Principal Colunas Interação genótipo ambiente em tilápias do Nilo: será que temos que nos preocupar com isto?
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Interação genótipo ambiente em tilápias do Nilo: será que temos que nos preocupar com isto?

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A produção comercial de Tilápias no Brasil ocorre, principalmente, em duas condições de cultivo, tanques-rede e viveiros escavados. Além disso, emerge na produção nacional outras possibilidades, como RAS (Recirculating Aquaculture System), BFT (Biofloc Technology) e Aquaponia.

Os dois principais sistemas utilizados são muito distintos em suas peculiaridades. O primeiro (tanque-rede) com maior densidade de estocagem e alta taxa de renovação de água; o segundo (viveiro escavado), dependente da comunidade biótica (fito e zooplâncton) e atenção diária dos parâmetros da qualidade de água. Ainda mais, existem variações dentro das próprias condições de cultivo, a exemplo os tanques-rede de grande volume (São Paulo e Mato Grosso) e viveiros escavados com alta densidade, por exemplo, Oeste do Paraná.

Com a implantação e consolidação de programas de melhoramento genético de tilápias no Brasil, tem-se verificado incremento de produção dado ao uso de animais geneticamente superiores. Porém, em função das diferentes condições de cultivo, alguns questionamentos devem ser levados em consideração. As diferentes condições de cultivos têm impacto importante na determinação da qualidade genética dos animais? Em função disso, é necessário avaliar os animais dos programas de melhoramento nestas diferentes condições?

Estas questões estão relacionadas a um tema importante no melhoramento genético animal e ainda pouco discutido na criação de tilápias em nosso país – a interação genótipo ambiente (IGA). A interação genótipo ambiente é um fenômeno no qual é possível observar diferenças no desempenho dos animais com genótipo semelhante, cultivados em ambientes distintos, de maneira que haja rearranjo na classificação e ou redução nas diferenças dos animais em função das condições de cultivo. Estes dois fenômenos estão apresentados na Figura 1, sendo o rearranjo na classificação observado ao comparar as famílias 1 vs. 4 e 2 vs. 3 e a redução das diferenças na comparação das famílias 1 vs. 2 e 3 vs. 4.

Entre os impactos negativos da interação genótipo ambiente deve-se salientar a redução da resposta à seleção (ganho genético) ao avaliar e selecionar os animais em tanques-rede e produzir as suas progênies em viveiros escavados, por exemplo. Desta forma, a IGA assume grande importância, tendo em vista que os genes que controlam um fenótipo (peso à despesca, por exemplo), podem não ter a mesma expressão em diferentes condições de cultivo.

Desenvolvimento

Diante destas possibilidades, foi realizado um ensaio pelo grupo PeixeGen da Universidade Estadual de Maringá, no qual testou-se a existência de rearranjos na classificação das famílias, caso a avaliação e seleção fossem realizados em duas condições de cultivo diferentes (tanques-rede e viveiros escavados). Foram utilizadas informações de peso à despesca de tilápias-do-Nilo pertencentes ao programa de melhoramento genético (TILAMAX – UEM). A avaliação genética ocorreu em tanques-rede no rio do Corvo (Reservatório de Rosana), densidade 75 kg/m³ e em viveiros escavados no distrito de Floriano (Maringá – PR), densidade 1 peixe/m² (Figura 2).

Os resultados indicaram que o impacto das diferenças entre o sistema intensivo de produção em tanque-rede e o sistema extensivo em viveiros escavados foi bastante acentuado no desempenho de indivíduos da mesma família, cerca de 400 g no peso à despesca, no mesmo período e tempo de cultivo, conforme ilustrado na figura 3.

A diferença na média era esperada, porque as duas condições de cultivo apresentam resultados de performance próprios, especificidades que os distinguem. Porém a avaliação de várias famílias em ambos os sistemas apontou que houve alteração no ranqueamento das famílias nas diferentes condições. Por exemplo, a família melhor classificada para tanque-rede ficou na quarta posição em viveiro escavado.

Estes resultados podem ser explicados pela correlação* genética que foi menor que 0,40, indicando que o grau de associação genética entre os dois sistemas de cultivo é pequeno. Como consequência, a percentagem de coincidência das dez melhores famílias e a correlação de ranking dos valores genéticos foram afetados, ficando abaixo de 50 %. Ao verificar este ranqueamento, é possível observar que a metade das famílias está presente na classificação das duas condições de cultivo (Tabela 1), ou seja, provavelmente, cinco famílias candidatas a multiplicação de material genético, serão capazes de atender às demandas das duas condições de cultivo.

Isso nos dá também uma tranquilidade para afirmar que, apesar de o ideal é ter um animal ou linhagem mais adequada para cada condição de cultivo, é muito melhor utilizar animais ou linhas melhoradas do que sem melhoramento algum, pois os animais submetidos à seleção genética e acasalamentos dirigidos (ou seja, melhoramento genético) são sempre superiores que os não melhorados em qualquer condição de cultivo.

Um outro aspecto da interação genótipo ambiente, está relacionado com o ganho genético ou resposta à seleção, de maneira que o processo de seleção para uma condição específica de cultivo não promove o ganho genético com a mesma intensidade na outra condição. Isto está ilustrado na Tabela 2, enquanto o ganho genético esperado para tanque-rede foi de cerca de 15 %, a resposta correlacionada para viveiros foi quatro vezes menor.

Apesar da evidência de interação genótipo ambiente, é importante salientar que o melhoramento genético irá promover, simultaneamente, aumento no peso à despesca nas duas condições de cultivo avaliadas, justificando o uso dos animais melhorados ao invés de animais “locais” não melhorados, como já mencionado anteriormente.

Considerações finais

Com a expansão do cultivo de tilápias e a necessidade de profissionalização do setor, a oferta de animais com qualidade genética comprovada torna- se fator essencial. Contudo, as diferentes condições de cultivo, de sistemas de produção e demandas do mercado consumidor incrementam a complexidade aos programas de melhoramento genético da espécie instalados no Brasil.

Como alternativa, para utilização dos benefícios da interação genótipo ambiente, os programas de melhoramento genético poderiam avaliar os animais em diferentes locais de teste (determinados por diferentes condições de cultivo, climáticas e ou ambientais), de maneira que as informações de desempenho nas mais diversas condições, alimentem a estrutura de dados utilizada na avaliação genética, permitindo a seleção mais acurada de indivíduos/famílias com superioridade genética para cada situação específica, aumentando o ganho genético e o retorno econômico do uso de animais melhoradores (Figura 4).