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Uso de óleos essenciais como alternativa para anestésicos sintéticos na aquicultura

Uso de óleos essenciais como alternativa para anestésicos sintéticos na aquicultura
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A anestesia geral tem sido utilizada em humanos desde a década de 1840. Entretanto, apenas foi introduzida na piscicultura em 1930, quase um século depois (Hoskonen e Pirhonen, 2004), de modo a facilitar os manejos realizados, e desde então, o uso de anestésicos vem sendo preconizado numa escala cada vez maior na aquicultura.

Anestesia pode ser definida como a perda geral ou parcial da sensibilidade a estímulos externos, ou seja, a perda da capacidade de resposta a esses estímulos por intermédio de agentes químicos ou físicos (Summerfelt et al., 1990), e é exatamente isso que se busca em um procedimento invasivo ou estressante. A ação de anestesiar pode ser executada de duas maneiras, por via injetável ou por meio da imersão dos peixes em uma solução anestésica, esta última mais difundida e utilizada, onde o fármaco é absorvido pelas brânquias e transportado via corrente sanguínea até o sistema nervoso central (SNC), promovendo depressão dose dependente e levando a um estado de anestesia induzida (Ross e Ross, 2008; Summerfelt et al., 1990).

Vários produtos químicos sintéticos vêm sendo utilizados com função anestésica na aquicultura, sendo os mais comuns: MS222 (metanosulfonato de tricaína), benzocaína, quinaldina, metomidato, 2-fenoxietanol (Ross e Ross, 1999; Hoskonen e Pirhonen, 2004; Oliveira et al., 2009). Entretanto, alguns produtos podem oferecer riscos ao manipulador e meio ambiente, além de necessitar um período de carência ao consumo do peixe exposto (Summerfelt et al., 1990) e apresentar dificuldade em ser adquirido ou ainda, apresentar alto custo de aquisição (Roubach e Gomes, 2001).

Nos últimos anos, pesquisas para avaliar produtos alternativos foram intensificadas (Weber et al., 2009; Hajek, 2011; Silva et al., 2012; Zeppendfeld et al., 2014; Parodi et al., 2014; Boijink et al., 2016; Ribeiro et al., 2016; Barbas et al., 2017) com intuito de buscar uma anestesia (produto/técnica) adequada e que não possuísse inconvenientes.

Alguns dos motivos mais relevantes que justifica-se estudar o uso de agentes anestésicos é o apelo relacionado ao bem-estar animal por parte do mercado consumidor, que cada vez mais exige um produto com selo de comprovação dessa natureza (Simões e Gomes, 2009), além das exigências das Comissões de Ética no Uso de Animais, que requerem gradativamente menos situações estressantes e dolorosas aos indivíduos utilizados em experimentos.

 

 

Anestésicos alternativos

Seguindo a linha de produtos naturais, os extrativos vegetais tem papel fundamental no avanço das pesquisas, visto que alguns óleos essenciais (OE’s) já estão bem estabelecidos, como é o caso dos compostos eugenol e o mentol, provindos principalmente do óleo de cravo (Eugenia caryphollata) e da menta (Mentha sp.), respectivamente (Ross e Ross, 1999; Hoskonen e Pirhonen, 2004; Oliveira et al., 2009). Além destes, nos últimos anos a pesquisa tem apesentado outras opções de OE’s como a Lúcia-lima – Aloysia tryphila (Gressler et al., 2012; Teixeira et al., 2017), erva cidreira brasileira – Lippia alba (Cunha et al., 2010; Becker et al., 2012), melaleuca – Melaleuca alternifólia (Correia et al., 2018), alfavaca – Ocimum gratissimum (Silva et al., 2012), jambú – Spilanthes acmella (Barbas et al., 2016; 2017), apresentando resultados bastante satisfatórios, conforme vemos à seguir:

  • Cravo da índia

O cravo-da-Índia (Eugenia caryphollata), como popularmente é conhecido, é uma árvore aromática nativa da Indonésia que pertence à família Myrtaceae (Frutuoso et al., 2013). O óleo de cravo é muito utilizado na aquicultura, teve sua atividade anestésica comprovada em diversas espécies como a Amphiprion clarkii, 50 μL L-1  (Correia et al., 2018); Arapaima gigas, 30 mg L-1  (Honczaryk e Inoue, 2009); Solea senegalensis, 30 mg L-1  (Weber et al., 2009); Astyanax altiparanae, 50 mg L-1 (Pereira-Da-Silva et al., 2009); Brycon hilarii, 100 mg L-1  (Fabiani et al., 2013); Centropomus parallelus, 37,5 mg L-1 (Souza et al., 2012); Oncorhynchus mykiss, 25 mg L-1 (Cotter e Rodnick, 2006); Oreochromis niloticus, 80 mg L-1 (Deriggi et al., 2006); Piaractus mesopotamicus, 50 mg L-1 (Gonçalves et al., 2008); Rhamdia quelen, 20 mg L-1   (Cunhae Rosa, 2006). Sabe-se que o Eugenol (principal componente), deprime o SNC, atuando como anestésico e analgésico (Correia et al., 2018).

  • Menta

A menta (Mentha sp.) pertence à família Lamiaceae e suas espécies são popularmente conhecidas como menta e hortelã. O óleo essencial de menta também já é uma realidade na anestesia em peixes, visto que há um número considerável de pesquisas comprovando sua eficácia anestésica em diversas espécies: Centropomus parallelus, 150 mg L-1 (Souza et al., 2012), Oreochromis niloticus, 250 mg L-1 (Simões e Gomes, 2009), Piaractus mesopotamicus, 100 mg L-1 (Gonçalves et al., 2008), Salminus brasiliensis 60 mg L-1 (Pádua et al., 2010). Seus componentes ativos, com propriedades anestésicas, são o mentol e o cineol (de Oliveira Hashimoto et al., 2016). Entretanto, para Simões e Gomes (2009) o mentol não deve ser considerado o anestésico de escolha para Oreochromis niloticus por causar uma hiperglicemia, configurando estresse.

  • Gênero Aloysia

É comumente encontrado na América do Sul, Norte e Europa. Pertence à família Verbenaceae e as espécies mais utilizadas para aplicação na aquicultura como anestésicos são a A. triphylla, A. gratissima e A. polystachya (Hoseini et al., 2018). Vários estudos comprovaram o efeito anestésico da Aloysia spp. em várias espécies de peixes: O. niloticus, 80 μL L-1 (A. triphylla; Teixeira et al., 2017); R. quelen, 135 mg L-1 (A. triphylla; Gressler et al., 2012); R. quelen, 100 μL L-1 (A. triphylla; Parodi et al., 2014); P. orbignyanus, 270 mg L-1 (A. gratissima; Benovit et al., 2012); R. quelen, 300 mg L-1 (A. gratissima; Benovit et al., 2015); E. marginatus, 100 μL L-1 (A. polystachya; Fogliarini et al., 2017).

  • Lippia

A Lippia alba é uma planta originária da América do Sul e Central. Tem em seu óleo essencial como principais componentes o linalool, citral e cineole (Toni et al., 2014). Foi utilizada com êxito como anestésico em Argyrosomus regius (Cárdenas et al., 2016), Hippocampus reidi (Cunha et al., 2011), R. quelen (Cunha et al., 2010) e R. quelen (Toni et al., 2014), respectivamente nas doses de 54 mg L-1, 50 μL L-1, 100 μL L-1 e 150 μL L-1. Em doses baixas, a Lippia alba suprime a perda iônica e o estresse oxidativo, embora provavelmente interfira na excreção de amônia, aumente o gasto de energia e diminua a atividade da acetilcolinesterase no cérebro (Azambuja et al., 2011; Becker et al., 2012; Salbego et al., 2017). Entretanto, em doses altas induz ao estresse fisiológico e oxidativo (Salbego et al., 2014; Toni et al., 2014).

  • Melaleuca alternifolia

Pertencente à família Myrtaceae, a Melaleuca alternifolia se mostra um bom anestésico para uso em peixes (Hajek, 2011; Correia et al., 2018). Arbórea nativa da Austrália, conhecida por “tea tree” (árvore de chá) é muito utilizada na medicina popular, além de propriedades anestésicas e analgésicas possui características antifúngicas, antibióticas e anti-inflamatórias. Tem como principais componentes o terpinen-4-ol e γ-terpineno (Carson e Riley, 2001; Carson et al., 2006). Foi comprovada sua atividade anestésica em Amphiprion clarkia (Correia et al., 2018); Cyprinus carpio L (Hajek, 2011); Rhamdia quelen (Souza et al., 2018) nas doses de 500 μl L-1, 0,4 mL L-1 e 1000 μL L−1, respectivamente.

  • Gênero Ocimum

O Ocimum é uma planta aromática originária da Ásia e África, utilizada na culinária e no tratamento da ansiedade, tosse e êmese (Lorenzi & Matos, 2002), pertence à família Laminaceae, os OE’s do gênero Ocimum proporcionam anestesia local e possuem atividade depressora do SNC (Pandey et al., 2014), tem como componentes predominantes o eugenol

e 1,8-cineole (Barbosa et al., 2007; Boijink et al., 2016; Ribeiro et al., 2016). O Ocimum americanum suprime o aumento nos níveis de cortisol (Hoseini et al., 2018) quando utilizado como anestésico, porém os níveis de glicose foram encontrados mais elevados (Silva et al., 2015). O O. americanum já foi utilizado com êxito em R. quelen com dose de 200 mg L-1 (Silva et al., 2015). O grande protagonista do gênero Ocimum, ainda é o O. gratissimum. Foi utilizado em B. cephalus (Ribeiro et al., 2016), C. macropomum (Boijink et al., 2016), P. orbignyanus (Benovit et al., 2012) e R. quelen (de Lima Silva et al., 2012) nas doses de 20, 50, 50 e 30 μL L-1,  respectivamente. Entretanto, de Lima Silva et al., (2012) observou aumento do volume corpuscular médio (VCM) e hemoglobina corpuscular média (HCM), além de hiperamonemia e hiperglicemia. Acredita-se que o mecanismo ao qual o OE faz uso para causar anestesia são os receptores GABA α-benzodiazepínicos (de Lima Silva et al., 2012).

  • Spilanthes acmella

A Spilanthes acmella pertence à família Asteraceae e é comumente encontrado na América, África e Ásia. A variedade oleracea é conhecida popularmente como Jambú e é uma erva típica da região norte do Brasil. Acredita-se que o composto com potencial anestésico contido na planta seja o spilantol (Nomura et al., 2013). Com 20 mg L−1 é capaz de induzir à anestesia no Colossoma macropomum (Barbas et al., 2016). Segundo Barbas et al. (2016), durante a recuperação causa algumas alterações fisiológicas leves no sangue.

 

Conclusão

É possível concluir que atualmente os óleos essenciais já são uma realidade implantada no universo dos anestésicos disponíveis para uso na aquicultura, e muitas são as alternativas com eficácia anestésica já comprovadas e seguras.

 

Autores: Eduardo da Silva*, Gabriel Deschamps, Adolfo Jatobá, Delano Dias Schleder, Artur de Lima Preto, Fernanda Guimarães de Carvalho, Jaqueline Inês Alves de Andrade, Carlize Lopes e Robilson Antonio Weber

Laboratório de Aquicultura – Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia Catarinense – IFC, Campus Araquari Araquari, SC *eduardo.silva.pr.em@gmail.com

 

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