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Aquicultura, Biotecnologia e a Economia Circular: Como novos conceitos podem ajudar na reestruturação das cadeias produtivas aquícolas?

Aquicultura, Biotecnologia e a Economia Circular: Como novos conceitos podem ajudar na reestruturação das cadeias produtivas aquícolas?
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O cultivo de organismos aquáticos tem a capacidade de fornecer diversos serviços ambientais de grande importância: a manutenção da qualidade de água, retornando para o meio ambiente uma água melhor que a captada para o projeto, aumento da piscosidade nas áreas de entorno (característica identificada principalmente na maricultura), além de ser uma das principais indústrias de proteína animal com o menor impacto quando falamos sobre emissão de gases de efeito estufa. Nessa questão última, ainda existe uma discussão acadêmica se moluscos e crustáceos marinhos conseguem ou não sequestrar dióxido de carbono (CO2) atmosférico, o que seria outro grande serviço da atividade. No caso dos organismos filtradores como os moluscos bivalves, os organismos retém uma quantidade considerável de sólidos suspensos, transformando estes nutrientes em proteína e, desta forma, removendo do sistema. Porém, apesar de fatores positivos de instalação, a aquicultura atual nacional tem focado seu objetivo produtivo em um único produto, na carne (filé, no caso dos peixes e camarões, e no miolo, no caso dos moluscos bivalves).

 

 

Os resíduos da aquicultura

O resíduo gerado pela produção nacional, em muitos casos, já é uma problemática local. Onde há produção aquícola, há geração de resíduos, líquidos, sólidos e “moles”. E na maioria dos casos, não se sabe o que fazer com este montante.

O desperdício de resíduos que são potencialmente utilizáveis (biomateriais e biomoléculas ativas) de peixes, moluscos e crustáceos representa de 20 a 70% de todo o pescado comercializado. Esta constatação tem despertado grande interesse quanto ao aproveitamento desses subprodutos, passíveis de diversas aplicações industriais. Uma indústria que utiliza apenas um terço de sua matéria-prima pode se tornar insustentável. O fato é que todos os anos, milhares de toneladas de resíduos potencialmente utilizáveis como fontes de biomateriais são descartados em aterros e/ou jogados de volta ao mar, desperdiçando matéria-prima e causando impactos ambientais consideráveis. Para se ter uma panorama, a indústria aquícola nacional gera atualmente mais de 430 mil toneladas de resíduos pós-beneficiamento (somando a produção da piscicultura continental, carcinicultura e malacocultura), e muito pouco deste volume tem destino nobre quanto matéria-prima.

Aproveitamento integral do pescado

 Cada vez mais a intensificação da produção exigirá a modernização técnica e melhoria dos cultivos para aumentar a eficiência econômica das indústrias relacionadas à aquicultura. O aproveitamento integral dos resíduos gerados por essas indústrias surge como uma alternativa para tornar o setor mais sustentável ao longo da cadeia produtiva, trazendo melhorias sociais, econômicas e ambientais. O destino correto dos resíduos permite que uma receita adicional seja gerada com a inserção de novos produtos no mercado, evitando desperdícios e diminuindo o impacto negativo ao meio ambiente (SEBRAE, 2015). Sabe-se que os organismos aquáticos são reconhecidos como fonte importante de moléculas de interesse. Considerando a diversidade de organismos comerciais, o resíduo já é tido como uma riquíssima fonte de moléculas bioativas com capacidade de atender diferentes segmentos industriais (Bezerra; Freitas-Jr, 2015). Apesar destas descobertas, do potencial e do volume gerado, ainda não temos uma indústria nacional de biomoléculas e se faz necessário investimentos e parcerias que esta nova indústria aconteça (Figura 1). O Aproveitamento Integral do Pescado (AIP) é um tema conhecido e, cada vez mais, uma necessidade.

A enorme potencialidade dos oceanos para a biotecnologia permanece em grande parte desconhecida. Mesmo para os organismos conhecidos, existe um conhecimento insuficiente para permitir a sua gestão e utilização inteligente (Brasil, 2010). Atualmente inexiste no país a indústria de biomateriais e biocompostos em funcionamento, apesar de algumas iniciativas privadas do setor no passado e investimentos incipientes atuais. É necessário que se façam maiores investimentos em Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação Tecnológica para que o potencial do pescado possa ser aproveitado por completo. Atualmente, as indústrias aquícolas implantadas e/ou em implantação, na grande maioria, não contemplam a utilização de toda a matéria-prima possível do pescado cultivado. Exaurir as possibilidades de comercialização de tudo que é produzido fará parte do pensamento do novo profissional e da indútria de pescado muito em breve. Seja por questões ambientas e/ou econômicas.

Considerando o aproveitamento integral do pescado, a utilização dos resíduos do beneficiamento na produção de biomateriais a partir de subprodutos com o investimento em pesquisa, desenvolvimento e inovação, a aquicultura se aproxima de temas como a Biotecnologia (pesquisa e aplicação de biomateriais), Ecoeficiência (relação economia/ambiente) e Economia Circular (redução, reutilização, recuperação e reciclagem de materiais e energia). Desta forma, a introdução desses temas se faz necessária quando o assunto é sobre biomateriais e ou moléculas bioativas a partir dos resíduos do processamento de organismos aquáticos.

 

Economia circular como conceito pilar para a ecoeficiência da aquicultura 

A Convenção sobre Diversidade Biológica da Organização das Nações Unidas (ONU) em 1992 definiu Biotecnologia como “qualquer aplicação tecnológica que utilize sistemas biológicos, organismos vivos ou seus derivados, para fabricar ou modificar produtos ou processos para utilização específica” (Figura 2). É um conjunto de técnicas de natureza variada que envolve uma base científica comum, de origem biológica, e que requer crescentemente o aporte de conhecimento científico e tecnológico, oriundos de outros campos do conhecimento (Brasil, 2010).

É sabido que os oceanos atingiram seu rendimento máximo, que a pesca está estagnada há décadas e que a produção mundial de pescado para consumo humano é cada vez mais dependente da aquicultura. A resposta para os desafios que se colocam frente ao aumento de produtividade, controle de doenças e danos ambientais, aplicando tecnologias avançadas para o cultivo de organismos marinhos, para satisfazer a necessidade crescente do mundo de alimentos, medicamentos e materiais do oceano sem a exploração excessiva e a destruição dos ambientes costeiros está no desenvolvimento dos avanços em Biotecnologia (Brasil, 2010).

A Ecoeficiência é definida como a produção de bens e serviços a preços competitivos que satisfaçam as necessidades humanas e tragam qualidade de vida, ao mesmo tempo em que, progressivamente, são reduzidos os impactos ambientais e o consumo de recursos naturais em todo o ciclo de vida, em consonância com a capacidade estimada do planeta em prover estes recursos e absorver os impactos (WBCSD, 2000). Segundo Glavic e Lukman (2007), a ecoeficiência significa produzir mais com menos, representando uma relação entre a economia e questões ambientais, sendo esta última, predominante na relação.

Segundo o WBCSD (2000), os três objetivos da ecoeficiência que são:

  1. Redução do consumo de recursos: inclui a minimização da utilização de energia, materiais, água e solo, englobando a reciclabilidade e a durabilidade do produto e fechando o ciclo dos materiais;
  2. Redução do impacto na natureza: inclui a minimização de emissões gasosas, descargas líquidas, eliminação de desperdícios e dispersão de substâncias tóxicas, assim como o fomento da utilização sustentável dos recursos renováveis;
  3. Aumentar o valor do produto ou serviço: significa beneficiar os clientes através da funcionalidade, flexibilidade e modularidade dos produtos.

A ecoeficiência é muito importante estrategicamente para o setor privado, já que permite que sejam reduzidos gastos com matérias-prima, energia e água, permitindo a prevenção de acidentes ambientais e suas consequentes sanções, além de conquistar mais consumidores (Camara; Lima; Pimenta, 2011). Além das vantagens para o setor privado, a ecoeficiência pode apoiar os governos a conceber uma estratégia nacional para o desenvolvimento sustentável. A economia e a qualidade de vida continuarão a crescer, enquanto a utilização dos recursos naturais e a poluição diminuirão (WBSCD, 2000).

A visão da Economia Circular (EC) é ainda mais recente. A EC vem sendo utilizada nas discussões sobre os desafios ambientais e promoção do desenvolvimento sustentável industrial. Ao contrário da reciclagem tradicional, a abordagem política orientada enfatiza a reutilização de produtos, componentes e materiais, remanufatura, remodelação, reparação, cascata de atualização, bem como o potencial de fontes de energia sustentáveis (Korhonen et al. 2018). Os modelos de EC, com um fluxo diferente da tradicional economia linear, mantêm o valor agregado nos produtos o maior tempo possível e minimizam o desperdício (Maio et al., 2017) (Figura 3).

Segundo Korhonen, Honkasalo e Seppälä (2018), em uma abordagem crítica sobre os conceitos de negócios em EC a partir da perspectiva do desenvolvimento sustentável e suas três dimensões, econômica- ambiental-social, sugerem como definição:

“A economia circular é uma economia construída a partir de sistemas de produção e consumo societários que maximizam o serviço produzido a partir da natureza linear – material de natureza da sociedade e fluxo de energia. Isso é feito usando fluxos de materiais cíclicos, fontes de energia renováveis e fluxos de energia. A economia circular bem sucedida contribui para as três dimensões do desenvolvimento sustentável, limitando o fluxo de produção a um nível que a natureza tolera e utilizando os ciclos do ecossistema nos ciclos econômicos, respeitando suas taxas de reprodução natural.” 

Os fluxos de resíduos produzidos pela sociedade podem servir como parte desses ciclos renováveis conjuntos. Este tipo de atividade é fortemente defendida nas recentes visões de negócios onde os chamados “nutrientes biológicos” das indústrias que utilizam biomassa são lançados de volta à biosfera, onde contribuem para o crescimento da biomassa e para a manutenção da biodiversidade (Korhonen; Honkasalo; Seppälä, 2018).

Em uma busca recente sobre o tema “Circular economy” no portal de artigos científicos ScienceDirect. verificamos a presença de 4007 resultados para artigos e revisões. Ao executarmos uma busca avançada somando o tema Aquaculture, encontramos 156 artigos indexados, sendo observado um interesse crescente nos últimos cinco anos sobre o assunto (Figura 4). Apesar disso, os artigos encontrados tratam mais sobre o sistema produtivo em si (ex.: sistemas de recirculação e/ou multitrófico integrado), do que uma visão global da indústria, como precede a visão da Economia Circular propriamente dita.

Em uma pesquisa recente, Maio e colaboradores (2017) propõem um novo indicador de valor para avaliar o desempenho em termos de eficiência de recursos e da economia circular. Dos 40 setores e indústrias analisados, a aquicultura e pesca aparecem com o menor valor neste índice de circularidade e eficiência, possivelmente pelo alto valor dos insumos, baixo valor agregado e pequeno volume de resíduos retornados à indústria para reaproveitamento.

 

Conclusão

 Com a crescente demanda por alimentos de qualidade, a importância da participação da aquicultura como fornecedora de pescado para consumo humano e o potencial dos resíduos gerados pela indústria de beneficiamento de pescado, a Economia Circular na Aquicultura se apresenta como uma importante ferramenta para a logística da matéria-prima e a biotecnologia para o desenvolvimento de inovações, resultando em práticas comerciais mais rentáveis e seguras.

 

Faça o download e confira o texto completo com todas as ilustrações. Clique aqui

 

Autor: Eng° Fabrício Flores Nunes
Diretor de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação Tecnológica do Instituto de Pesquisa, Extensão Rural e
Organismos Aquáticos – PEROÁ
Consultor em Novos Mercados da Aquicultura
Florianópolis, SC
fabriciofloresnunes@gmail.com