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Perifíton: uma opção de alimento complementar na aquicultura – Parte III

Perifíton: uma opção de alimento complementar na aquicultura – Parte III
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Como visto nas edições anteriores, o perifíton é um importante componente de ambientes aquáticos, formado por grupos de microrganismos taxonomicamente diversos e de alto valor nutricional. Mas será que o perifíton possui aplicabilidade na produção aquícola? Existe algum benefício na qualidade da água? Alguma espécie aproveita o perifíton? Existem espécies nativas que podemos utilizar na produção com perifíton? Quais os benefícios econômicos o perifíton pode proporcionar ao produtor? Estas são perguntas que tentaremos responder no decorrer deste texto.

 

 

Potencial produtivo do uso de substratos na aquicultura

Pesquisas práticas têm mostrado que a inclusão de perifíton em sistemas de produção aquícola representa potencial técnico a ser explorado. Isto pode ser evidenciado tanto em monocultivos quanto em policultivos usando perifíton como alimento complementar. Este recurso proporciona maior produtividade e menor conversão alimentar, principalmente no cultivo de tilápias, carpas e camarões de água doce (Figura 1).

A comunidade perifítica pode ser considerada um bioindicador sobre o estado trófico dos ambientes aquáticos, respondendo rapidamente às alterações abióticas ocorridas no ambiente de cultivo, tornando-a ideal no monitoramento da qualidade da água. Em relação aos parâmetros de água, o perifíton pode influenciar nos níveis de oxigênio, isto porque a presença de organismos autotróficos e heterotróficos podem, respectivamente, produzir e consumir oxigênio dentro do sistema. Por outro lado, o perifíton pode diminuir as quantidades de amônia, nitrito, nitrato e fósforo, atuando na ciclagem de nutrientes inorgânicos. É importante ressaltar que níveis elevados de amônia e nitrito são tóxicos aos organismos cultiváveis, podem provocar altas mortalidades e consequentemente prejuízos econômicos.

De maneira geral, grande parte das espécies de organismos que ocupam as posições iniciais da cadeia alimentar aquática, como peixes herbívoros, onívoros e crustáceos são aptas ao aproveitamento do perifíton como recurso alimentar. Partindo deste princípio, existem espécies nativas de peixes que podemos utilizar? Ainda são necessárias pesquisas referentes a utilização do perifíton na alimentação dos peixes nativos em escala comercial, contudo na Figura 2 apresentamos alguns peixes nativos com potencialidades quanto ao uso do perifíton, devido a seus hábitos alimentares e estruturas morfofisiológicas que auxiliam na captura e digestão deste alimento natural.

Muitos trabalhos referentes a comunidade perifítica têm sido realizados para conhecer sua taxonomia e composição nutricional. No entanto, existe a necessidade de estudos sobre o desempenho dos organismos aquáticos com fins econômicos em escala comercial de cultivo, pois são escassas pesquisas que determinam a viabilidade técnica e econômica deste tipo de manejo. Os trabalhos disponíveis na literatura (Figura 1) utilizam substratos para produção de perifíton em sistemas de produção extensivos e em localidades onde não há grande disponibilidade de ração comercial.

Nosso grupo de pesquisa tem se dedicado a testar o uso de substratos em sistemas de produção super-intensivos (tanques-rede) e intensivos (viveiros escavados) (Figura 3), mais comuns no Brasil. Os resultados são promissores em ambos os sistemas de produção para monocultivos de tilápia do Nilo, desde as fases iniciais até as finais, proporcionando, principalmente, economia no uso de ração e consequente redução no custo de produção.

Benefícios econômicos promovidos pelo perifíton

Análises econômicas têm mostrado melhor rentabilidade no uso de perifíton em viveiros para produção de alevinos de Carpa (Labeo rohita), em que houve incremento em mais de 35% na relação custo benefício quando se utilizou o perifíton em comparação a mesma em modelo convencional (sem perifíton) (Huda et al., 2002). Melhorar a relação custo benefício significa aumentar a produção com menor uso de insumos, sendo a ração o insumo de maior custo na produção aquícola. Na produção de tilápias em tanques-rede (peso de abate de 800 g), a utilização de substratos de bambu associada à restrição alimentar garante maior lucro operacional e lucratividade, devido ao menor aporte da ração (Garcia et al., 2017). Isto porque, peixes confinados sob restrição alimentar com substratos de perifíton buscam alimentação natural para suprir a exigência nutricional ocasionada pela falta da ração. Desta maneira, a inserção de substrato é uma opção interessante para pequenos piscicultores, pois lhes permite reduzir a dependência de alimentação comercial, diminuir os custos e aumentar os lucros com medidas simples de serem implantadas.

Podemos concluir que o uso de substratos artificiais para produção de perifíton proporciona muitos benefícios na aquicultura. Por reduzir o custo de produção e aumentar a rentabilidade, esta técnica é muito recomendada para produtores familiares ou com pequena lâmina d’agua,
por permitir que obtenham renda mesmo em pequenos módulos de produção. Assim terminamos a terceira e última parte da série de artigos: “Perifíton: uma opção de alimento complementar na aquicultura”. Esperamos ter contribuído com a propagação do conhecimento e estamos à disposição para esclarecimentos. Até a próxima.

A inserção de substrato é uma opção interessante para pequenos piscicultores, pois lhes permite reduzir a dependência de alimentação comercial, diminuir os custos e aumentar os lucros com medidas simples de serem implantadas.

 

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Autores:

Denis William Johansem de Campos*
Luiz Henrique Castro David
Roberta Almeida Rodrigues
Centro de Aquicultura da UNESP – CAUNESP
Universidade Estadual Paulista (UNESP)
Jaboticabal, SP
*campos.dwj@gmail.com

Daiane Mompean Romera
Instituto Agronômico de Campinas – APTA
Fabiana Garcia
Centro de Aquicultura da UNESP – CAUNESP
Universidade Estadual Paulista (UNESP)
Instituto de Pesca
Centro do Pescado Continental – APTA