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Garoupas ao mar: conservação, crowdfunding e programa de recompensas para os apoiadores do projeto

Garoupas ao mar: conservação, crowdfunding e programa de recompensas para os apoiadores do projeto
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O projeto Garoupas ao Mar

Tenho certeza que compartilho com muitos o sentimento de que aqui no Brasil grande parte do domínio da produção de peixes nativos foi realizada através de pesquisas privadas realizadas nos cultivos e financiadas pelos próprios aquicultores. Assim também é o nosso trabalho na Redemar. Fazemos papel de Estado quando fazemos pesquisa e quando fazemos fomento da atividade. Há cerca de 2 anos, depois de 10 anos de pesquisas privadas, conseguimos fechar os protocolos de produção de alevinos de garoupas e, por se tratar de uma espécie ameaçada, nos veio a ideia de utilizar os alevinos em projetos de repovoamento para recuperar os estoques na natureza.

Pensamos então em várias formas de alavancar um projeto desta natureza. Primeiramente, montamos um bom time através de uma associação não governamental (www.atevi.org.br), com especialistas em Genética (LAGOAA), em avaliação do ambiente marinho (Instituto de Pesca), mergulhadores e biólogos marinhos, com a anuência da APA Marinha do Litoral Norte de São Paulo. Mas quem financiaria um projeto de interesse difuso da coletividade? Ele não interessa a mim ou a você especificamente, mas à sociedade como um todo. E já sabemos que com os recursos públicos não podemos contar….

Depois de definido o Projeto “Garoupas ao Mar”, chegamos à conclusão que para arrecadar os fundos necessários, a melhor opção seria um financiamento coletivo ou crowdfunding. Um tipo de “vaquinha” repaginada pela internet. E assim estamos fazendo.

Neste tipo de financiamento coletivo, o indivíduo que se interessa pela causa entra no site da plataforma de financiamento, se informa sobre os detalhes do projeto, escolhe uma recompensa que esteja de acordo com o valor da sua doação e faz o pagamento com boleto ou cartão de crédito. Tem recompensa de certificado de adoção, camiseta, mergulhos e concorre até a um final de semana em suíte cinco estrelas no Hotel mais badalado de Ilhabela (DPNY). Mas, especificamente para nosso setor, chamam a atenção duas recompensas: Curso de produção de alimento vivo para larvicultura de peixes marinhos (5 dias hands on) e Curso de larvicultura de bijupirá (30 dias hands on). Os cursos serão realizados na Redemar Alevinos em Ilhabela, SP.

A plataforma recolhe os valores das doações durante 60 dias e se alguma coisa der errado na campanha ela devolve o dinheiro ao doador. Se tudo ocorrer como esperado este valor é transferido para o Projeto e ele se inicia.

 

 

Justificativa do projeto

A justificativa do repovoamento foi baseada no fato de que as populações marinhas estão declinando em todo o mundo. As três principais abordagens para evitar o esgotamento dos estoques são controlar os esforços de pesca (cotas de pesca, limitação de tamanho de captura, especificação de petrechos), garantir os locais e períodos de reprodução (defesos, áreas de proteção ambiental) e aumentar a população através de programas de repovoamento. Os dois primeiros métodos formam a base das políticas públicas para a conservação das espécies marinhas no Brasil e impõe sérias restrições à pesca artesanal. A terceira opção o repovoamento, é muito popular em outros países e permite restabelecer a biomassa de reprodutores e acelerar a recuperação dos estoques assegurando a sobrevivências de espécies ameaçadas (Blankensip e Leber 1995), (Tessier, et al. 2012). O repovoamento de espécies marinhas tem sido utilizado desde o Século 19 e, no Japão, o programa nacional de recuperação dos estoques pesqueiros, envolve mais de 80 espécies de peixes, moluscos e crustáceos. No Mar Cáspio, são criados e soltos anualmente mais de 12 milhões de juvenis de espécies de esturjão nativo (Acipenser persicus) que sustentam praticamente toda a indústria do caviar. Também são produzidos alevinos de outras espécies locais (Bartley e Bell 2008). Enfim, é uma estratégia muito utilizada em outros países.

A escolha da espécie (Epinephelus margi- natus) atendeu a três justificativas:

A espécie é listada na Red List da IUCN como ameaçada de extinção (A2d). No Brasil foi incluída na Lista de Recursos do MMA como sobre explotada (IN 05/2004) e também consta como sobre explotada no Decreto Estadual Nº 56.031/2010 que define as espécies da fauna silvestre ameaçadas, colapsadas e sobre explotadas no estado de São Paulo. Atualmente é protegida pela Portaria MMA 445/2014 na categoria Vulnerável, e já existe um Plano de Recuperação instituído pelo MMA (Portaria 228/2018) cuja pesca é regulamentada pela Portaria IM 41/2018;

A importância ecológica de algumas espécies predadores de topo de cadeia como a garoupa verdadeira está também no fato de exercerem alta influência na densidade de suas presas e na estrutura da comunidade de fauna (Anderson, et al. 2014), o que a torna importante na regulação e equilíbrio de comunidades em ambientes coralíneos (Tessier, et al. 2012);

Tem hábitos sedentários e estudos sobre a movimentação dela demonstram que permanecem em territórios pequenos, distintos e individuais (Koeck, et al. 2014) de 1500 m² até 2 ha (Astruch e Dalias 2007) viabilizando o monitoramento através de Censos Visuais.

No Brasil, uma iniciativa pioneira foi o projeto “Repovoamento do Litoral do Paraná com Alevinos de Robalo” que previa a produção de alevinos pelo Centro de Produção e Propagação de Organismos Marinhos (CPPOM) da Pontifícia Universidade Católica do Paraná com recursos da Secretaria de Ciência, Tecnologia e Ensino Superior/Fundo Paraná. O projeto colocou cerca de um milhão de larvas e 300
mil alevinos de robalo nas baias do litoral paranaense em 2006-2007. Uma das críticas que se fez a esta iniciativa foi a fragilidade do monitoramento.

Ao desenvolver ações de repovoamento, é primordial que as formas jovens tenham boa diversidade genética e sejam saudáveis garantindo que os alevinos a serem introduzidos não causem modificação da constituição genética da população selvagem. Essencial ainda que se aplique o monitoramento. O Projeto Garoupas ao Mar busca a recuperação dos estoques da Garoupa Verdadeira da APA Marinha do Litoral Norte de São Paulo através soltura, análise genética e monitoramento.

 

 

Faça sua doação

Todos nós, aquicultores, já fazemos a nossa parte na conservação dos oceanos ao oferecer ao mercado peixe para consumo, poupando os estoques naturais. Além disso, só a aquicultura é capaz de fornecer as formas jovens de espécies ameaçadas que são a base dos programas de repovoamento. Mas ainda assim, extinção é para sempre e não queremos que nossos filhos só conheçam a garoupa através da nossa nota de 100 reais, não é? Chego ao fim deste artigo convidando os colegas aquicultores a fazerem uma doação para este importante projeto até o dia 30 de novembro de 2018 através da plataforma de financiamento: www.kickante.com.br/campanhas/garoupas-ao-mar na certeza de que isso também reforçará no grande público a reflexão sobre a grande importância da Aquicultura na conservação do Meio Ambiente.

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Autora:

Cláudia Kerber
Redemar Alevinos
Ilhabela, SP
claudiakerber62@gmail.com