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Entrevista: João Manoel C. Alves

Entrevista: João Manoel C. Alves
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João Manoel C. Alves

Zootecnista (1982), mestre em aquicultura e há 16 anos (2002 até o momento) trabalha na Guabi Nutrição e Saúde Animal, atualmente como Gerente de Produtos para aquicultura.

Sua afinidade com o mundo aqua começou ainda quando criança, pois tinha como hobby mexer com aquários. Atualmente João é um dos grandes nomes da aquicultura, já esteve em mais de 30 países, sendo que 95% de suas viagens foram a negócios ou eventos do setor aquícola. Com a mente aberta, João comenta nesta entrevista sobre ingredientes alternativos nas rações, capacidade de suporte em reservatórios e qualidade das rações, entre outros assuntos.

 

AQUACULTURE BRASIL: Você é zootecnista de formação há 28 anos, ou seja, formou-se em um tempo que a aquicultura era uma atividade ainda pouquíssimo conhecida no Brasil. Como foi essa sua aproximação com a aquicultura?

João Manoel: A nutrição era o que eu gostava, mas não conhecia zootecnia, era um curso ainda muito raro. Assim, ingressei em agronomia. Já cursando, descobri que tinha um cara no Brasil que havia ido fazer um curso no Japão pela FAO e lecionava em Jaboticabal, um dos únicos lugares que oferecia a disciplina de piscicultura. A pessoa em questão era o Prof. Newton Castagnolli. De imediato larguei a agronomia e fui fazer zootecnia em Jaboticabal. Quando estava para me formar, pensei “Vou trabalhar com peixe aonde?”. Como gostava de nutrição, fiquei trabalhando com dois professores, o Pedro e o Cacau de Andrade. Com eles aprendi a formular rações, entender exigência
nutricional, ingredientes etc. Quando me formei fui para o Mato Grosso do Sul montar uma fazenda de peixe. Talvez fosse um dos primeiros pesque-pagues no Brasil, porque foi no início de 1983. A nossa ideia era montar uma estação de reprodução, produção de alevinos e engorda. Tinha uma represa de 38 alqueires que íamos fazer uns chalés para as pessoas pescarem. Já havia as cotas de pesca, do MS só era permitido
trazer 30kg de peixe e mais um exemplar. Mas com o pesque-pague as pessoas poderiam pescar ali as mesmas espécies do Pantanal, e para quem desejasse voltar com mais do que 30 kg de peixes, passaria ali para comprar. Cheguei a ir para Brasília apresentar o projeto ao presidente do banco que ia conceder o financiamento. Mas acabou não saindo do papel. Depois acabei atuando com zootecnia de modo geral,
formulando rações para ruminantes, aves, registrando produtos, entre outras funções. Ao final da década de 80 começaram a surgir os pesque-pagues e senti que era hora de me preparar e me dedicar para esse mercado que estava começando. Assim, comecei o mestrado
no ano de 95/96, ou seja, alguns anos depois de formado. O que eu acho que foi uma boa, porque o pessoal sai da graduação hoje e vai direto
para a pós-graduação, isso é uma exigência que a maioria das empresas tem e acredito que seja em virtude de a formação hoje ser mais deficiente do que quando eu me formei, por exemplo. Após o mestrado comecei a pegar trabalhos somente de aquicultura e a Fri-Ribe, que
hoje é Trouw Nutrition, estava procurando uma pessoa pra contratar e eu acabei ocupando a vaga, em 1999. Em 2002 fui para a Guabi onde estou até hoje.

 

AQUACULTURE BRASIL: Quais os principais avanços em nutrição do setor aquícola que você acompanhou?

João Manoel: Muita coisa! Por exemplo, na graduação quando trabalhava no setor de piscicultura, nós misturávamos em um tambor grande abóbora, milho, madioca, etc, colocávamos água, depois algumas lenhas em baixo para fazer o fogo e deixávamos cozinhando. No outro dia usávamos aquela mistura para alimentar os peixes. Chegamos a usar muita ração de frango pra dar aos peixes e também já peletizei muita ração com máquina de moer carne. Ou seja, mudou demais, desde os ingredientes que hoje nós conhecemos muito melhor e a indústria farmacêutica que também acompanhou essa evolução. Temos vitaminas que podem passar dentro de extrusoras com temperatura e pressão
muito altas, e que se recupera 99% da vitamina. Além disso, sabemos também muita coisa sobre a exigência nutricional. A Guabi por exemplo, formula ração com proteína ideal, balanceando cada aminoácido. É uma precisão muito grande comparada há 30 anos atrás. Mas ainda é uma imprecisão muito grande comparada à indústria de suínos e aves. Atualmente se sabe por exemplo a exigência nutricional diária de uma das principais linhagens de frango. Mesmo de tilápia que é o nosso peixe mais produzido não estamos no mesmo nível destas indústrias. E acho muito difícil que consigamos chegar nessa precisão, porque para peixe são muitas incógnitas com muitas variáveis, desde espécie, temperatura etc., e não consigo visualizar as respostas. Por isso acredito tanto nas fazendas com tudo controlado, as variáveis diminuem e a precisão aumenta.

 

 

AQUACULTURE BRASIL: Quais as suas considerações sobre ingredientes alternativos nas rações, como o uso de farinha de insetos?

João Manoel: Acho muito legal, acredito que não podemos descartar nenhuma fonte possível e todas elas são passíveis de serem utilizadas. Sobre a farinha de inseto, ela ainda é muito cara e não tem uma produção muito grande. Nós da Guabi temos a intenção de produzir um pouco de farinha de insetos para usar nas rações iniciais, porque elas têm gorduras muito boas e interessante perfil de aminoácidos. Porém
do ponto de vista “custo” ainda é inviável. Pensando na Guabi, que vai produzir perto de 90 mil toneladas de ração de aquicultura esse ano, se a empresa for usar 1% desse ingrediente, vou precisar de 900 toneladas de farinha de inseto e sabemos que não vamos ter isso, é uma quantidade muito grande. Estamos pensando em usar em alguns produtos mais específicos, como rações iniciais ou uma ração para
um peixe carnívoro ou alguma outra ainda mais específica que exija mais esse perfil nutricional. Tudo é passível de ser usado e pode ser aproveitado, só é preciso pensar em volume de produção e muitos estudos antes de começar a usar em grande escala.

 

AQUACULTURE BRASIL: Existem novidades nas rações para espécies nativas no Brasil?

João Manoel: Nós temos prontas rações específicas para peixes redondos, mas estão engavetadas. São rações formuladas com proteína ideal (perfil de aminoácidos na mesma proporção dos aminoácidos no corpo do peixe) que minimizam a excreção, são mais fáceis de serem metabolizadas, melhoram qualidade de filé e não deixam excesso de gordura na carcaça e vísceras. Com isso há mais crescimento, melhor
qualidade de água e é possível colocar mais peixes no mesmo ambiente. No entanto estes peixes são produzidos em sistemas bastante extensivos e com pouca avaliação de custos. Temos também uma ração para carnívoros de água doce que dá resultados excelentes (também com proteína ideal), especialmente em crescimento e redução de gordura na carcaça, que já está sendo comercializada. Mas os produtores do
Brasil e em boa parte do mundo não fazem muitas contas e acabam atraídos por produtos mais baratos. Estamos lançando um programa que demos o nome de Projeto Aqua do Futuro. Com ele esperamos ajudar os clientes a ficarem mais exigentes, que queiram, possam e saibam tirar o maior proveito dos investimentos e trabalho duro que é tocar uma fazenda aquática. A aplicação destas ferramentas permite escolher
o melhor programa nutricional, a melhor alocação de recursos, prever despesas, receitas, etc. É uma grande oportunidade de buscar o máximo desempenho.

 

AQUACULTURE BRASIL: O que mudou na Guabi com a compra de 51% da empresa pela Alltech?

João Manoel: Na essência nada, mas melhorou o que já era bom. As duas empresas têm o mesmo DNA, fundadas por dois empresários (Dr. Thor Haaland fundou a Guabi em 1974 e Dr. Pearse Lyons fundou a Alltech em 1980) que se mantiveram à frente delas enquanto viveram, eram amigos e pensavam parecido. A Guabi é cliente das tecnologias Alltech há muito tempo, sendo uma das maiores clientes na América do Sul. Com a chegada da Alltech fizemos investimentos nas fábricas e, como a Alltech está em mais de 120 países, nos ajudará nas exportações. As duas seguem separadas, mas as decisões são tomadas pelo Conselho, constituído por pessoas das duas empresas. Não foi preciso fazer mudanças na essência da Guabi, as duas empresas sempre trabalharam buscando inovações, produtos de qualidade, proximidade com os clientes e com os mercados, apoio ao desenvolvimento através de parcerias com Centros de Pesquisa e seus pesquisadores.

 

AQUACULTURE BRASIL: A discussão da capacidade de suporte nos reservatórios passa pela questão da qualidade da ração utilizada pelos produtores. Qual sua visão com relação a esta problemática?

João Manoel: Está aí um problema que precisa ser encaminhado rapidamente. Conhecemos pouco sobre a capacidade de suporte dos nossos reservatórios, que têm um potencial enorme para desenvolver a aquicultura. Cada um é um organismo diferente, isso mesmo, um organismo vivo. E a legislação trata todos igualmente. Quando falamos em aquicultura a primeira coisa que vem à cabeça da maioria das pessoas é o aporte de nutrientes pela ração. Mas nos esquecemos dos fertilizantes, das excreções de animais em pastejo, das enxurradas que carreiam de tudo e principalmente dos esgotos urbanos e industriais. Essa pergunta pode ser assunto para uma edição inteira da Aquaculture Brasil.
Excreções de animais quando no solo são fertilizantes, mas na água são considerados poluentes terríveis. Do solo vão para o lençol freático ou vão em enxurradas para rios, lagos, represas, reservatórios, etc. Na verdade, a presença do homem provoca impactos sempre e precisamos minimizar o máximo possível e as rações podem contribuir com isso, mas caímos nos custos outra vez. Uma ração que produza excreções com menos fósforo e nitrogênio, os principais impactantes nas águas de cultivo, custa mais que uma ração mais rica nestes nutrientes, o que pode parecer estranho. Com mais proteína (principalmente) pode ser mais barato. Proteína de baixa digestibilidade não é usada como fonte de aminoácidos e é excretada como N e P, além de outras substâncias. Colocar nutrientes mais digestíveis é a solução, além disso, grandes
avanços têm sido feitos com a adição de enzimas às rações para peixes e camarões. Acredito que rapidamente os próprios produtores vão se preocupar com isso, rações mais digestíveis podem ser mais caras, mas muito provavelmente o custo de produção por quilo de peixe ou camarão seja mais baixo, a quantidade de peixes e camarões produzida por metro quadrado seja maior, o tempo de cultivo menor, e por aí vão as vantagens que precisam ser mostradas. A tentação de comprar coisas mais baratas é quase irresistível.

AQUACULTURE BRASIL: Em tempos eleitorais, vale a pergunta, o que um presidente tem que apresentar de propostas para ganhar o voto do João Manoel?

João Manoel: Vale a pergunta e vale a resposta. O país atravessa uma fase horrível e só vamos acabar com ela conversando, baixando tom. Estamos como um casal que se separa, vive brigando e se esquece que o importante são os filhos. O Brasil precisa de paz, paz só se tem com justiça, justiça só se tem com igualdade. Meu voto iria para o candidato que oferecesse caminhos para apaziguar o país (chega de nós contra eles), que diminuísse as diferenças entre os grupos de pessoas, que fizesse um estado menor, que cuidasse primeiro da saúde, da segurança, da educação, e do futuro. Nosso país tem um potencial como poucos no mundo, mas é incerto. Votaria em alguém que fizesse projetos viáveis
e não promessas vazias, falam, falam, acusam, mas não falam como, com que recursos vão fazer o que prometem. Meu presidente ideal teria que ser um cara manso, firme, mas manso. Bom ouvidor, coração mais humano, capaz de se colocar no lugar dos injustiçados. Digo que votaria “nele” por que “ele” não é candidato, não apareceu ainda. Mas, irei votar em alguém. Como a maioria dos brasileiros, vou votar no que tiver mais chance de ganhar dos que mais tenho medo. A esse momento as pesquisas só me trazem mais dúvidas. Mas democracia é assim, difícil e o aprendizado demorado.

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