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Fundação das Bases Genéticas para um Futuro Programa de Melhoramento de Tambaqui (Colossoma macropomum)

Fundação das Bases Genéticas para um Futuro Programa de Melhoramento de Tambaqui (Colossoma macropomum)
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Programas de melhoramento genético amplamente difundidos em espécies de animais domésticos ainda são pouco empregados na aquicultura e muitas das espécies criadas comercialmente ainda dependem da captura de reprodutores ou alevinos selvagens (Gjedrem, 2005). Existem estimativas de que menos de 10% da produção mundial em aquicultura seja baseada em germoplasma proveniente de programas de melhoramento (Gjedrem et al. 2012). Como exemplos clássicos de espécies de peixes em que a produção é baseada em programas de melhoramento podemos citar, salmão (Salmo salar), truta (Oncorhynchus sp.) e tilápia (Oreochromis niloticus), nas quais o foco tem sido a geração de linhagens com produtividade superior nos diferentes sistemas de criação (Powell et al. 2008; Nguyen et al. 2010).

A escassez de programas de melhoramento genético em espécies de aquicultura está relacionada principalmente aos altos custos associados à infraestrutura e mão de obra necessários para a manutenção de núcleos de melhoramento, com animais identificados individualmente e coleta periódica de dados de produção. Em muitos casos, observa-se a erosão genética ocasionada pelo acúmulo da endogamia nos plantéis de reprodutores, em função da utilização de poucos exemplares para geração de animais de reposição dos estoques destinados a produção (Gjedrem, 2005), problema bastante comum em espécies com alta fertilidade.

 

 

Justificativa do projeto

A estruturação de programas de melhoramento genético possibilita a geração de materiais genéticos que permitem o aumento da produtividade e da qualidade dos produtos derivados, atendendo às exigências do mercado consumidor (Rosa et al., 2013). Tais programas consistem em importante atividade estratégica para aproveitamento máximo do potencial aquícola brasileiro, podendo colocar o País numa posição de destaque entre os maiores produtores mundiais de pescado. Embora em 2017 tenha sido observado um crescimento de 8% em relação ao ano anterior (Anuário PeixeBR, 2018), o Brasil ainda não se destaca entre os dez principais países com maior produção aquícola mundial (FAO, 2018).

A mudança desse cenário depende de inúmeros fatores, entre os quais o desenvolvimento de pacotes tecnológicos robustos e confiáveis para as espécies nativas. O tambaqui (Colossoma macropomum) tem despontado como uma das principais espécies da aquicultura nacional, com um volume de produção de cerca de 137 mil toneladas em 2016, inferior somente ao alcançado pela tilápia (IBGE, 2016), espécie amplamente estudada em diferentes países, cujo pacote tecnológico é bem estabelecido. Considerando o potencial dessa espécie e aptidão natural do Brasil para a aquicultura, o projeto “Fundação das Bases Genéticas para um Futuro Programa de Melhoramento de Tambaqui – AMAZONGEN”, financiado pelo Fundo Amazônia, objetiva implementar em produtores comerciais situados no Bioma Amazônico alguns plantéis de reprodutores de tambaqui com germoplasma qualificado. Tais plantéis (chamados de Núcleos Satélites) possibilitarão a estruturação da base para futuros programas de melhoramento genético da espécie.

 

Desenvolvimento

Para o projeto, três pisciculturas comerciais foram selecionadas, sendo uma localizada no Estado de Rondônia (em virtude deste figurar como o maior produtor nacional de tambaqui), uma situada no Estado do Amazonas (principal polo nacional de consumo de tambaqui) e uma terceira propriedade no Estado do Tocantins  em função da proximidade com a base central dos núcleos satélites, estruturada na Embrapa Pesca e Aquicultura). Nos três núcleos satélites a serem implementados serão realizadas diversas ações que ainda não fazem parte da rotina da maioria dos piscicultores brasileiros, entre as quais:

  • Atividades de escrituração zootécnica;
  • Identificação individual dos reprodutores;
  • Controle das taxas de endogamia;
  • Direcionamento dos acasalamentos;
  • Identificação de possíveis híbridos no plantel, entre outras.

A realização da escrituração zootécnica é o primeiro passo para a estruturação de um programa de melhoramento genético, sendo imprescindível a identificação individual dos animais que compõem o plantel de reprodutores. Usualmente a identificação em peixes é feita por meio da implantação de dispositivos eletrônicos (tags ou micro chips) no corpo do animal (músculo ou cavidade abdominal) que permitam a leitura do código de identificação. A partir das informações coletadas pela escrituração zootécnica será possível que os produtores gerenciem os seus plantéis de forma mais eficiente, uma vez que será possível identificar de forma individualizada os animais com melhores índices produtivos, monitorar eventuais problemas no plantel, manter e analisar o histórico de uso dos animais e estabelecer manejos nutricionais, sanitários e reprodutivos mais apropriados, reduzindo riscos e custos associados. Além desses aspectos, será possível agregar valor aos animais, visto que os mesmos passarão a ter um “certificado” de pedigree e do seu desempenho produtivo e reprodutivo, o que possibilitará o controle de taxas de endogamia e o planejamento de uso de cada animal, seja no momento da seleção, uso e comercialização de matrizes, seja para a definição decritérios de descarte (Lobo, 2002).

A construção de bancos de dados seguros e confiáveis contendo todas as informações dos plantéis (pedigree, produtivas, reprodutivas, entre outras) poderá consistir em pontos para a elaboração e execução de programas eficientes de seleção e de melhoramento genético. Além disso, essas informações são fundamentais para a caracterização fenotípica da população base (plantel de reprodutores) e poderão ser utilizadas para a seleção, ponto-chave para o sucesso de programas de melhoramento genético. É sabido ainda que uma base genética ampla e com alta variabilidade são pontos de partida para a mensuração das diferenças genéticas entre populações (Tave, 1995; Hilsdorf e Orfão, 2011) e permitem a obtenção de ganhos genéticos por um número elevado de gerações. As relações de parentesco também devem ser conhecidas com o intuito de minimizar a consanguinidade no plantel e suas consequências, como a depressão por endogamia. Outro ponto relevante é a certificação de pureza específica, que permite identificar e evitar possíveis introgressões gênicas interespecíficas nos reprodutores da população base. Para o projeto planeja-se, portanto, a formação/organização, orientação e acompanhamento in loco dos plantéis nos três núcleos satélites e a realização de diversas atividades de capacitação dos técnicos envolvidos em aspectos de escrituração zootécnica, manejo reprodutivo e direcionamento de acasalamentos (baseados nas relações de parentesco e na certificação da pureza específica). Todas essas informações serão organizadas e disponibilizadas para os produtores por meio de um aplicativo para dispositivos móveis que será desenvolvido no âmbito do projeto.

Além dessas atividades, o projeto prevê caracterizar o germoplasma nos três núcleos satélites com relação à pureza específica, parentesco e análise da diversidade genética. Para isso, serão utilizados painéis de genotipagem de SNPs de baixa densidade, contendo por volta de uma centena de marcadores, desenvolvidos pela Embrapa e em fase final de validação.

A perspectiva da Embrapa é que com as ações desenvolvidas pelo projeto AMAZONGEN seja possível a estruturação de núcleos satélites em estados com representatividade na produção de tambaqui, podendo conectá-los a futuros programas de melhoramento genético. Os resultados previstos no projeto possibilitarão a produção e o fornecimento de alevinos padronizados e qualificados aos diferentes segmentos da cadeia produtiva do tambaqui (vendedores de alevinos, produtores, etc.), gerando uma série de impactos positivos ao longo da cadeia produtiva. Produtores de alevinos poderão contar com ferramentas genômicas para determinação de pureza específica, variabilidade genética e determinação de parentesco. As informações geradas serão a base para orientar acasalamentos, certificar reprodutores e lotes de alevinos comercializados tanto para engorda quanto para estruturação de plantéis de reprodutores.

 

Autores:

Luciana Shiotsuki1*, Luciana Cristine Vasques Villela1, Luciana Nakaghi Ganeco Kirschnik1, Luiz Eduardo Lima de Freitas1, Fabrício Pereira Rezende1, Eduardo Sousa Varela1, Lucas Simon Torati1, Patrícia Ianella2 e Alexandre Rodrigues Caetano2

1Embrapa Pesca e Aquicultura Palmas, TO    –  *luciana.shiotsuki@embrapa.br

2Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia Brasília, DF

 

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