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A precisão na preservação do passado

A precisão na preservação do passado
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O incêndio no Museu Nacional, no Rio de Janeiro, em setembro, me fez pensar sobre como lidamos com nosso passado. “Um povo que não
conhece a sua história está condenado a repeti-la”, disse há cerca de 50 anos Ernesto Ché Guevara (a frase original é de Edmund Burke). A par da tristeza em assistirmos o que vem acontecendo no Brasil, resolvi escrever esta coluna analisando como temos preservado a história da aquicultura em nosso país.

Quando comecei minha vida profissional a aquicultura era muito jovem no Brasil. Tínhamos poucos pesquisadores (tive a honra de conhecer e conviver com alguns expoentes desta época) e poucas unidades de pesquisa (que na época se constituíam em pequenos laboratórios improvisados em galpões nas propriedades rurais estatais que detinham viveiros e tanques). O setor produtivo era desorganizado, formado
por entusiastas apaixonados, mas sem muito conhecimento, o desenvolvimento ocorria de forma lenta. Cursos de extensão e de pós-graduação eram um luxo disponíveis a poucos profissionais.

 

 

Muito tempo passou desde então (quase trinta anos). É claro que muita coisa mudou. Hoje temos muitos profissionais altamente capacitados na aquicultura. O setor produtivo é organizado e bem representado. Existe ampla disponibilidade de aperfeiçoamento em excelentes instituições de ensino e pesquisa e através da internet as informações chegam ao campo em tempo real.

O Brasil definitivamente é um player mundial na aquicultura e ainda temos muito potencial para crescer. Mas a pergunta que faço é: temos cuidado de nosso passado? Há pouco tempo atrás visitei o Polo Regional do Vale do Paraíba, da Agência Paulista de Tecnologia do Agronegócio (APTA) da Secretaria da Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo, que abriga a Estação de Piscicultura de Pindamonhangaba. Quem me proporcionou a visita foi o colega pesquisador Sergio Henrique Canello Schalch que atualmente desenvolve
seus trabalhos em aquicultura neste local. A mais de vinte e cinco anos atrás acompanhei trabalhos de reprodução de peixes naquela unidade. E confesso que fiquei impressionado com a visita. Apesar das dificuldades devido a restrição de verbas nas entidades
públicas de pesquisa, e da complexidade que é operar um empreendimento de aquicultura estatal hoje no Brasil, o esforço do Sergio e dos demais colegas em preservar a estação e dar suporte ao setor produtivo regional são dignos de registro. A estação de pesquisa está produzindo muito peixe (de diferentes espécies e variedades), interagindo com o setor produtivo e ainda fazendo pesquisa de ponta, financiada pela exigente Fundação de Amparo a Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP).

Muitos bons profissionais passaram por esta unidade de pesquisa ao longo do tempo. Foi uma satisfação observar o antigo layout dos viveiros (que era a tecnologia disponível na época) e ver como a aquicultura mudou. Ver como avançamos em sistemas produtivos
com menor impacto ambiental e mais eficientes em termos econômicos. Foi interessante aprender como o Sergio tem modernizado a estação sem perder a essência do projeto original, em um esforço de preservar a memória de nossa aquicultura. Comprovando que não precisamos destruir o passado para criar o futuro. Podemos encontrar a precisão até na preservação de nosso passado.

Posso adiantar a vocês que não é só em Pindamonhangaba que isto acontece. Diversas outras estações de pesquisa da década de 70 e 80 estão sendo modernizadas, mas preservando as características originais do projeto inicial. Representam nossa história que pode ser conhecida pelos novos profissionais da aquicultura. E estes tem um grande desafio. Lidar com a escassez de recursos para inovação científica
(anunciada correntemente pelos órgãos de fomento da ciência) e ao mesmo tempo não descuidar do nosso passado. Como fazer isto ? Certamente a parceria com o segmento produtivo proporcionará as ferramentas para continuar o crescimento de nossa aquicultura. Não há mais espaço para ações isoladas. A construção do futuro dependerá de um esforço conjunto entre a academia e os produtores. Sem preservar
nossas memórias não teremos futuro. Que a tragédia do Museu Nacional, no Rio de Janeiro, nos remeta a uma reflexão sobre o que somos e onde queremos chegar. Nossa aquicultura precisa disto. Nosso pais precisa disto. Mas acima de tudo, nosso futuro depende disto.

Até a próxima coluna.

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