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Maricultura multitrófica: uma escolha estratégica

Maricultura multitrófica: uma escolha estratégica
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Maricultura multitrófica: uma escolha estratégica

 A Aquicultura Integrada Multi-Trófica, internacionalmente conhecida pela sigla IMTA (Integrated Multi-Trophic Aquaculture), é uma prática recente na aquicultura, que consiste no cultivo de espécies de diferentes níveis tróficos na mesma unidade produtiva, sendo que o cultivo pode incluir dois ou mais níveis tróficos. Cabe destacar que nível trófico é a posição que um dado organismo ocupa na cadeia alimentar. A cadeia alimentar representa o movimento e transferência de matéria e energia entre os seres vivos.

Os níveis tróficos normalmente contemplados nesse tipo de cultivo são:

A idéia central deste tipo de sistema produtivo é que seja dimensionado de forma com que os efluentes das espécies consumidoras sejam aproveitados como fonte de nutrientes para as demais espécies, criando um ambiente ecologicamente balanceado (Chopin et al., 2008; Soto, 2009). O sistema pode resultar na mitigação dos impactos na qualidade da água e garantir maior estabilidade econômica do empreendimento (Ridler et al., 2007; Nobre et al., 2010).

A maricultura em sistema multitrófico já é praticada no Japão, Canadá, Chile, Itália, Noruega e na China (Shi et al., 2013). No Brasil, porém, ainda são raros os cultivos que operam nesse sistema, especialmente em ambiente marinho. O cultivo em sistema multitrófico pode ser especialmente interessante em locais costeiros protegidos por Áreas de Proteção Ambiental (APA). No caso do estado de São Paulo, visando o gerenciamento do uso e desenvolvimento do litoral norte do estado, onde há grande atividade petrolífera e portuária, assim como uma falta no ordenamento pesqueiro e econômico da área, foi criada a APA Marinha Litoral Norte (Decreto Nº 53525 de 08/10/2008). O objetivo foi o de buscar preservar o ambiente costeiro-marinho, garantindo a convivência harmônica entre os diversos setores socioeconômicos (setor público/privado e comunidades tradicionais) e o equilíbrio do meio ambiente e seus recursos.

Ter o domínio sobre o cultivo de diferentes espécies, especialmente de níveis tróficos distintos e consequentemente com exigências diversas tanto de nutrição, reprodução e manejo é um grande desafio. Mas que tal pensarmos em uma escala menor? Por exemplo em apenas dois níveis tróficos? Quais seriam os benefícios de cultivar organismos filtradores, como ostras e mexilhões, em conjunto com organismos consumidores, como os peixes?

Os benefícios acerca do IMTA

Estudos vêm demonstrando que, em função da capacidade natural dos bivalves em absorver matéria orgânica e transformá-la em biomassa, mexilhões cultivados próximos à tanques-rede possuem maior taxa de crescimento (Handå et al., 2012; Jiang et al., 2013; Irisarri et al., 2015). Majoritariamente formados por restos de ração e pelas excretas metabólicas dos peixes, os efluentes da piscicultura contribuem para o aumento dos níveis de fósforo e nitrogênio no ambiente. Estes compostos são considerados os principais responsáveis pela eutrofização de áreas costeiras, um dos principais impactos associados a atividade aquícola (Soto, 2009; MacDonald et al., 2011; Reid et al., 2013). Em um cultivo multitrófico os mexilhões funcionariam como filtros, ao se beneficiarem dos efluentes gerados pela produção de peixes para crescer. Outro possível benefício é a capacidade de reduzir doenças de origem viral e bacteriana, promovendo uma abordagem biológica para controle de doenças, o que evita o uso de quimioterápicos (Skar e Mortensen, 2007; Molloy et al., 2011).

A diversificação do cultivo traz, ainda, uma série de benefícios econômicos ao empreendimento. Sistemas dimensionados para o cultivo de mais de uma espécie são capazes de promover uma renda secundária, que pode por exemplo servir para amenizar os efeitos da variação de preços de comercialização e dos insumos (Ridler et al., 2007). Dessa maneira, podem contribuir para melhorar os índices de viabilidade econômica dos empreendimentos (Whitmarsh et al., 2006; Nobre et al., 2010).

Na criação de peixes marinhos em tanques-rede, significativa quantidade de efluentes contendo material particulado em forma de fezes, alimento não ingerido e compostos inorgânicos dissolvidos, podem afetar a coluna de água e o sedimento (Chopin et al., 2008). Muitos empreendimentos têm buscado informações em relação a sistemas multitróficos visando reduzir ou minimizar estes impactos. Entretanto, ainda existem mais perguntas do que respostas.

Será que tudo funciona como na teoria?

Um interessante contraponto à proposição de cultivos multitróficos foi apresentado no periódico Aquaculture (Navarrete-Mier et al., 2010). Os autores perguntavam se o cultivo de bivalves reduziria o impacto dos cultivos de peixes. Este trabalho demonstrou que o policultivo de peixes e bivalves não representou uma adequada ferramenta para a redução do impacto ambiental da produção de peixes no oceano. Os autores comprovaram, utilizando isótopos estáveis (recomendo a leitura da coluna Precisão deste número da Aquaculture Brasil), que não existiu efeito no crescimento dos bivalves (Ostrea edulis e Mytilus galloprovincialis) que estivesse relacionado à influencia dos cultivos de peixes. A utilização de isótopos estáveis de Carbono e Nitrogênio e as concentrações de metais demonstraram que os bivalves não assimilaram os resíduos orgânicos dos cultivos de peixes. Isto sugeriu que os efeitos positivos descritos atualmente na literatura podem estar relacionados a causas indiretas ligadas ao hidrodinamismo e a oferta de nutrientes oriundos de outras fontes.

Futuro da Maricultura

A aquicultura é hoje responsável pelo atendimento de cerca de metade da demanda mundial de pescado (FAO, 2016). Considerando que grande parte do planeta é coberto por água salgada, a maricultura deve ter um papel de destaque no futuro da alimentação humana. Estima-se que menos de 4% da plataforma continental conseguiria atender a demanda projetada para 9 bilhões de habitantes em 2050 (Duarte et al., 2009). Este continuo crescimento demandará o desenvolvimento de sistemas economicamente viáveis e que provoquem menores impactos no ambiente (Witmarsh et al., 2006). Empreendimentos multitróficos, quando corretamente dimensionados e monitorados, poderiam ocupar o nicho de mercado que demanda por produtos marinhos com certificação de sustentabilidade. Estudos mostram que produtos com alto padrão de sustentabilidade podem ter um valor até 10% maior, quando comparados a sistemas tradicionais (Barrington et al., 2010).

Conclusão

Apesar de todas essas vantagens econômicas e ambientais que apresentamos, ainda há a necessidade de muito estudo sobre a real aplicabilidade deste conceito para o cenário brasileiro. Com a diversidade da nossa costa, diversidade climática, oceanográfica, geológica, quais seriam as áreas em que esse sistema cíclico de reaproveitamento de nutrientes realmente funcionaria? Ou ainda, quais seriam as espécies que realmente funcionariam em conjunto e trariam maior lucratividade? Se a aquicultura pode ser considerada como uma ciência nova, o estudo de sistemas multitróficos está recém engatinhando.

No Brasil, quais seriam as espécies que realmente funcionariam em conjunto e trariam maior lucratividade?

Inegável a constante busca por melhorias nos sistemas produtivos da aquicultura. Como em qualquer cadeia produtiva, cada aparente solução traz consigo uma expressiva quantidade de perguntas não respondidas. A aquicultura multitrófica pode vir a ser mais uma importante alternativa para a implantação de cultivos com menor impacto ambiental. Para tanto, existem ainda muitos estudos para definir modelos de integração, espécies adequadas, engenharia de sistemas aquícolas multitróficos e modelos de avaliação que levem em consideração fluxos de energia e nutrientes e a fisiologia e o metabolismo das diferentes espécies aquáticas.