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Reprodução do molusco de areia Mesodesma mactroides (Reeve, 1854) em laboratório

Reprodução do molusco de areia Mesodesma mactroides (Reeve, 1854) em laboratório
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A família Mesodesmatidae está representada por moluscos de areia que apresentam importância socioeconômica em diversas regiões do mundo, sendo apontadas como promissoras para aquicultura (Silva Santos et al., 2016), como as espécies “toheroa” Paphies ventricosa e “pipi” Paphies australis da Nova Zelândia (Redfearn, 1982; Hooker, 1997; Gadomski et al., 2015) e da “macha” Mesodesma donacium no
Chile e Peru (Uriarte, 2008; Ayerbe et al., 2017). No decorrer dos anos, pesquisas referentes a estas espécies estão sendo desenvolvidas, almejando informações que visem estabelecer protocolos de cultivo em laboratório (Hooker, 1997; Gadomski et al., 2015; Ayerbe et al., 2017).

O marisco branco, Mesodesma mactroides (Reeve, 1854), que possui sinônimo científico de Amarilladesma mactroides (Reeve, 1854), é uma espécie representante da família Mesodesmatidae, nativa do litoral do Brasil, Uruguai e Argentina distribuindo-se desde Ilha Grande, no Rio de Janeiro, até o sul da província de Buenos Aires, na Argentina (Rios, 1994). Esta espécie é dióica, sem dimorfismo sexual, e habita de forma agregada zonas entremarés de praias arenosas de regimes subtropicais e temperados, podendo se enterrar até mais de 20 cm de profundidade (Coscarón, 1959; Bergonci, 2005) (Figura 1).

Estes animais são comercialmente explorados (Herrmann et al., 2011), assim como outros moluscos de areia, com extrações baseadas na retirada dos estoques naturais. Possuindo um valor histórico como recurso pesqueiro (Coscarón, 1959; McLachlan & Defeo, 2018), utilizados para alimentação humana (Figura 2) e para atividades recreativas, como isca de pesca (Bastida et al., 1991).

Atualmente a população de marisco branco encontra-se drasticamente reduzida, devido a ação antrópica vinculada à extração excessiva (Carvalho et al., 2013a; Carvalho et al., 2013b; Silva Santos et al., 2016) e devido aos surtos de mortalidades massivas que vêm acometendo os estoques naturais desta espécie ao longo da sua distribuição geográfica (Ortega et al., 2012), cuja real causa das mortalidades ainda permanece desconhecida.

 

 

Desta forma, pesquisas vêm sendo desenvolvidas, visando o avanço de estratégias e programas de gestão destes recursos (Gianelli et al., 2015), assim como, estudos ambientais (Carvalho et al., 2013a; Carvalho et al., 2013b; Silva Santos et al., 2016) e laboratoriais (Carvalho et al., 2015a; Carvalho et al., 2015b; Carvalho et al., 2016). No entanto, mesmo com diversas informações sobre este animal, até recentemente não se havia obtido sucesso na larvicultura do marisco branco em laboratório, passo importante para o desenvolvimento da aquicultura de
uma nova espécie.

Neste sentido, com o apoio da equipe técnica e estrutural do Laboratório de Moluscos Marinhos da Universidade Federal de Santa Catarina – LMM/UFSC, o objetivo inicial deste estudo foi realizar e relatar a larvicultura do marisco branco em laboratório, objetivo no qual se obteve êxito.

Trabalho em laboratório

O estudo iniciou-se no começo de 2017, com a coleta de reprodutores adultos de marisco branco na praia do Mar Grosso no município de São José do Norte, Rio Grande do Sul (2°3’10”S 51°59’26”O), onde foram armazenados e transportados ao LMM/UFSC. A partir disso, os organismos passaram por processos de aclimatação e condicionamento em laboratório, visando manter e ou maturar as gônadas para fins reprodutivos, informações estas até então desconhecidos para esta espécie. Esta etapa foi realizada com baldes contendo areia, temperatura controlada, fluxo contínuo de água e mix de microalgas para alimentação dos animais (Figura 3).

Após o período de aclimatação, tentou-se realizar a desova por meio de indução por temperatura e a técnica de overnight, no entanto, foi possível apenas pela técnica de stripping (Helm et al.,2004) (Figura 4). Posteriormente a larvicultura seguiu-se utilizando adaptações aos manejos padrões já estabelecidos pelo LMM, para larvicultura de outras espécies comerciais (exóticas e nativas), como: Crassostrea gigas, Crassostrea gasar, Perna perna e Nodipecten Nodosus, com ajustes no sistema de aeração e alimentação, por exemplo, devido a falta de informações para o M. mactroides.

Acompanhou-se todo o desenvolvimento embrionário e larval nesta pesquisa, observando alterações morfológicas e biométricas, como: divisões celulares e metamorfoses para larvas trocóforas (Figura 5A), assim como, medidas de altura e comprimento, com registros de imagens ao longo deste período. Desta maneira foi possível descrever as alterações embrionárias até o estágio de larva véliger D (Figura 5B), e posteriormente, com observações estruturais diárias até as larvas estarem prontas para o assentamento, caracterizando as larvas pedivéligers (Figura 5C), finalizando esta primeira larvicultura desta espécie em 27 dias.

 

Larvicultura

A partir deste estudo inicial, foram realizados experimentos visando o efeito de diferentes variáveis, como: temperatura, salinidade e dieta, na larvicultura do marisco branco. Com estas informações tornou-se possível o estabelecimento dos pontos ótimos de cada variável analisada para o desenvolvimento embrionário e larval, contribuindo para o melhor assentamento e desenvolvimento de sementes desta espécie em laboratório. As sementes, pós assentamento, foram colocadas em sistemas adaptados (cilindros e cestos com areia) de downwelling em laboratório (Figura 6), recebendo alimentação diária de microalgas, demonstrando adaptação e crescimento positivos no período de 5 meses que permaneceram nestas estruturas (Figura 7).

Atualmente estudos estão sendo desenvolvidos com as sementes proveniente destas etapas de produção, no qual, foram transportadas e alocadas em estruturas adaptadas no mar. Processo este que pode diminuir o custo de produção de manter as sementes em laboratório, visto
que, a produção de microalgas é onerosa e trabalhosa, podendo custar cerca de 30% da produção de sementes de bivalves (Rivero-Rodriguez et al., 2007).

Conclusão

Nesta perspectiva, estes estudos propõem-se em contribuir com informações que visem servir de base para o desenvolvimento do pacote tecnológico da malacocultura desta espécie, colaborando futuramente para consolidação, tanto da produção comercial quanto para o repovoamento dos estoques naturais, processos que já vem acontecendo com representantes da mesma família do marisco branco Mesodesma mactroides.

 

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Autores:

Juan Jethro Silva Santos*
Luis Alberto Romano
Laboratório de Patologia de Organismos Aquáticos
Universidade Federal do Rio Grande – FURG
Rio Grande, RS
*juanjethrosantos@gmail.com

Juliana Portella Bernardes
Carlos Henrique Araujo de Miranda Gomes
Laboratório de Moluscos Marinhos – LMM
Universidade Federal de Santa Catarina – UFSC
Florianópolis, SC