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Captura, maturação e larvicultura do camarão nativo para repovoamento no litoral do Rio de Janeiro

Captura, maturação e larvicultura do camarão nativo para repovoamento no litoral do Rio de Janeiro
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A aquicultura, além de fornecer proteína de qualidade ao mundo, diminuindo a pressão aos estoques pesqueiros, pode contribuir para o repovoamento de espécies nativas. Esse inclusive, foi o objetivo inicial da então construída, em 1989, Estação Marinha de Aquacultura (EMA), da Universidade Federal do Rio Grande (FURG), localizada no bairro Cassino, cidade de Rio Grande, RS.

Ali se intensificaram as pesquisas sobre o camarão nativo Farfantepenaeus paulensis, que ocorre desde o litoral da Bahia até o litoral nordeste da Argentina. Esta espécie, popularmente conhecida como camarão-rosa, foi alvo de estudos para repovoamento do estuário da Lagoa dos Patos. Graças a esses esforços o pacote tecnológico de reprodução, maturação, desova, larvicultura e engorda da espécie foi elaborado com sucesso.

Já faz alguns anos que o foco das pesquisas do grupo migrou para a produção de Litopenaeus vannamei em sistemas intensivos (bioflocos), contudo, o pacote tecnológico gerado acerca do F. paulensis ainda é colocado em prática. Quase que anualmente, desde 1998, a equipe do Projeto Camarão da EMA realiza a captura de reprodutores de camarão-rosa no ambiente natural e traz para o laboratório. O objetivo é fazer a larvicultura do camarão nativo e destinar estas larvas para o projeto de repovoamento no litoral do Rio de Janeiro.

 

 

Esse artigo irá abordar todas as etapas, desde a captura em ambiente natural até a larvicultura e liberação desses animais na ilha Guaiba, junto à baía de Sepetiba, no estado do Rio de Janeiro. Neste último ano a liberação foi realizada no mês de novembro de 2018. O presente manuscrito leva o nome de vários autores, já que exige o esforço e dedicação de diversos alunos do Programa de Pós Graduação em Aquicultura da FURG, professores e técnicos para realização da captura de matrizes, transporte, aclimatação, maturação, desova, larvicultura e novo transporte para o Rio de Janeiro.

Captura e aclimatação dos reprodutores

A captura dos reprodutores foi realizada no litoral de Santa Catarina, partindo da cidade de Itajaí. A equipe contou com o auxílio de pescadores da região com embarcação de pesca de arrasto tipo tangone, sendo necessário apenas uma saída ao mar de 24 h para a captura. Após cada arrasto eram selecionados os camarões adultos em função da espécie, sexo, tamanho, estágio de maturação e condição geral do animal. Neste embarque um total de 500 animais foram capturados e acondicionados em caixas de transporte para serem levados de Armação de Itapocorói (Penha – SC) até a EMA, Rio Grande RS. O percurso durou 12 horas, sendo monitorado periodicamente o oxigênio
dissolvido e temperatura.

Ao chegar no laboratório de Carcinocultura da EMA os camarões foram aclimatados em dois tanques circulares de concreto, com capacidade de 12.000 L e volume útil de 4.000 L. Ali permaneceram por um período de cinco dias, com sobrevivência final de 90%, desde a captura até o final da aclimatação. Duas vezes ao dia era fornecida uma dieta que contemplava um mix de lula, peixe e marisco branco.

Maturação

Após a aclimatação as fêmeas foram selecionadas e induzidas à maturação gonadal através da ablação unilateral do pedúnculo ocular. Posteriormente foram distribuídas em quatro tanques de concreto iguais aos da aclimatação. Os machos também foram distribuídos nestes mesmos quatro tanques, na proporção de um macho para cada duas fêmeas. O fotoperíodo invertido foi controlado em 14h claro e 10h escuro, a temperatura média mantida em 27°C e a salinidade em 30. A taxa de alimentação manteve-se duas vezes ao dia, com 10-30% de alimento fresco fornecido de acordo com a biomassa estocada. A qualidade de água foi mantida através de renovações parciais de 50% ao dia.

Diariamente as fêmeas maturas eram selecionadas e transferidas para o setor de desova, de acordo com o estágio de desenvolvimento das gônadas, que compreende a visualização da cor e forma da mesma. Tal visualização classifica a gônada em um dos seis estágios:
1. Sem desenvolvimento: gônada fina e translúcida, quase imperceptível;
2. Em desenvolvimento: é possível a visualização da gônada que tem uma forma muito fina, sem contornos claros;
3. Branco: a gônada aumenta de tamanho, facilmente visível no dorso do animal, a cor apresenta-se branco leitosa, principalmente no primeiro somito abdominal;
4. Amarelo: a gônada apresenta aspecto maciço e coloração variando de amarelo claro a amarelo escuro;
5. Verde (maturo): gônada facilmente visível, com uma coloração variando de verde claro a verde- oliva, apresenta-se em uma larga faixa de aspecto maciço e irregular. Ideal para seleção à desova;
6. Desovado: gônada com aspecto vazio, semelhante ao estágio em desenvolvimento. Pode ocorrer uma re-maturação.

Desova

Somente as fêmeas no estágio 5, fase em que a coloração das gônadas está verde-oliva, eram selecionadas e transferidas para a sala de desova. A sala contém 25 caixas de desova com volume de 150 L cada e a temperatura foi controlada entre 28 e 30°C. As fêmeas permaneceram nas caixas de desova de 12 a 14 horas, período suficiente para ocorrer a desova. Logo após, as mesmas eram recolhidas e devolvidas aos respectivos tanques de maturação.

Diariamente uma amostra de 100 ml de água era coletada de cada caixa de desova para análise em microscópio óptico a fim de verificar se os ovos estavam fertilizados e estimar a taxa de eclosão. Nas caixas onde se apresentava taxa de fertilização maior que 70%, os ovos eram recolhidos, lavados com água do mar filtrada, iodo (10 mg/L) e formol (20 mg/L) e passados para as incubadoras (50 L) na densidade máxima de 2.000 ovos/L. No total foram cerca de 10 milhões de ovos coletados em um período de cinco dias.

Nas incubadoras a eclosão para náuplio ocorre entre 15 a 16 horas após a desova e completa o desenvolvimento dos seis subestágios desta fase cerca de 48 depois. Estes sofrem uma metamorfose para a fase de protozoea, onde já exigem alimentação exógena. Assim, 24 horas após a incubação os náuplios eram coletados (em estágio III e IV) e transferidos para o setor de larvicultura.

Larvicultura

Os tanques de larvicultura (10.000 L de volume útil) estavam preparados com água do mar filtrada (clorada e declorada), aeração constante e temperatura média de 28°C. Antes da chegada dos náuplio, e diariamente até o final da larvicultura, foi adicionado na água probiótico (Pro-W Inve®) para minimizar a ação de bactérias, principalmente do gênero Víbrio.

Os náuplios foram estocados em uma densidade de 150 animais/L e algumas horas depois, quando passavam para o estágio de protozoea, eram alimentados com microalgas Chaetoceros muelleri e Conticribra weissflogii na densidade de 5×104 cél/L até o estágio de protozoea III. Posterior a essa fase os animais sofrem metamorfose para misis, quando então passou a ser ofertado náuplios de Artemia sp. (Inve®) congelada e dieta específica para cada fase de desenvolvimento (Inve®). Após os três estágios de misis a última metamorfose é para pós-larva, quando os camarões passaram a receber náuplios de Artemia sp. recém eclodidos, intercalado com dieta comercial.

Diariamente era monitorado os compostos nitrogenados do sistema, fazendo renovações de 40% do volume do tanque dia sim e dia não, além de análise do estágio de desenvolvimento das larvas.

Para envio ao Rio de Janeiro, as pós-larvas foram cultivadas até no mínimo PL 8, tendo até PL 12 em virtude das estocagens diárias ao longo dos 5 dias em que foi realizada a desova.

 

Preparação e transporte dos camarões

Cerca de 24 horas antes de embalar as pós larvas para o transporte, o aquecedor de cada tanque foi desligado para baixar a temperatura. Após esse período, os tanques foram abertos para baixar o volume e com auxílio de um coletor com malha de 300 μm as pós larvas ficavam retidas, sendo transferidas para 3 caixas cilindro cônicas com 150 L de água do mar filtrada. Após todas as pós larvas estarem concentradas nestas caixas, um forte sistema de aeração homogeneizou as mesmas na coluna d’água. Na sequência, amostras de 100 ml de água foram retiradas para estimar o número de pós larvas em cada caixa. Posteriormente, o volume foi dividido para sacos de transporte, que continham cerca de 20 mil pós larvas. Os sacos foram preenchidos com água do mar filtrada até um volume de 15 L e preenchidos com oxigênio puro em uma proporção de um terço de água e dois terços de oxigênio. Os sacos foram acondicionados em caixas de isopor de forma individual,
lacrados e enviados via rodoviária para o aeroporto de Porto Alegre, de onde a carga foi despachada por transporte aéreo até o Rio de Janeiro. Todo esse processo foi dividido em dois dias, enviando 50 caixas por vez.

 

Recepção e liberação no ambientenatural

Ao chegarem no aeroporto do Rio de Janeiro as caixas de isopor foram transportadas via rodoviária para Mangaratiba – RJ. Deste local as caixas seguiram de lancha até a Ilha Guaíba na Baía de Sepetiba, RJ. Na chegada as pós larvas foram aclimatadas de sete a dez dias, junto à estruturas de aclimatação da VALE S.A. e liberadas para o ambiente na região da Baía de Sepetiba, RJ.

    

 

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