Principal Entrevistas Alex Alves dos Santos – EPAGRI
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Alex Alves dos Santos – EPAGRI

Alex Alves dos Santos – EPAGRI
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O entrevistado desta edição tem propriedade para falar sobre a maricultura catarinense, afinal, atua como servidor público do Centro de Desenvolvimento de Aquicultura e Pesca – CEDAP, da Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural de Santa Catarina – EPAGRI desde 1988, exercendo suas atividades em projetos de desenvolvimento de pesquisa e extensão na área da maricultura.

AQUACULTURE BRASIL: Santa Catarina é o maior produtor de ostras do país. Contudo, não existe um aumento expressivo desse volume de produção na última década. Quais motivos fazem com que o cultivo não desponte, tendo oscilação ano a ano?

Alex Alves: São vários fatores envolvidos. Primeiramente têm o fator ambiental, uma vez que em alguns anos tivemos períodos de excesso de chuvas, consequentemente excesso de matéria orgânica em suspensão e isso causa a mortalidade das ostras. Mas o maior problema que eu elen-caria é o comércio. Nós precisamos aumentar as formas de consumir ostras. Atual-mente esse molusco bivalve é praticamente todo consumido de forma in natura. É da cultura do litoral catarinense consumir ostras frescas ou ao bafo, me lembro que desde os meus 4 ou 5 anos de idade, meus avós cozinhavam ostras e mexilhões pra comermos ao bafo. Porém, essa forma de comercialização limita a venda do produto para outras regiões. Como vou manter a ostra viva em um supermercado em Brasília, se o tempo de prateleira dela é de 5 dias? Dessa forma, precisamos aumentar o consumo interno desses produtos, e para isso, precisamos desenvolver produtos enlatados a base de ostras, pratos prontos, estrogonofes, penne de ostra entre outros. Ou seja, produtos que tenham tempo de prateleira acima de 4, 5 ou 6 meses, atingindo assim o mercado varejista, que é o grande mercado consumidor. Atualmente as ostras e mexilhão são basicamente vendidos para restaurantes.

AQUACULTURE BRASIL: Os maricultores catarinenses já estão todos legalizados e produzindo com segurança jurídica?

Alex Alves: Acredito que 80% dos maricultores já estão legalizados ou em processo de legalização. Infelizmente a legalização é um processo que começa mas nunca acaba, assim muitos maricultores desistem e essas áreas vão ser ofertadas novamente.

AQUACULTURE BRASIL: Quanto as vieiras, o que falta para esse cultivo despontar no estado de Santa Catarina?

Alex Alves: A tecnologia de produção de vieira (Nodipecten nodosus) está completamente dominada, o que precisa é treinamento e profissionalização de alguns produtores, afim de que estes tenham conhecimento de como funcionam as etapas de produção e biologia dos animais. Por se tratar de uma espécie sensível, é necessário que todo e qualquer manejo seja realizado dentro da água, a vieira não pode ficar exposta ao sol e ao ar, por exemplo. Fora isso, as estruturas de cultivo (long-lines), têm que ser diferenciadas para que em períodos de chuva intensa, seja possível baixar os long-lines na coluna d’água, fugindo do primeiro metro de água onde a salinidade por vezes chega a 0. Isso causa a mortalidade desses bivalves de forma instantânea. Um produtor, do município de Governador Celso Ramos, norte do estado, adiou por uma semana a colheita da vieira, na intenção de que elas crescessem um pouco mais, e por isso perdeu 1 ha de vieiras porque não conseguiu baixar as estruturas de cultivo na coluna d’água. Resultado, ele desistiu da atividade. E nós temos poucas áreas de cultivo que tem mais de 5,5 metros de profundidade, eu diria que umas 20 áreas em todo o estado. Então temos também pouco espaço de áreas apropriadas para o cultivo de vieira.

AQUACULTURE BRASIL: A EPAGRI já fez alguns trabalhos com a macroalga Kappaphycus alvarezi, seria uma aposta do estado?

Alex Alves: A Kappaphycus alvarezi é uma aposta da EPAGRI, da Universidade Federal de Santa Catarina e de várias instituições e Universidades no Brasil inteiro. Além disso, é também uma aposta dos maricultores catarinenses, todos estão ansiosos pra que esse cultivo seja liberado em Santa Catarina. Temos perspectivas que nos próximos 5 anos nós consigamos essa liberação para produção comercial de Kappaphycus. Não existe justificativa plausível pra que o cultivo comercial seja liberado no Rio de Janeiro e em São Paulo e não seja liberado em Santa Catarina.

Alex Alves dos Santos e a pesquisadora da UFSC  Leila Hayashi

AQUACULTURE BRASIL: Santa Catarina é o único estado que aderiu ao controle higiênico-sanitário de moluscos bivalves, comente um pouco sobre esse trabalho.

Alex Alves: Esse era um projeto de pesquisa da EPAGRI que estava para ser lançado. Quando o então Ministério da Pesca e Aquicultura soube da iniciativa, pediu que esperássemos, pois queriam fazer uma normativa para o Brasil inteiro. Assim, baixou-se uma normativa federal, mas baseada nos protocolos e experiência de Santa Catarina. Dessa forma, esse programa nacional de controle higiênico-sanitário de moluscos bivalves é basicamente uma cópia do nosso estadual e assim foi muito fácil Santa Catarina aderir. A CIDASC, que é a Companhia Integrada de Controle da Sanidade Aquícola Animal, é quem coordena esse programa, com monitoramento geralmente a cada 15 dias, mas chega a ser diário caso tenha ocorrência de algas tóxicas e os pontos de coleta variam de 25, 40 a 45 pontos.

AQUACULTURE BRASIL: Para o estado de Santa Catarina, você acredita na piscicultura marinha?

Alex Alves: Eu acredito na piscicultura indoor, não no mar. Trabalhando com a água captada no mar ou preparada para tal, e trabalhar com produção em circuito fechado, os chamados RAS (Recirculation Aquaculture Systems) em alta densidade. Várias fazendas marinhas no Japão, por exemplo, acabaram desativadas porque a poluição atingiu níveis violentos na região e começou a inviabilizar a produção de moluscos, então várias fazendas de piscicultura marinha foram desativadas na década de 90. O aporte de ração no mar, e consequentemente o excesso que vai para o fundo, isso precisaria ser melhorado para incentivar a produção de peixes no mar. Tenho um certo receio de incentivar isso no Brasil. Mas acredito muito, como vários outros países também, no cultivos indoor e continentais.

AQUACULTURE BRASIL: Pra finalizar, qual o potencial dos outros estados para a maricultura e o que falta para São Paulo, Rio de Janeiro e Espírito Santo criarem o cenário que Santa Catarina vive hoje com o cultivo de moluscos?

Alex Alves: Tem muitos estados que tem potencial, o litoral de São Paulo, Rio de Janeiro e Espírito Santo são realmente fantásticos para produção de espécies para a maricultura, não só a ostra produzida em Santa Catarina (Crassostrea gigas), pode ser a ostra nativa da costa brasileira, o mexilhão nativo etc. Mas o litoral é fantástico, com águas profundas muito próximas ao litoral. O que está faltando, acredito, que não nos faltou aqui, é essa integração entre serviço de pesquisa, o serviço acadêmico e o serviço de extensão, os quais são fundamentais para levar essas tecnologias aos produtores e, uma comunidade de pescadores com pessoas que estão sem uma atividade profissional, mas que sejam treinadas e orientadas para iniciar na mari-cultura. Acredito muito nessa integração. Ainda, têm as políticas públicas de incentivo a cultivos marinhos que é fundamental, qualquer município pode fazer isso. Já visitei vários municípios no Brasil inteiro que fomentam os cultivos marinhos, como ostra, mexilhão etc. Recentemente estive no Espírito Santo, em Piúma, o governo está interessado em iniciar com a maricultura. Então, uma política pública, junto com a academia e o serviço de extensão e os produtores, não tem como dar errado. É a história de sucesso de Santa Catarina e isso certamente pode ser replicado em qualquer outro estado do Brasil.

Alex proferindo uma palestra magna para a primeira fase do curso de Engenharia de Pesca na Universidade do Estado de Santa Catarina – UDESC, Campus de Laguna, SC.