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Entrevista: Emerson Esteves

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Emerson Esteves: Técnico em agropecuária e formado em ciências biológicas (2006), é sócio diretor da empresa Peixe Vivo Aquacultura, presidente da Associação de Piscicultores em Águas Paulistas da União – Peixe SP, e Presidente do Aquishow Brasil 2018.

 

Paulista, filho de produtor rural, viu na década de 90 a ascensão de pesque-pagues pelo Brasil. Diante da procura expressiva, a família também abriu um pesqueiro em Urupês, interior de São Paulo e logo depois passou a criar peixes nativos para abastecer o próprio negócio. Aos 12 anos Emerson já tinha como rotina estudar pela manhã e ajudar na piscicultura a tarde e finais de semana. O resultado? Paixão pelo negócio e a certeza que continuaria nesse ramo.

AQUACULTURE BRASIL: Atualmente ocupando o cargo de Presidente da Peixe São Paulo, quais as principais ações da Associação em andamento e quais as principais ações já concretizadas?

Emerson Esteves: A Associação vem buscando em todos os âmbitos melhorar o cenário do dia a dia do piscicultor. Entre estas ações está a melhoria no decreto que o Governo paulista publicou em abril deste ano, para o crédito de ICMS do pescado, sendo que este decreto amenizou um pouco a desigualdade da guerra fiscal entre os Estados, mas ainda não resolveu por completo. Outra ação que iniciamos no AQUISHOW BRASIL, foi a campanha para fomentar o consumo de pescado, pois todo pleito do setor no Brasil até agora foi referente a licenciamento ambiental, regulamentação das espécies, linha de crédito. Estávamos focados em produzir e esquecemos do mais importante, quem vai comer todo esse pescado. Temos muito trabalho ainda pela frente e o que nos dá a certeza que estamos fazendo um bom trabalho é as conquistas que já obtivemos. Além disso, outros trabalhos merecem destaque, como o Decreto 62.243 de 2016 sobre o Licenciamento Ambiental de SP, a Lista das Espécies regulamentadas para produção, GTA Online, Linhas de Crédito Feap ( Fundo de expansão do agronegócio paulista) e organização do AQUISHOW BRASIL. Essas são algumas das conquistas, mas a mais importante foi a organização do setor paulista, o diálogo com os órgãos governamentais e uma parceria muito boa com a Secretaria da Agricultura e Meio ambiente.

Temos muito trabalho ainda pela frente e o que nos dá a certeza que estamos fazendo um bom trabalho é as conquistas que já obtivemos.

AQUACULTURE BRASIL: Um ponto importante levantado nos debates do AQUISHOW BRASIL foi a questão da comercialização. O brasileiro precisa consumir mais peixes, porém o kg da tilápia nas gôndolas do supermercado ainda é alto. Qual uma possível solução que você vê para esse contexto? Seria um problema de escala?

Emerson Esteves: Comercialização é o maior desafio do setor nos próximos anos, pois a produção vem batendo recordes todo ano e a tilápia alavancando esse crescimento. Mas o preço de seu produto principal, que é o filé, está com valores abusivos nas gôndolas dos supermercados em todo país. Culturalmente somos carnívoros, mas esse cenário vem melhorando num ritmo muito baixo comparado com a produção, temos que urgentemente fazer uma campanha a nível nacional para fomentar o consumo e cobrar das grandes redes que diminua as margens colocadas no filé de tilápia. Os supermercados na sua maioria colocam um valor abusivo no filé de tilápia pois têm uma rotatividade alta e acabam pagando os custos da peixaria, já escutei várias vezes esse discurso de diversos representantes das grandes redes varejistas. A produção vem aumentando num ritmo acelerado, todas as empresas têm focado em baixar o custo, mas se os grandes varejistas não fizerem sua parte, vamos morrer na praia.

Emerson em palestra durante a FENAPIS 2017 em Jaboticabal.

AQUACULTURE BRASIL: A tendência é cada vez mais o setor se especializar na produção de tilápia (estilo frango ou suíno), ou há espaço para novas espécies de peixes para a piscicultura de água doce?

Emerson Esteves: A tilapicultura vem passando por uma transformação muito grande nos últimos anos. A tilápia é a espécie que tem o melhor pacote tecnológico hoje e o exemplo das cooperativas no Paraná vem demonstrando que é possível sim seguir o exemplo do suíno e das aves em todos os aspectos, seja ele evolução genética, nutricional e de integração. Temos diversas espécies com potencial no Brasil, mas vejo que ainda falta um pacote tecnológico para que elas de fato ocupem um espaço de destaque. Exemplo que essas espécies precisam ser bem trabalhadas é a busca pela liberação do cultivo de tilápias em estados tradicionais produtores de espécies nativas. Têm muitas espécies com potencial zootécnico e econômico mas a tilápia vem assumindo o protagonismo e agora está surgindo o Pangasius, pois o produtor na sua grande maioria busca viabilidade econômica. No final do ciclo o que vai determinar o que cultivar vai ser o quanto de dinheiro tal espécie colocou no bolso do produtor, seja tilápia, tambaqui, pintado.

AQUACULTURE BRASIL: Como você vê as várias empresas privadas investindo em genética no Brasil, teria espaço para todas elas?

Emerson Esteves: Sem dúvida nenhuma é um avanço muito grande para a tilapicultura, isso mostra mais uma vez que a tilápia vai ocupar cada dia mais seu espaço dentro da aquicultura. Até agora tudo que temos de genética de tilápia é muito igual, todas são linhagens muito semelhantes em resultados, mas os trabalhos estão sendo intensificados por essas empresas. Assim, no futuro teremos linhagens que vão melhorar os resultados no campo e na indústria e quem conseguir sair na frente com uma linhagem e custo baixo, vai sim dominar o mercado da genética. Mas podemos sonhar também em ter linhagens A, B e C, onde a “A” pode ser focada em crescimento e rendimento de carcaça, a “B” em tolerância à doenças e a “C” que seria uma linhagem comum, e o preço dessa genética poderia determinar em qual mercado poderia atuar. Hoje temos na tilápia mercados distintos, como indústria, mercado de peixe inteiro, piscicultura familiar, então podemos sonhar também com as linhagens para atender esses diferentes mercados. O sucesso de cada linhagem vai depender do custo de produção, podemos sim ter uma linhagem “B” ou “C” com um custo de produção competitivo.

AQUACULTURE BRASIL: Você enquanto produtor de alevinos, produtor de tilápia em tanque-rede e também como presidente da Peixe SP, quais são os maiores gargalos da piscicultura?

Emerson Esteves: Hoje nosso maior gargalo é a comercialização do pescado. Vender nosso peixe. Em tempos de aumento dos custos de produção, ficamos entre a cruz e a espada, precisando diminuir custo e também aumentar o consumo, mas o momento que o país vem passando não favorece nenhum dos dois maiores gargalos, uma vez que a economia está instável, dólar disparando e 14 milhões de desempregados.

AQUACULTURE BRASIL: Como ficou o novo decreto do ICMS para o pescado de São Paulo? Essa redução afeta somente os frigoríficos ou também o produtor?

Emerson Esteves: Esse decreto era um pleito antigo do setor para dar vida a indústria paulista. Aos 49 do segundo tempo, em seu último ato como governador do Estado de SP, Geraldo Alckmin assinou o decreto. Ficamos todos surpresos e apreensivos, pois o nosso pleito foi contemplado, mas não tivemos acesso a minuta antes de sua assinatura e só tomamos conhecimento de seu conteúdo na data de sua publicação e o resultado não deixou o setor muito animado. A indústria paulista foi beneficiada com um crédito outorgado de 7%, mas os importadores e distribuidores foram taxados em 7 %. O produtor ficou isento quando vende para a indústria, e quando vende para um distribuidor ou um importador eles têm que recolher 7 %. Assim, somente um elo do setor foi contemplado, nesse caso a indústria que mesmo com os 7 % ainda perde em competitividade pois outros estados têm 12 % de isenção, mas o jogo ficou um pouco mais leal, perdíamos de 12 a 0 hoje ficou só 5 a 0. Agora estamos lutando para que todo setor seja atendido e que nosso pleito original seja de fato contemplado os 12 % de ICMS.

AQUACULTURE BRASIL: Quanto a produção de juvenis de tilápia em bioflocos, será uma tendência? É um sistema acessível a todos os produtores de juvenis?

Emerson Esteves: Esse sistema já perdeu um pouco de força na produção de juvenis, pois é um sistema que demanda muito cuidado, dedicação, alto investimento em estruturas, mão de obra qualificada e custo de produção alto comparado ao sistema de produção em viveiros escavados. Nós produtores temos um defeito muito grande, pois quando surge uma tecnologia nova ignoramos tudo que estamos fazendo e parece que estava tudo errado, para investir e acompanhar a moda do momento. Não é uma tecnologia acessível para todos e também acredito que para produção de juvenil de tilápia fica mais viável em viveiros escavados.

AQUACULTURE BRASIL: Os cultivos em taque-rede vão migrar com tempo para tanques de grandes volumes?

Emerson Esteves: Acredito que o modelo de tanques de 108m³, 6 x 6 x 3 é o melhor sistema de produção, pois facilita o manejo de despesca, manutenção e limpeza do mexilhão dourado que é um agravante para tanques de grande volume, além do risco de escape. Outro fator é questão ambiental, tem muitos reservatórios no país de acumulação (lênticos) onde a renovação de água não favorece o cultivo de tanques de grande volume, sendo necessário aeração suplementar, mas tem exceções, onde esses tanques com a tecnologia adequada são um sucesso, a exemplo da Geneseas e agora a Tilabrás.

AQUACULTURE BRASIL: Por fim, como está a questão do cálculo da capacidade de suporte nos reservatórios de São Paulo?

Emerson Esteves: O decreto do licenciamento permitiu a criação dos parques aquícolas estaduais e transferiu essa responsabilidade para a Secretaria da Agricultura e através do Instituto de Pesca estão fazendo o levantamento dos dados dos reservatórios do Tietê, desde Ibitinga até o reservatório de Três Irmãos. Os estudos deste último já foram apresentados, com as áreas já identificadas e os estudos de capacidade de suporte. Trabalho sendo muito bem feito pelos técnicos do Pesca. O estado tem um potencial de produção nesses reservatórios que a partir dessa demarcação vai ampliar e muito a produção paulista.

Emerson em visita aos cultivos do peixe panga, no Vietnã, no final de 2017.