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Cooperativa de Pesca e Aquicultura de Goiás (COOPAQ) – Parte II

Cooperativa de Pesca e Aquicultura de Goiás (COOPAQ) – Parte II
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Parte II: os desafios em dominar o sistema de cultivo

Raimundo Lima da Silva Junior
Biomédico, Mestre em Biologia
Núcleo de Pesquisas Replicon, Escola de Ciências Agrárias e Biológicas
Pontifícia Universidade Católica de Goiás (PUC,GO)
Sócio Fundador da Cooperativa de Pesca e Aquicultura de Goiás (COOPAQ)
railim.jr@gmail.com

Na primeira parte desta série de três artigos (publicado na edição n° 10 – jan/fev 2018), foi relatado o início da Cooperativa de Pesca e Aquicultura de Goiás (COOPAQ), que nasceu com o propósito de produzir pescado de forma sustentável, em um sistema fechado que permitisse um menor impacto ambiental e maior produtividade com biossegurança.

Foi relatado as primeiras visitas técnicas, a capacitação oferecida aos cooperados e alguns resultados, como a primeira unidade experimental para estudo do sistema de bioflocos. Dando continuidade, neste artigo será abordado a construção do Módulo Híbrido e aevolução para o sistema BRASYS (Biofloc, Recirculating and Aquaponics System).

A primeira experiência em conjunto: Módulo Híbrido

Aperfeiçoando a ideia e sempre procurando informações, conhecemos um projeto, importado do México, que utilizava tanques suspensos redondos, confeccionados com geomembrana PEAD e biofiltro e percebemos que estávamos diante daquilo que procurávamos: um sistema que proporcionasse cultivar tilápia e camarão em tanques diferentes, usando a mesma engenharia de produção e tratamento de efluentes.

A proposta inicial foi criar tilápia (em tanques de 200 m³) e camarão do Pacífico, Litopenaeus vannamei, (em tanques de 1000 m³), usando a mesma estrutura de filtragem de sólidos.

Assim, com a finalidade de executar o projeto, criamos um grupo de 39 investidores para o financiamento de um módulo de cultivo coletivo. Destes, noventa por cento não eram aquicultores, e 2/3 residiam no interior do estado, porém, todos demonstravam interesse
em produzir pelo sistema, desde que os dados fossem viáveis e a tecnologia pretendida estivesse dominada.

Uma área de 15.000 m² foi então alugada de um cooperado para atender a demanda inicial do projeto. Nascia o que denominamos de Módulo Híbrido (MH) de cultivo da COOPAQ.

As obras iniciaram em agosto de 2016 (Figura 01), e em dezembro do mesmo ano ocorreu o primeiro povoamento com 5.500 tilápias. No mês seguinte, em janeiro de 2017, foram povoados 330.000 pós larvas (PL’s) de camarão (L. vannamei).
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Figura 1. Início das obras no MH, COOPAQ (agosto a novembro/2016). A) Terraplanagem da área do MH. B) Demarcação do local dos tanques. C) Construção do biofiltro. D) Tanques de cultivo de 1000 m³ (esquerda) e 200 m³ (direita).

A busca constante por informações

Em dezembro de 2016, aproveitando a oportunidade de estar nos Estados Unidos, busquei conhecer um pouco mais do sistema BFT (do inglês, Biofloc Tecnology) e de outros sistemas de produção junto ao Prof. Dr. Andrew Ray e a Profª. Dra. Janelle Hager, na KSU (Kentucky State University).

O Dr. Ray realizava diversos estudos no âmbito da aquicultura em um importante Centro de Pesquisas em Sistema de Bioflocos, em conjunto com outras tecnologias como RAS (Recirculating Aquaculture System) e aquaponia, cuja Profª. Hager era responsável (Figura 02).

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Figura 02. Visita técnica à KSU (dezembro/2016). Prof Dra Janelle Hager (direita) e Prof Dr Andrew Ray (centro).

As principais características que me levaram à KSU, além da brilhante referência do Dr. Ray como pesquisador do sistema BFT, foram: a localização, pois o centro de pesquisas fica longe do mar; as tecnologias agregadas (RAS e aquaponia); e as condições climáticas sazonais, conforme observamos no Centro Oeste do Brasil, sede da nossa Cooperativa. Esse conjunto de fatores foi determinante para buscar entender um pouco mais sobre o sistema que estávamos tentando dominar.

O sistema utilizado pelo Dr. Ray tinha como base os mesmos princípios de produção do L. vannamei, otimizados pelos pesquisadores Steve Hopkins, na década de 90 (Waddell Mariculture Center), na Carolina do Sul (EUA) e, nos anos 2000, por Tzachi Samocha (Texas A&M University System), da cidade de Corpus Christi, Texas (EUA). Ambos os sistemas faziam uso de tanques raceways de 35 e 100 m³
para o cultivo de camarões em salinidades de 20-35 ppt e um skimmer, chamado de Foam fractionator (na tradução livre, fracionador de espuma) para o tratamento de sólidos.

Na oportunidade, pude observar o quanto o tratamento de sólidos era importante para o bem-estar dos animais aquáticos e tamanho era o impacto destes sólidos na qualidade da água. Ao voltar para o Brasil, deparei-me com a primeira dificuldade durante o cultivo na unidade do MH.

Os desafios do pioneirismo

O ano de 2017 foi o ano de provação do cooperativismo na COOPAQ. A realidade do cultivo pelo sistema esteve à prova durante todo o ano. Os alevinos de tilápia foram acometidos pela bactéria Flavobacterium columnare, causadora da columnariose. O tratamento da columnariose fez com que a formação dos flocos microbianos fosse adiada. Após o tratamento, colocou-se em prática o protocolo  otimizado dois anos antes com o protótipo para estudo do sistema BFT, comentado no artigo anterior.

A formação dos primeiros flocos foi observada de um dia para o outro. Revertemos uma dosagem de nitrito de 70 mg.L–1 para 0,3 mg.L–1   em 10 dias. Infelizmente, toda esta produção (cerca 4.500 tilápias) foi perdida após dois meses de cultivo devido a uma pane elétrica no grupo gerador. Os camarões também foram perdidos, e os fatores se deram de forma isolada e conjunta: descontrole dos parâmetros de nitrogenados, aclimatação sem critérios de qualidade de água pré-estabelecidos, insumos inadequados, atrasos na entrega das PL’s, sistema elétrico inapropriado e cobertura inacabada.

Repovoamos o tanque de tilápias poucos dias após a perda geral, aproveitando a mesma água. O controle dos nitrogenados tornou-se algo cotidiano com a reutilização de toda água do cultivo anterior. Porém, o volume de sólidos exigiu uma atenção especial para o controle dos flocos microbianos que chegava a 30 mL.L–1 com 2 meses de cultivo. O cone Imhoff juntamente com o oxímetro e medidor de pH, eram as principais ferramentas para análise diária do sistema. Percebemos uma diminuição do consumo de ração pelas tilápias quando estas atingiram o peso médio de 100g. O oxigênio e sua saturação no tanque também se mostraram baixos, inversamente proporcionais ao volume de flocos, que aumentava. O biofiltro passou a ser nossa principal ferramenta para o tratamento do excesso de matéria orgânica que era gerada nos tanques (Figura 03).
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Figura 3. Cone de Imhoff antes e depois do tratamento pelo Biofiltro.

Mais uma perda

Durante o novo ciclo do cultivo de camarões, tivemos a presença de uma Engenheira de Aquicultura da empresa contratada para nos dar assessoria técnica. Recebemos todas as sugestões para os reajustes de parâmetros bioquímicos para reiniciarmos o cultivo. Após uma semana do povoamento, os parâmetros de qualidade de água preocupavam: as concentrações de amônia e nitrito no tanque estavam elevadas. E em baixa salinidade (3ppt), os níveis de nitrito acima de 10 mg.L–1 tornaram inevitável a perda de mais um lote de camarão.

Após este evento, uma comitiva da Cooperativa foi convidada a realizar uma semana de visitas técnicas nas instalações da empresa de  assessoria, em Trairi (Ceará) e nas fazendas o grupo Vivenda do Camarão, na cidade de Jaguaruana (Ceará), em maio de 2017.

Observar uma rotina de produção de 120 toneladas/mês em sistema bioflocos até a fase juvenil em diferentes formas de tanque, aeração, sistema de  drenagem e coberturas, foi uma experiência enriquecedora.

Sistema BRASYS

Na terceira tentativa do cultivo de camarão, repetimos o protocolo de cultivo otimizado para a tilápia. O mesmo protocolo foi reproduzido por um cooperado que cultivava tilápias na cidade de Orizona (Figura 04). Outros parceiros repetiram o protocolo e os resultados demonstraram ser uma metodologia de produção eficaz no controle dos nitrogenados. Paralelamente, utilizamos a estrutura do  biofiltro para cultivarmos hortaliças (Figura 05). O cultivo durante 32 dias mostrou-se promissor desde que a incidência dos raios solares e do volume de sólidos suspensos fossem controlados.

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Figura 4. Fazenda de Produção de Tiago Oliveira (cooperado), cidade de Orizona, Goiás (junho/2017).

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Figura 5. Produção de hortaliças aproveitando a estrutura do biofiltro. Na imagem, as alfaces com 28 dias.

De acordo com as características da metodologia de cultivo e da engenharia empregada, denominei o conjunto das tecnologias como o Sistema BRASYS (do inglês, Biofloc, Recirculating and Aquaponics System) por integrar a tecnologia de bioflocos formado no tanque de cultivo; usar o sistema RAS como ferramenta de filtragem dos sólidos excedentes no sistema e retornar a água tratada para o tanque de cultivo; e integrar a aquaponia de forma acessória para cultivo de hortaliças plantas para uso artesanal. Mais detalhes desta nova tecnologia serão abordados no próximo artigo desta série. Aguardamos vocês!