A precisão da natureza

A precisão da natureza
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Nesta coluna sempre abordamos pontos ligados a aquicultura de precisão. Entretanto, sempre insisto na amplitude que este termo possui e em quanto temos a evoluir em termos de uma aquicultura que adote a precisão como estratégia e modelo de conduta. Nesta  oportunidade comentarei sobre o quanto a natureza tem a nos ensinar sobre precisão.

Um jovem pesquisador, Jonas Rodrigues Leite, desenvolveu seu doutorado com uma espécie ornamental pouco estudada, o Gramma brasiliensis. Este peixe é endêmico dos recifes de corais na costa brasileira, sendo a única espécie da família Grammatidae que ocorre no Brasil. Mesmo ocorrendo em áreas rasas e tendo sido a terceira espécie de peixe marinho mais exportada no mercado de peixes  ornamentais, tinha a maior parte das informações sobre sua biologia e ecologia desconhecidas. O desafio do Jonas era então desvendar os mecanismos envolvidos na biologia reprodutiva e comportamental da espécie, para embasar metodologias de cultivo em cativeiro.

Graças aos esforços realizados, um expressivo avanço foi obtido no conhecimento sobre esta espécie, abrindo caminho para que outros pesquisadores possam ampliar estes estudos. Os dados obtidos indicam que a reprodução da espécie ocorre praticamente o ano todo no litoral da Bahia, com exceção do outono, e com um pico reprodutivo representativo no verão. Analisando o padrão sexual encontrado para Gramma brasiliensis, foi possível determinar que a espécie apresenta hermafroditismo protogínico diândrico. Outra surpresa foi que a espécie apresenta um padrão de comportamento de construção de ninho! O macho constrói um ninho utilizando macroalgas em fendas e depressões no teto de cavernas e franjas recifais. A espécie se reproduz em casais formados por dois machos e preferencialmente duas fêmeas.

Vamos fazer uma interrupção, pois a surpresa é grande: peixe fazendo ninho igual de passarinho??

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Gramma  brasiliensis © Jonas Rodrigues Leite

No artigo publicado no periódico Marine and Fresh water Research, Jonas e colaboradores descreveram toda a complexa construção do  ninho pelo Gramma  brasiliensis. O artigo ainda discute estratégias de conservação relacionadas aos comportamentos reprodutivos da espécie,  que atualmente está ameaçada de extinção e tem sua captura proibida.

Atualmente existem cerca de 440 espécies de peixes recifais conhecidas para o Brasil, sendo 10% delas endêmicas. Muitas dessas possuem alto interesse e valor comercial, seja para consumo humano, ou para o mercado de aquariofilia.

Observem o potencial de biodiversidade que o Brasil possui. Imaginem o desenvolvimento de tecnologias para produzir estas espécies em cativeiro. Peixes ornamentais marinhos de pequeno porte possuem elevado valor agregado e, em pequenos espaços, podem gerar  significativo incremento econômico, social e ambiental.

Estas espécies têm interessante comportamento reprodutivo, são de intenso colorido, disputadas e desejadas pelo mercado consumidor nacional e internacional e ainda ameaçadas de extinção. Lembram quando falo de aquicultura de precisão? Lembram quando escrevi sobre a precisão nas pesquisas científicas? Pois é… Parece que temos pesquisadores que utilizam a precisão para definir suas estratégias de pesquisa. Meus cumprimentos ao Jonas, ao seu orientador, Prof. Dr. Maurício Hostim e a todos que colaboraram para este  avanço científico no Brasil.

Agora, olhando a última década e tudo o que tem sido feito pela aquicultura marinha no Brasil não posso deixar de perguntar… Com este potencial estratégico aliando produção de espécies endêmicas (nativas) ameaçadas de extinção, geração de renda e sustentabilidade, será que as políticas públicas têm enxergado a aquicultura ornamental marinha com precisão?

Tudo bem. Prometo que não vou mais fazer perguntas difíceis!

Até a próxima coluna.