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Projeto ReefBank – Usando biotecnologias a favor da conservação dos recifes de coral

Projeto ReefBank – Usando biotecnologias a favor da conservação dos recifes de coral
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A importância dos recifes de coral

É muito comum as pessoas se confundirem ao pensar que corais são plantas, ou até mesmo rochas. Os corais são na verdade animais invertebrados pertencentes ao filo Cnidaria, o mesmo das águas-vivas e anêmonas. Os corais pétreos, aqueles que apresentam esqueleto calcário, são os principais responsáveis pela construção dos recifes, e por isso são chamados de corais construtores. Cada indivíduo é chamado de pólipo, e a maioria vive em grupos de centenas a milhares de pólipos que formam colônias.

Os recifes de coral estão entre os ecossistemas de maior diversidade do planeta. Sua área total é muito inferior a 1% de todo o ambiente marinho, no entanto, estimativas colocam a diversidade de vida associada aos recifes de coral em até 2 milhões de espécies, perto de 25% de toda a vida marinha (Mulhall, 2007). Portanto, os recifes de coral desempenham um papel fundamental na renovação dos estoques pesqueiros que sustentam milhares de comunidades humanas ao redor do mundo. Além disso, facilitam a fixação de nitrogênio, a regulação do carbono e funcionam como barreiras naturais que protegem as áreas costeiras de ressacas e tempestades.

Estimativas colocam a diversidade de vida associada aos recifes de coral em até 2 milhões de espécies, perto de 25% de toda a vida marinha.

 Um planeta em mudança

Nos últimos 20 anos, os impactos antropogênicos globais têm se tornado cada vez mais preocupantes, e já não resta dúvidas que o clima do planeta está mudando (NOAA, 2016). A exacerbada emissão de gás carbônico (CO2) por meio da queima de combustíveis fósseis e desmatamento aumentou a temperatura em todo o planeta. Como resultado, eventos climáticos extremos como tempestades e inundações estão acontecendo com maior frequência.

No entanto, as mudanças não param por aí. A temperatura média da superfície do oceano aumentou cerca de 1 °C no último século, e a absorção de CO2 pelo oceano está tornando suas águas mais ácidas. Esse aumento de apenas 1 °C pode não parecer tão significativo na atmosfera terrestre, mas para a sensível vida marinha, é como viver em febre constante.

Um ecossistema ameaçado

O estresse térmico, causado pelo aumento da temperatura do mar, rompe a simbiose entre as microalgas (zooxantelas) que vivem dentro do tecido dos corais, e que são responsáveis pela coloração e fornecimento de alimento aos mesmos. Nessa condição, os corais tornam-se brancos – o chamado branqueamento (bleaching). Dependendo da intensidade do estresse, os corais não se recuperam e morrem. Em 2016, a temperatura recorde dos oceanos levou a um branqueamento generalizado nos recifes australianos. Pesquisas de monitoramento aéreo apontaram mortalidade média de 22% para toda a Grande Barreira de Corais (AIMS, 2016; Hughes et al., 2016), chegando em 83% na sua porção norte. Na costa brasileira, eventos de branqueamentos já têm sido observados há pelo menos duas décadas (Leão et al., 2016; Castro e Pires, 1999). As previsões indicam que esses eventos se tornarão ainda mais frequentes (Heron et al., 2016), diminuindo a resiliência dos corais e ameaçando os ecossistemas de recifes de coral em todo o mundo. Grandes eventos de mortalidade sem recuperação levam a uma diminuição na diversidade genética das populações de corais e a possibilidade de extinção de espécies é alta.

 

 

O nascimento do ReefBank

Os anos de experiência na área de aquicultura, especificamente na reprodução artificial de peixes, avaliação da qualidade de gametas e criopreservação (manutenção em baixa temperatura) de células reprodutivas, nos levaram a questionar: Essas biotecnologias poderiam ser utilizadas como ferramentas para ajudar na conservação dos corais?

Esse questionamento foi então apresentado ao Projeto Coral Vivo. Fundado em 2003 pelos professores do Museu Nacional/UFRJ – Clovis Castro e Débora Pires – o Projeto Coral Vivo é patrocinado pela Petrobras por meio do Programa Petrobras Socioambiental e atua na conservação e uso sustentável dos recifes de coral por meio de ações de pesquisa, ensino e extensão. A Rede de Pesquisas Coral Vivo é formada por pesquisadores associados oriundos de doze universidades e institutos de pesquisa. O apoio do Coral Vivo foi fundamental para a criação do ReefBank.

Nosso projeto traz uma proposta inédita de pesquisa no Brasil. A partir do conhecimento gerado pelo Coral Vivo acerca da biologia reprodutiva, nós estamos utilizando ferramentas tecnológicas como a reprodução in vitro e a criopreservação de gametas. Nosso objetivo é formar o primeiro banco de gametas de corais do Atlântico Sul. Os gametas poderão permanecer congelados por tempo indeterminando, e quando desejado, serão descongelados e darão origem a novos corais. Esses corais poderão então ser utilizados para repovoar e recuperar recifes degradados.

A equipe ReefBank é formada por pesquisadores, alunos de pós-graduação e graduação de instituições públicas e privadas. As espécies-alvo são aquelas conhecidas popularmente como corais-cérebro, dentre elas Mussismilia braziliensis, Mussismilia hispida e Mussismilia harttii. Esses corais estão entre os principais construtores dos recifes brasileiros. Nossa área de estudo é o Parque Marinho do Recife de Fora, localizado em Porto Seguro (BA), e parte das atividades são conduzidas na Base de Pesquisa do Coral Vivo em Arraial d’Ajuda.

 

O nosso objetivo é formar o primeiro banco de gametas de corais do Atlântico Sul.

 

Conscientização ambiental

Se para muitas pessoas a degradação no ambiente terrestre passa despercebida, já imaginou no ambiente marinho? Pensando nisso nós decidimos que, além da pesquisa científica, teríamos que achar uma maneira de fazer a população perceber o que está acontecendo embaixo d´água. Só é possível preservar aquilo que se conhece. Foi com esse objetivo que criamos o perfil do ReefBank nas redes sociais, para falar de ciência ambiental e recifes de coral de uma forma simples e interativa, informando e educando de modo consciente, a sociedade em geral.

Apoiadores

Além do apoio constante do Projeto Coral Vivo, ao final de 2018 tivemos duas propostas aprovadas em editais de instituições privadas voltadas à conservação da natureza, são elas: a Fundação Grupo Boticário e o Fundo Brasileiro para a Biodiversidade (FUNBIO). Esse apoios serão fundamentais para que consigamos desenvolver nossas atividades em prol da conservação dos recifes de coral brasileiros.

Nas próximas edições, traremos informações sobre a biologia reprodutiva, a formação dos recifes e como a aquicultura poderá contribuir com a recuperação e conservação deste importante ecossistema.

 

Autor: Leandro Godoy

Universidade Federal do Rio Grande do Sul, UFRGS

Porto Alegre, RS

projetoreefbank@gmail.com

 

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