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Medidas preventivas e sanidade na aquicultura

Medidas preventivas e sanidade na aquicultura
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Como melhor proteger nossos plantéis?

Marcelo Borba
Gerente Técnico Comercial – Aqua
Phileo Lesaffre Animal Care
m.borba@phileo.lesaffre.com

Todas as doenças causadoras de impactos econômicos na aquicultura são de origem bacteriana, viral, fúngica e/ou parasitária. Aliás, a combinação de um ou mais destes agentes é a forma mais comum de infestação e propagação de enfermidades entre camarões e peixes.

Não é novidade para nenhum leitor da Revista Aquaculture Brasil que as doenças na aquicultura têm causado perdas econômicas  bilionárias (e sociais!) em todos os elos da cadeia produtiva. Como exemplo, a conferência da Aliança Global de Aquicultura GAA (Global Aquaculture Alliance’s – GOAL), realizada na China em setembro de 2016, apresentou o resultado de sua pesquisa anual sobre os  principais gargalos enfrentados pela aquicultura mundial, onde 53% dos maiores especialistas do segmento foram enfáticos ao apontar que a Sanidade e o Manejo das Enfermidades são os principais gargalos e o principal fator limitante ao seu desenvolvimento.

Segundo Lightner e colaboradores (2012), as perdas econômicas causadas pela Síndrome do Vírus da Mancha Branca (WSSV) até aquele ano, haviam sido estimadas em US$ 15 bilhões. Apenas no Equador, em 1999, os prejuízos podem ter alcançado a impressionante cifra de US$ 2 bilhões. O mesmo artigo cita perdas na ordem de US$ 100 a US$ 200 milhões caudados pela NIM (IMNV) nas Américas (leia-se Brasil) e de cerca de US$ 1 bilhão no Sudeste Asiático (leia-se Indonésia), até 2006.

Já a EMS ou Síndrome da Mortalidade Precoce, a doença emergente mais devastadora da carcinicultura mundial, é causada por uma cepa mutante de Vibrio parahaemolyticus, e tem causado perdas da ordem de bilhões de dólares por ano, tendo se dispersado em todo o Sudeste Asiático, cruzado oceanos, e aportado nas Américas, causando mortalidades massivas e grandes prejuízos econômicos também no Equador e no México, primeiro e segundo maior produtor de camarão do continente, respectivamente, de acordo com Zorriehzahra e colaboradores (2015).

O importante papel da prevenção

Os camarões e peixes adoecem e morrem de doenças porque são expostos a agentes patogênicos de maneira agressiva o suficiente para que seus sistemas de defesa (e demais sistemas a estes associados) não consigam suportar os efeitos deletérios ocasionados por esta exposição a que foram submetidos.

As Boas Práticas de Manejo (BPMs) são fundamentais para manter um meio mais equilibrado e um maior conforto ambiental. Muitas vezes, as BPMs são “esquecidas” ou relegadas a um segundo ou terceiro planos. Outras tantas são adotadas, mas seus efeitos não são eficientemente aferidos e mensurados, fazendo com que muitas vezes se duvide de sua eficácia.

Fato é que, no Brasil,  peixes e camarões ainda são cultivados de forma, digamos, reativa, no que se refere à sua sanidade, imunidade e proteção. Queremos dizer com isso que é muito mais comum tratarmos doenças depois de seu surgimento e dispersão nos viveiros ou tanques-rede, do que a adoção sistemática de medidas que visem prevenir, em nível populacional, uma determinada doença. Ações  profiláticas são utilizadas com o intuito de impedir ou reduzir o risco e o grau de transmissão de uma enfermidade, protegendo a população de sua ocorrência ou evolução.

Dentre outras medidas profiláticas recomendadas pela Associação Brasileira de Criadores de Camarão (ABCC), por meio das Boas Práticas de Manejo, tem destaque o uso de probióticos, prebióticos e simbióticos, sobre os quais falaremos mais um pouco agora.
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Imagem © Maurício Emerenciano

Probióticos, Prebióticos e Simbióticos

O uso de probióticos na carcinicultura brasileira é recente (a partir do ano 2000), tendo se difundido de forma expressiva pela  comprovada eficiência e benefícios advindos de seu uso, especialmente no que se refere à biorremediação, ajudando a promover uma mineralização de matéria orgânica mais eficiente, um maior equilíbrio dos parâmetros físico-químicos e hidrobiológicos da água, assim como uma presença mais abundante de bactérias probióticas, o quê, por exclusão competitiva, ajuda a promover um meio microbiologicamente menos propenso à introdução e disseminação de doenças, uma vez que bactérias “boas” competem por nutrientes e oxigênio com bactérias “ruins”, tornando o meio mais ameno e confortável. Infelizmente, contudo, os probióticos nem sempre conseguem,  sozinhos, conter surtos ou minimizar perdas decorrentes de agentes patogênicos.

Para tanto, a indústria aquícola já utiliza, cada vez mais frequente, prebióticos. Tratam-se de substâncias profiláticas comprovadamente eficazes, absolutamente acessíveis e de uso incompreensivelmente pouco adotado no Brasil, ainda, estando em processo de adoção e  disseminação por parte de nossa indústria. Felizmente já existem casos de sucesso com seu uso em unidades produtivas comerciais,  inclusive no Brasil, o que pode servir de incentivo e modelo para muitos produtores, que muitas vezes não sabem ao certo o que são, como agem e como utilizá-los.

Para os patógenos intestinais conseguirem causar danos no hospedeiro, seja este o camarão ou o peixe, eles precisam se ligar às células do  seu epitélio ou tecido intestinal, e a superfície ou parede celular das leveduras contém moléculas de carboidratos complexos (açúcares) que interferem diretamente na habilidade de bactérias patogênicas, as Gram negativas, principalmente, de se ligarem às células da parede intestinal dos animais.

Estes carboidratos complexos são os mananoligossacarídeos, também conhecidos como MOS. Uma vez adicionados à ração, os mananos passam a fazer parte do bolo alimentar. Como não são absorvidos pelas células intestinais, e por possuírem uma forte afinidade com as lectinas (substâncias presentes na parte exterior da membrana plasmática das células bacterianas), os mananos ligam-se a estes compostos, o que leva à inativação das bactérias nocivas e sua consequente excreção, diminuindo assim sua quantidade  concentração) no corpo do hospedeiro (o camarão e/ou o peixe, no nosso caso).

“Prebióticos são substâncias profiláticas comprovadamente eficazes, absolutamente acessíveis e de uso incompreensivelmente pouco adotado no Brasil.”

Já os β-glucanos, por sua vez, possuem um outro mecanismo de ação. Uma vez presentes na ração chegam, também via bolo alimentar, ao trato gastrointestinal dos peixes ou camarões, sendo identificados por estes como “sinais de alerta”, o que estimula a produção de  macrófagos, que são células do sistema de defesa que possuem a habilidade de fagocitar (comer/ingerir) restos celulares, partículas inertes e, principalmente, microrganismos, como as bactérias.

Adicionalmente, pesquisas recentes mostram que os macrófagos exercem outras funções além da fagocitária. Possuem, também, uma grande importância na imunomodulação, produzindo e secretando um grande número de moléculas que, entre outras funções, atraem outras células de defesa para locais específicos onde estejam ocorrendo uma reação inflamatória, por exemplo.

Os prebióticos, desta forma, possuem efeitos sinérgicos com os probióticos, e quando utilizados conjuntamente, passam a ser chamados  e simbióticos.

Se, por um lado, as bactérias probióticas competem com as bactérias patogênicas por nutrientes e oxigênio, sendo a concentração de uma inversamente proporcional à da outra, os prebióticos podem ser ludicamente entendidos como “armadilhas” para capturar, inativar e/ou ingerir, de maneira efetiva, as bactérias danosas, abrindo assim espaço para uma melhor e mais efetiva colonização do trato digestório por bactérias benéficas aos camarões e peixes.

Uma rápida pesquisa no Google Acadêmico buscando por “immunitty in aquaculture’’ (imunidade em aquicultura) retornou 332.000 resultados em 8 segundos. Já “functional feeds in aquaculture’’ (alimentos funcionais na aquicultura) retornou 41.000 resultados em 4 segundos, ao passo que “prebiotics in aquaculture’’ (prebióticos na aquicultura) retornou 16.500 resultados em 5 segundos. Sem querer entrar no mérito da qualidade de alguns trabalhos, fato é que muito já foi proposto, investigado e testado com relação à melhoria da  imunidade ou sistema de defesa natural de peixes e camarões, tendo algumas substâncias conseguido, conforme descrito acima, uma comprovada eficiência in vitro, in vivo e em condições de campo, em unidades produtivas comerciais.
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Imagem © Marcelo Borba

Conclusão

Os prebióticos funcionam como um seguro, como uma proteção a mais de que os produtores de camarão e peixes podem se valer para minimizar riscos, promovendo um melhor status imunológico e, consequentemente, uma maior resistência a doenças por parte destes animais.

Desta maneira passamos a conhecer um pouco mais sobre o que são e quais as funcionalidades de alguns prebióticos, a maneira como agem e seus efeitos sinérgicos com os probióticos. Cabe destacar, ainda, que os prebióticos produzido à base de parede celular de levedura também possuem efeitos sinérgicos com vacinas (no caso de peixes) e, inclusive, com agentes antimicrobianos, como adjuvante na terapia.

Cabe agora a decisão, por parte dos produtores e seus fornecedores de ração, de avaliarem a viabilidade da utilização dos prebióticos ao  longo de todo o ciclo de produção, uma vez que na maioria das vezes, na prática e em campo, não se tem como antever quais serão os viveiros infectados, quando o serão e em que grau.