tem contado com o patrocínio da Petrobras, por meio do Programa Petrobras Socioambiental. O patrocínio da Petrobras tem alavancado e permitido a realização de estudos de maior amplitude não somente sobre a conservação dos meros, mas também dos ambientes marinho-costeiros associados como manguezais, recifes de corais, costões rochosos e naufrágios ao longo da costa brasileira.

Atualmente, os meros são tidos como um símbolo de conservação e proteção dos ambientes costeiros e marinhos. O Projeto Meros do Brasil desenvolve ações de pesquisa e conservação do mero através do estudo da biologia pesqueira, genética, criação em cativeiro, educação ambiental e mergulho científico ao longo da costa brasileira. O Projeto busca ainda a inclusão da sociedade promovendo a equidade de gênero, igualdade e inclusão social.

Para realizar suas ações de pesquisa, o Projeto Meros do Brasil trabalha com uma rede de parceiros formados por instituições de ensino e pesquisa, distribuídos pelo litoral brasileiro que atuam de forma autônoma, em cooperação técnica e científica. Dessa forma, o Projeto propõe unificar os desafios de pesquisa e conservação de uma espécie que é distribuída amplamente em quase todo o litoral brasileiro.

O Projeto Meros do Brasil é realizado por nove instituições que trabalham juntas por meio de uma rede de parceria técnica e científica em seus diferentes pontos focais: Universidade Federal do Pará (PA); Universidade Federal de Pernambuco (PE); Universidade Federal de Alagoas (AL), Grupo Cultural ArteManha (BA); Universidade Federal do Espírito Santo (ES); Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (RJ); Instituto de Pesca (SP); Instituto Meros do Brasil (PR) e Instituto COMAR (SC). O Projeto conta também com a parceria de mais de 50 outras instituições e grupos no auxílio do desenvolvimento das ações em prol do conhecimento sobre a espécie e dos ambientes que habita.

A Rede Meros do Brasil é hoje mais que uma rede de pesquisa ou um projeto de conservação de uma espécie ameaçada. Nos últimos anos, consolidou-se uma Rede de instituições governamentais e ONGs, pesquisadores, ambientalistas, mergulhadores e pescadores em vários estados da costa brasileira. Todos os parceiros estão envolvidos diretamente com amplas ações de conservação marinha, e possuem o MERO como ponto de convergência e símbolo de uma espécie que estava quase desaparecendo de nossas águas. As diversas ações da Rede são desenvolvidas de forma autônoma pelas organizações que a integram, e a cooperação técnica e padronização de metodologias entre as diversas instituições são necessárias para se abordar os desafios de pesquisa e conservação do extenso litoral Brasileiro (Hostim-Silva et al., 2005). O Instituto de Pesca foi a primeira instituição a crioconservar o sêmen da garoupa-verdadeira e vem desenvolvendo estudos para a reprodução em cativeiro do mero.

A existência do Projeto Meros do Brasil só é possível pela pluralidade de olhares e aspirações compartilhadas entre a academia (onde surgiu), sociedade (para quem se destinam os esforços de conservação dos meros e ambientes marinhos e costeiros) e a iniciativa privada e governamental que suportam, apoiam e acreditam na realização das suas ações.

 

Autores:

Eduardo Gomes Sanches 1,2 ,Otávio Mesquita de Sousa

1Laboratório de Piscicultura Marinha – Instituto de Pesca/APTA/SAA – Ubatuba, SP

*esanches@pesca.sp.gov.br

Vanessa Villanova Kuhnen 1

2Centro Avançado de Pesquisa do Pescado Marinho – Instituto de Pesca/APTA/SAA – Santos, SP

 

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