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Biofloco em caixa d’água: triste ilusão

Biofloco em caixa d’água: triste ilusão
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Em 2019, a cada minuto 4,5 milhões de vídeos são visualizados no YouTube, 18,1 milhões de textos são enviados pelo WhatsApp e 188 milhões de e-mails são enviados (dados da Visual Capitalist). Que velocidade de comunicação e disseminação de informações! E as notícias aquícolas, de carona nessa incrível transformação, chegam cada vez mais rápido aos interessados, como você, caro leitor. Falando nisso, quem nunca viu ou leu a respeito da criação de peixes ou camarões em caixas d´água? Notícias boas e ruins, fake news ou informações técnicas relevantes? Eis a questão.

A coluna “Atualidades e tendências da aquicultura”, do grande Fábio Sussel, publicada na 6ª edição de nossa revista impressa (e online em 30/07/17) é, até hoje, um dos maiores sucessos do portal Aquaculture Brasil (clique aqui para ler a coluna). Somente nos últimos 12 meses, foram 11.546 visualizações (dados estatísticos do Google Analytics), ficando em segundo lugar neste período entre as páginas mais acessadas da AB. O título da coluna em questão: “Criação de peixes em caixas d’água – nova moda entre os iniciantes”.

 

 

Apesar de, diariamente, quase 32 pessoas lerem o artigo supracitado nos últimos 12 meses, fico impressionado, e igualmente decepcionado, como também cresce o número de interessados em fazer exatamente o que o Sussel não recomendou! “Dá para produzir em caixas de 1.000L? Não! Comercialmente falando não. Engana-se quem começa a procurar informações sobre esta técnica de cultivo achando que conseguirá renda com poucas caixas de mil litros” (Sussel, 2017).

É preciso destacar a irresponsabilidade das pessoas que divulgam este tipo de informação. Nem em caixa d’água, nem atrás de casa ou do sítio! Aquicultura não é hobby, é negócio, e necessita de escala. Sistemas de recirculação aquícola e de bioflocos (antagônicos no conceito produtivo, mas similares em produtividade, tratamento e reutilização de água, biosseguridade, além do alto custo de produção), simplesmente são inviáveis em pequenos módulos!

Por exemplo, com 350 mil reais, você consegue construir cerca de 1.400 m³ de um sistema de bioflocos para camarões marinhos. Vamos supor que você produza 3 kg/m³/ciclo e faça três ciclos por ano. A produção anual será de 12.600 kg de camarões marinhos. Nada mal!… Será???… Preço de venda “pés no chão”, vamos considerar que você comercializou a produção, em média, por R$ 20,00/kg. Temos um faturamento bruto anual de 252 mil reais. Cuidado com os números distantes destes acima que são facilmente produzidos no WhattsApp. Como existem especialistas em bioflocos nas mídias sociais… lá se consegue 5-6 kg/m³/ciclo fácil fácil…

A produção e faturamento descritos são muito pequenos para um negócio aquícola intensivo, que alia alta produtividade e tecnificação, monitoramento constante (e os custos inerentes a isto), além dos altos riscos. O custo fixo, especialmente relativo à mão de obra, vai falir o projeto hipotético acima. Para qualquer projeto comercial, inclusive o que estamos superficialmente discutindo, precisamos de, no mínimo, três funcionários fixos. Salário médio de R$ 1.500,00/mês + encargos sociais, o custo com mão de obra chegará perto dos R$ 100 mil anuais! Estou considerando que um destes funcionários terá que trabalhar todas as noites, incluindo as madrugadas dos finais de semana e feriados, onde justamente a maioria dos problemas acontecem. Dividindo R$ 100.000,00/12.600 kg = R$ 7,94 de custo de mão de obra/kg de camarão.

Ainda nem falamos dos custos da ração ou energia elétrica, estes sim, talvez os principais itens de despesa de uma carcinicultura superintensiva. Mas nem é preciso “destrinchar” estes valores, o prejuízo do modelo hipotético acima é certo. Um projeto de 1.400 m³ não é viável nem aqui nem na China… e o custo fixo demonstra isso!

Lembro há 15-20 anos atrás, quando surgiram boa parte das fazendas de carcinicultura marinha que hoje ainda existem no Brasil. Em Santa Catarina, o tamanho médio das fazendas construídas foi de 14 ha. Com preço médio de R$ 50.000,00/ha para a construção, eram montantes ao redor de R$ 700.000,00 para implantar cada fazenda… isso há 20 anos atrás… Na época, só grandes investidores, empresários, ou produtores rurais que obtinham crédito via BNDES, conseguiam construir estes empreendimentos vultosos… eu como estudante de graduação em Engenharia de Aquicultura e mesmo depois de recém-formado, o máximo que sonhava era em poder assessorar tecnicamente as melhores fazendas da região. Era intangível para nós, simples mortais, sermos proprietários destes projetos imponentes e lucrativos. Era coisa para rico!

Hoje em dia, estamos falando em um sistema de produção muito mais complexo, vários passos a frente do descrito no parágrafo anterior. Fazendas que requerem substancial conhecimento técnico, recursos suficientes para investimento e custeio, e alguns aventureiros por aí, através do YouTube e mídias sociais, vendem falsas esperanças para leigos no assunto, de que é possível ter um negócio de produção de camarão marinho, altamente tecnológico e até certo ponto futurístico, por qualquer R$ 100,00 ou R$ 200,00 de investimento… lamentável…

Já combinei com o amigo Fábio Sussel, vamos combater estas falácias aquícolas. Artigos como este, significam apenas o início de um trabalho de esclarecimento que necessita ser feito. Vamos à luta, pelo bem da nossa querida aquicultura.

 

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