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Lambaricultura, consolidando-se na aquicultura brasileira

Lambaricultura, consolidando-se na aquicultura brasileira
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Não tem mais volta! Definitivamente a criação comercial de lambaris encontra-se consolidada como uma cadeia produtiva dentro da aquicultura brasileira. Outrora apenas opção secundária em algumas pisciculturas, atualmente já é possível identificar vários  empreendimentos voltados exclusivamente a produção de lambaris.

Destaca-se o estado de São Paulo, como maior produtor. No entanto, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais e Paraná também estão em acelerado ritmo de crescimento. Nestes estados o atrativo é o mercado de iscas vivas para a pesca esportiva. Enquanto que em Santa Catarina o crescimento da produção é voltado ao mercado de petisco e uso como isca/chamariz na pesca industrial do atum. Sendo este segundo, apesar de gigantesco potencial, ainda pouco explorado.

Em relação ao mercado de iscas vivas na região Sudeste, este ainda não é atendido em sua plenitude. Faltam lambaris nos finais de semana com feriado prolongado e lamentavelmente o preço pago ao produtor tem caído. Algo difícil de ser combatido, já que constantemente novos produtores, sem adequado planejamento, estão ingressando na atividade. Na ânsia de conquistarem mercado, desinteligentemente baixam seus preços de venda, para alegria dos intermediários e pousadas, já que o preço final aos pescadores esportivos tem se mantido o mesmo, sendo até maior quando falta o produto. Deste modo, os maiores lambaricultores já estão direcionando suas produções para o mercado de petisco. Claro, sem deixar de lado o mercado de iscas vivas.

Não tem sido fácil transformar a enorme demanda para petisco em mercado. Como primeiro obstáculo, nada relacionado a mercado. E sim com legislação. Como é complexo e desanimador produzir alimentos neste Brasil. Haja paciência, recursos financeiros e conhecimento multidisciplinar para colocar um produto novo no mercado. Diferentes Estados, diferentes legislações, diferentes posturas dos órgãos fiscalizadores e iguais complexidades. Mas… como ser produtor rural neste país é negócio para os fortes, aos poucos os desafios estão sendo superados.

Outro obstáculo enfrentado é de ordem mercadológica: concorrência com o lambari da pesca extrativa. Enquanto se preconiza a venda do lambari da aquicultura, temperado e empanado, por ao menos R$ 30,00 kg o lambari da pesca extrativa tem se apresentado com preços ao redor de R$ 12,00 kg. Apesar de receberem o mesmo nome, são produtos completamente diferentes em termos de qualidade e segurança alimentar. A estratégia é não baixar os preços do lambari da aquicultura (uma vez que não tem margem pra isto) até que os compradores entendam a qualidade superior deste produto. O que não tem sido fácil, já que a comparação pelo preço vem sempre em primeiro lugar.

Mesmo diante destes cenários não muito otimistas, aqueles que estão produzindo lambari com profissionalismo encontram-se satisfeitos com o negócio. Com razão, pois, a lambaricultura ainda é, indiscutivelmente, a atividade mais rentável da piscicultura brasileira. No caso daqueles que atuam exclusivamente no mercado de iscas vivas, produzindo no sistema de tanques escavados, com 3 ciclos por ano, densidade padrão de 50 animais/m², custo de produção ao redor de R$ 60,00 o milheiro e preço de venda ao intermediário por R$ 160,00, a espécie tem proporcionado uma receita líquida ao redor de R$ 15,00 /m²/ano. Bem superior aos R$ 4,00/ m²/ano que uma produção de pacus ou tilápias proporciona (em ambos os casos, considerando apenas os custos operacionais).

Esta receita líquida obtida com a venda no mercado de iscas vivas deve cair consideravelmente no caso da venda para petisco. Por outro lado, os volumes são mais expressivos e interessantes. O que justifica a aposta no mercado de “lambari gourmet”. Porém, o desafio é proporcional a expectativa gerada. Desde a disponibilização no mercado da máquina de eviscerar, já se sabia que o consumidor não aceitaria simplesmente um lambari eviscerado, congelado e em blocos de 1 kg. E sim disponibilizado de forma prática para o consumo. E este tem sido o grande desafio, já que envolve certa transição em termos de estrutura de negócios. O que até então era possível de ser gerenciado de modo familiar, agora demanda um gerenciamento empresarial.

Antes de concluir, e aproveitando o ensejo, é imprescindível um recado importante que sempre gosto de reforçar: ainda tem muito produtor, ou melhor, aventureiro, em busca da espécie maravilha. Esta espécie, seja nativa ou exótica, NÃO existe! O que existe são espécies com maior ou menor pacote tecnológico desenvolvido. Bem como, particularidades regionais e internas de cada propriedade que são mais favoráveis ao cultivo desta ou daquela espécie. No entanto, ao menos duas particularidades todas as espécies possuem em comum: vão dar MUITO trabalho para serem produzidas e exigem conhecimento multidisciplinar para gerenciar o negócio.

Então, criar lambari não é melhor, nem mais fácil, nem mais rentável que tilápia, pacu, tambaqui ou pirarucu. É tão bom quanto e hoje, felizmente, já possui pacote tecnológico minimamente estabelecido, de modo que os interessados possam fazer projeções, análises de mercado e, de acordo com algumas particularidades, tomar a decisão mais sensata. Por fim, há tempos que já não cabe mais paixão na produção aquícola. Aquicultura é NEGÓCIO, e não hobby.

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Lambari para petisco © Paulo Barmakian