Principal Entrevistas Daniel Garcia de Carvalho Melo – AQUAMAT
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Daniel Garcia de Carvalho Melo – AQUAMAT

Daniel Garcia de Carvalho Melo – AQUAMAT
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Para a 10° edição (jan/fev) o entrevistado é uma pessoa que apesar de não ter iniciado profissionalmente com aquicultura, atualmente tem tido significativa participação no avanço deste setor no estado do Mato Grosso. Daniel Garcia de Carvalho Melo é produtor e atualmente o Presidente da Associação dos Aquicultores do Estado de Mato Grosso (AQUAMAT).

AQUACULTURE BRASIL: Daniel, comente um pouco sobre qual a sua formação e como entrou no segmento da aquicultura.

Daniel Melo: Sou formado em Relações Internacionais, pela Universidade Católica de Brasília e posteriormente fiz um curso de especialização em Gestão do Agronegócio pela FGV. Logo que terminei a faculdade retornei a Cuiabá, pois sempre acreditei no agronegócio e nas oportunidades que o Estado de Mato Grosso oferece. Atuei por 10 anos na comercialização de algodão para o mercado interno/exportação e importação de micronutrientes do Chile para lavouras de algodão. Com a crise em 2008, fui desligado da multinacional em que trabalhava e daí em diante decidi iniciar uma atividade própria no agronegócio. Com mais um sócio abri uma empresa para prospecção de oportunidades de investimentos no Agro e dentre várias alternativas elencadas a mais interessante foi a piscicultura em tanque-rede. Acreditando que o consumo de peixe viria a aumentar e sabendo que o Mato Grosso tem um enorme potencial hídrico, grande produção de grãos, principal matéria prima da ração, decidimos começar um projeto de produção de peixes em tanque-rede. Em 2009 protocolamos uma solicitação para área aquícola no Ministério da Pesca e após três anos e meio de uma agoniante espera, recebemos nossa outorga e licença ambiental e iniciamos a produção de Pintado.

“Hoje somos 400 associados e desenvolvemos um trabalho junto ao governo do Estado e Assembleia Legislativa no intuito de regulamentar a criação peixes no estado.”

AQUACULTURE BRASIL: Atualmente você é presidente da Associação dos Aquicultores do Estado de Mato Grosso (Aquamat). Conte-nos como foi criada esta associação, qual o papel que ela desenvolve e quais as principais metas desta gestão?

Daniel Melo: Em 2001 muitos piscicultores que cultivavam peixes híbridos em suas propriedades estavam sendo intimados e alguns até presos, já que nessa época a criação não era regularizada. Tendo em vista esse cenário, alguns produtores solicitaram junto à ALMT (Assembleia Legislativa de Mato Grosso) uma solução para essas questões. Alguns deputados se comprometeram em colaborar, foi convocada uma reunião com os demais produtores para promover a criação de uma associação para tratar de seus interesses e nessa reunião compareceram cerca de 150 pessoas. Nesse mesmo ano em 12 de outubro de 2001 foi assinada a 1ª (primeira) ata de criação da associação, mas só veio de fato a ser criada em 2005. Hoje somos 400 associados e desenvolvemos um trabalho junto ao governo do Estado e Assembleia Legislativa no intuito de regulamentar a criação peixes no estado, trabalho que tem dado resultado, haja vista a criação da lei que disciplina a atividade da Piscicultura em 2006 e posteriores alterações. A Aquamat atua também em parceria com o Sebrae de Mato Grosso na realização de eventos voltados a piscicultura tais como palestras, seminários, cursos, dias de campo além de promover a piscicultura no Estado. Para 2018 temos já firmado junto ao Sebrae um projeto de Assistência Técnica dedicada aos piscicultores, também estaremos atuando no objetivo de implementar o uso de novas tecnologias nas pisciculturas tais como aeração nos viveiros, utilização de probióticos, implementação de silos para armazenamento de ração e a criação de um centro de recebimento e distribuição de peixes. No âmbito político administrativo, estamos cri- ando um grupo de trabalho da Piscicultura dentro da SEMA (Secretaria de Meio Ambiente do MT) a fim de debater junto de representantes da SEMA, Universidades, IBAMA, Secretaria da Pesca, Embrapa entre outros participantes todas questões relativas ao impacto ambiental e sócio econômico da piscicultura.

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AQUACULTURE BRASIL: E como é ser presidente de uma associação tão importante para o aquanegócio do estado e do País, já que segundo os dados relativos ao ano de 2017 da Associação Brasileira de Piscicultura – Peixe BR, o estado do Mato Grosso é o 4° maior produtor de pescado?

Daniel Melo: É uma honra e grande responsabilidade poder representar produtores de um estado com relativa importância na produção de alimentos no Brasil. As atribuições são inúmeras, pois é importante estar presente nos eventos, reuniões e debates junto as instituições públicas e privadas a fim de promover e levar ao conhecimento da sociedade a importância da piscicultura na geração de emprego e renda e na proteção do peixe do rio. Conciliar essas ações com as nossas atividades particulares e principalmente a presença junto da família as vezes não é fácil. No entanto, conto com uma equipe no conselho administrativo de enorme capacidade e dedicação que faz esse trabalho dar resultados. A Aquamat está sendo uma verdadeira escola para mim.

AQUACULTURE BRASIL: Com um dos maiores potenciais hidrelétrico do Brasil, agora o estado de Mato Grosso poderá utilizar estas áreas para criação de peixes exóticos em tanques-rede, possibilitada por uma alteração na lei 10.669, em janeiro deste ano. Daniel, como você vislumbra as mudanças na piscicultura do estado a partir desta liberação?

Daniel Melo: O Mato Grosso já tem instaladas 121 hidrelétricas e/ ou PCHs (Pequenas Centrais Hidrelétricas) em águas estaduais e da união. Só o lago da Usina de Manso são 42.000 ha de lâmina de água sendo que 1% ou 420 ha, segundo estudo do Ministério da Pesca, são destinados a atividade de piscicultura. Acreditamos que as pisciculturas em tanque-rede deverão crescer consideravelmente em Mato Grosso, podendo o estado em pouco tempo voltar a ser o maior produtor do Brasil, gerando oportunidade para pequenos, médios e grandes produtores, além da geração de emprego e renda. Entretanto, em paralelo a esse crescimento é de fundamental importância estarmos atentos a implementação de assistência técnica nas pisciculturas, atuar junto às indústrias para se instalarem em nossa região e principalmente utilizar dos protocolos de produção para que tenhamos um crescimento ambientalmente sustentável.

AQUACULTURE BRASIL: A lei número 10.669 também isentou os piscicultores com até 10.000 (dez mil) metros cúbicos de água em tanque-rede do licenciamento ambiental e outorga, bem como o pagamento de taxas de registro e outorga de água. Dessa forma, como está ou ficará essa distribuição para a concessão das áreas aquícolas?

Daniel Melo: O Parque Aquícola de Manso, por exemplo, está em águas da União, dessa forma a distribuição das concessões nesses parques permanecem inalteradas. Já os reservatórios em águas estaduais se enquadram na nova lei 10.669.

 AQUACULTURE BRASIL: Quantos parques aquícolas possuí o estado?

Daniel Melo: Temos oito Parques Aquícolas, todos dentro do Lago do Manso. Este lago também possui 42 áreas aquícolas outorgadas que foram concedidas por meio de solicitação dos interessados.

AQUACULTURE BRASIL: Em 2017 o governo também prorrogou por mais 10 anos a lei que permitia a isenção de ICMS para a venda de pescado para fora do estado. Este incentivo certamente trará novos investidores para a piscicultura de Mato Grosso. Certo?

Daniel Melo: Sim. A isenção do ICMS é um incentivo dado para praticamente todas as cadeias do agronegócio que estão iniciando. O objetivo da isenção é para que as cadeias se estruturem no que tange aos processos de produção, tecnologias, logística e mercados. Com menos impostos os empresários se sentem motivados a investir fazendo a cadeia se estruturar, é o que está acontecendo com o médio norte do estado, aonde produtores de soja, milho e algodão estão se tornando também piscicultores.

AQUACULTURE BRASIL: O estado de Mato Grosso é o maior produtor de grãos do país. Isso pode influenciar o preço das rações fabricadas dentro do estado? Seria uma alternativa aos produtores, fazer a própria ração?

Daniel Melo: A enorme produção de grãos no Mato Grosso é sim um diferencial para nossa piscicultura. Com a grande oferta de grãos próximo das fábricas de ração, por exemplo, a indústria pode comprar o milho direto do produtor nos períodos de início de colheita, quando normalmente o preço é menor e armazená-lo, protegendo-se das variações de preço. Com esse diferencial há margem para a fábrica se tornar mais competitiva e reduzir o preço final da ração, porém essa é uma política interna de cada empresa. A produção de ração pelos produtores é uma alternativa que está sendo testada em várias propriedades. Até o momento os resultados evidenciam que para se tornar viável produzir a própria ração é necessária uma demanda muito superior ao que os produtores normalmente consomem em suas propriedades. Entretanto, podemos ter novidades em pouco tempo, pois nos grupos de debate vemos com frequência novas descobertas que logo poderão estar sendo implementadas.

AQUACULTURE BRASIL: No ano passado a Aquamat se encontrou com a Embrapa para viabilizar parcerias em aquicultura. Qual a importância dessa instituição e como a mesma pode auxiliar a piscicultura do estado de Mato Grosso?

 Daniel Melo: A Embrapa é uma empresa de fundamental importância para Piscicultura. Com um centro de pesquisa moderno em Palmas, TO poderá apresentar estudos e pesquisas que vão ser determinantes para o crescimento da piscicultura. Em setembro a Aquamat em parceria com a Frente Parlamentar do Agronegócio esteve na sede da Embrapa Pesca e Aquicultura para levar as demandas dos produtores de Mato Grosso. Nós fomos recebidos com muita atenção por mais de 15 pesquisadores que ficaram por dois dias atentos as nossas solicitações na área de nutrição, sanidade, variabilidade genética das espécies e manejo. Apesar da escassez de recursos presente nas instituições públicas em todo o Brasil conseguimos firma parceria para dois projetos iniciados já em 2017. Em setembro recebemos três pesquisadoras que visitaram propriedades e ministraram palestras sobre a prevenção de doenças tais como a Perulernae e Acantocéfalo e sanidade nas pisciculturas. Outro trabalho importante também iniciado em novembro de 2017 foi o Projeto Qualificação do Banco de Germoplasma. Esse trabalho objetiva certificar pureza das matrizes de produção dos alevineiros (produtores de alevinos). Desta forma a Embrapa, após análise do material genético de cada uma dessa matrizes, vai poder informar ao produtor de alevinos quais peixes do seu plantel são realmente puros e com melhor qualidade genética a fim de produzir um alevino de melhor qualidade.

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AQUACULTURE BRASIL: Como anda o pacote tecnológico para as espécies nativas e os híbridos cultivados no estado? Com a entrada da tilápia, pode ocorrer uma baixa na produção das espécies nativas, como o Tambaqui e os híbridos?

Daniel Melo: A Embrapa está atuante no estudo das espécies nativas e temos uma grande empresa em Mato Grosso já investindo no pacote tecnológico do tambaqui com resultados muito animadores. Acreditamos que com aumento da produção de tilápia em tanques-rede mais empresas virão investir e certamente não se abdicarão de estudar as espécies nativas e seus híbridos que apresentam o forte apelo mercadológico com demanda crescente no Brasil e no exterior. A tilápia poderá trazer um grande impulso na produção de nativos trazendo novas tecnologia e investimentos para o setor.

AQUACULTURE BRASIL: Por fim, qual a expectativa para o setor aquícola de Mato Grosso para este ano de 2018?

Daniel Melo: Estamos bastante otimistas! Temos a consciência do potencial de produção do Estado de Mato Groso. Com a aprovação da Lei 10.669 e um claro sinal de melhora do cenário econômico brasileiro acreditamos que novos investimentos virão para o setor. O mercado consumidor está em expansão na busca de alimento saudável e o peixe da piscicultura se encaixa perfeitamente nessa nova visão dos consumidores. Para atender essa demanda estamos trabalhando fortemente para ampliar o acesso a assistência técnica nas propriedades, implementar as novas tecnologias de produção e se aproveitar desse mercado.