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A precisão em novas técnicas de pesquisa

A precisão em novas técnicas de pesquisa
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Nossa aquicultura vai adquirindo complexidade e se modificando, assim como tudo nesta vida, com o passar do tempo. Nos dias atuais, com a forte influência da globalização do conhecimento, os consumidores estão cada vez mais exigentes e a cadeia produtiva necessita acompanhar estas mudanças. Não é diferente para o setor acadêmico, onde as perguntas ficaram mais complexas e as respostas cada vez mais difíceis. Já está longe o tempo em que somente pesar e medir os organismos aquáticos possibilitava encontrar as respostas que buscávamos. No artigo que assino neste número, apresento e discuto os cultivos multitróficos, exponho a dificuldade em fazer pesquisas no ambiente marinho, dada a expressividade das interações e sua complexidade. Por exemplo, como afirmar que os resíduos da ração que fornecemos aos peixes são absorvidas pelos moluscos bivalves ou que os nutrientes são absorvidos pelas macroalgas?

No Laboratório de Piscicultura Marinha do Instituto de Pesca trabalhamos com diversas espécies de peixes marinhos ameaçados de extinção, tais como a garoupa-verdadeira (Epinephelus marginatus) e o mero (Epinephelus itajara). Nosso objetivo é que, um dia, estas espécies sejam produzidas em cativeiro, não sendo mais necessária sua captura na natureza. Temos muitos desafios pela frente, mas pensando no futuro, como identificar quais peixes são provenientes do cativeiro e quais são resultantes da pesca extrativa? Na tentativa de encontrar respostas para perguntas complexas em ambientes distintos de pequenos laboratórios, onde todas as variáveis podem ser controladas, me deparei com a possibilidade dos isótopos estáveis.

Lembram das aulas de química? Para lhes explicar um pouco (e confesso que ainda estou estudando isto…) sugiro a leitura de um interessante artigo intitulado “Aplicação dos isótopos estáveis em aqüicultura” do finado Prof. Carlos Ducatti, uma das maiores autoridades nesta questão no Brasil. Isótopos são átomos do mesmo elemento químico com diferentes massas, pois apresentam igual número de prótons, mas diferem no número de nêutrons. Cada elemento químico apresenta um isótopo estável dominante, como por exemplo carbono-12 (12C) e nitrogênio-14 (14N). O mesmo elemento químico, entretanto, também pode ocorrer na natureza em versões mais pesadas, como exemplo, o carbono-13 (13C) e nitrogênio-15 (15N). Esses elementos apresentam propriedades químicas iguais, mas diferem nas propriedades físicas. O princípio da utilização de isótopos em pesquisas científicas reside na utilização da forma isotópica de um elemento químico para rastrear a origem e a história do metabólito de interesse. Isso é possível pois a composição dos tecidos reflete a dieta ingerida pelo indivíduo. Diferentes tecidos apresentam diferentes tempos de assimilação de nutrientes, portanto, apresentam uma assinatura isotópica única. Complicado? Concordo, mas vai ficar ainda mais interessante.

Segundo o professor Ducatti, existe grande potencial de aplicabilidade de isótopos estáveis na aquicultura, principalmente como ferramenta do sistema de rastreabilidade. Seus trabalhos comprovaram que é possível diferenciar peixes provenientes do cultivo dos provenientes da pesca extrativa utilizando a técnica de isótopos estáveis de carbono (13C) e nitrogênio (15N). Concordam como isto é fantástico para nosso setor de aquicultura? No meio de tanto pescado misturado, poder comprovar a origem? Essa precisão é ainda mais relevante quando se trata de peixes ameaçados de extinção que podem vir a ser produzidos em cativeiro.

No campo da nutrição, a técnica de isótopos estáveis pode contribuir muito para se ampliar a compreensão sobre o aproveitamento dos ingredientes em ambientes complexos como os tanques de cultivo. Segundo o professor Ducatti, as pesquisas que abordam aspectos sobre a alimentação e nutrição de larvas de peixes, além das informações científicas sobre a assimilação dos nutrientes das dietas ao longo do desenvolvimento larval, deveriam utilizar mais frequentemente os isótopos estáveis, seguindo as premissas metodológicas necessárias, visando uma exata compreensão dos mecanismos envolvidos. Não se trata mais de pesquisar causa e efeito e sim entender os mecanismos envolvidos nas causas.

Finalizo esta coluna prestando uma justa homenagem a este colega pesquisador que trouxe para nossa atividade a perspectiva de utilização de técnicas complexas. Ainda temos muito a avançar nestas linhas de pesquisa, mas seguramente o caminho não tem volta. Precisamos elevar o conhecimento das variáveis complexas na aquicultura e a técnica de isótopos estáveis é mais uma das ferramentas que devemos utilizar para atingir nossos objetivos. Precisamos aprender a pensar fora do convencional. Em um mercado tão competitivo, a precisão é um diferencial. Além disto, o avanço dos policultivos e dos cultivos multitróficos irão exigir abordagens mais aprofundadas. Portanto, hora de lembrar da multidisciplinaridade da aquicultura, buscar parcerias e contribuir no desenvolvimento desta cadeia produtiva que tantos desafios nos proporciona no dia a dia.

Até a próxima coluna.