Principal Colunas Soja – herói ou vilão?

Soja – herói ou vilão?

Soja – herói ou vilão?
0

Nesta coluna abordarei um tema bastante relevante na nutrição aquícola: ingredientes. Essa será a primeira de muitas colunas sobre o assunto. Conforme mencionei na coluna publicada na 1° edição (jul/ago 2016) da Revista Aquaculture Brasil, “É sustentável a indústria de alimentos aquícolas?” A farinha de peixe é um dos principais ingredientes utilizados na nutrição aquícola. Por ser oriundo da pesca de pequenos pelágicos, é um ingrediente com produção limitada e com preço elevado e instável. Dessa forma, é utilizado de forma criteriosa e seu nível de inclusão nas dietas diminui com o avanço das pesquisas nutricionais. Atualmente existe uma grande variedade de ingredientes alternativos, principalmente de origem vegetal, com preço competitivo e grande disponibilidade, para substituir e/ou eliminar a farinha de peixe das formulações aquícolas.

A farinha de soja é um dos principais, senão o principal ingrediente proteico alternativo utilizado nos alimentos aquícolas devido ao elevado conteúdo proteico, perfil de aminoácido favorável, preço comparativamente baixo e vasta disponibilidade. Em espécies herbívoras e omnívoras a farinha de soja é utilizada em níveis de inclusão elevados, podendo em alguns casos substituir por completo a farinha de peixe sem afetar o crescimento. O mesmo não é válido para os organismos carnívoros, onde níveis mais agressivos de substituição podem causar redução do desempenho zootécnico e afetar a competência fisiológica dos mesmos. Isso ocorre devido à presença de fatores antinutricionais tais como inibidores de tripsina, antígenos, lectina, saponinas e oligossacarídeos, que resumidamente afetam a digestibilidade de proteínas e lipídios (Tabela 1). As respostas frente a esse fatores podem variar de espécie para espécie, com algumas delas sendo mais sensíveis e outras mais resistentes a certos tipos de fatores antinutricionais. Diversas pesquisas são realizadas com a finalidade de buscar estratégias para reduzir e/ou eliminar os fatores antinutricionais presentes na farinha de soja. O concentrado e o isolado de soja são exemplos de produtos tratados onde a maioria dos fatores antinutricionais são minimizados e/ou eliminados. Nas próximas colunas irei tratar esse tema com maior detalhe.

Vale lembrar que esses ingredientes são apoiados por uma indústria global bastante agressiva e robusta. O que quero ressaltar é a importância de prestarmos mais atenção no estado de saúde e bem estar dos organismos criados, pois focarmos apenas em crescimento não é suficiente. Assim, recomendo refletir sobre as seguintes perguntas: será que meu peixe e/ou camarão utilizam a farinha de soja de maneira eficiente? Será que apesar do bom desempenho zootécnico meus organismos estão saudáveis? Qual o nível de farinha de soja nas dietas que utilizo? Será que posso otimizar o nível de inclusão de farinha de soja? Qual a finalidade da farinha de soja na formulação da minha dieta, será que existe uma melhor alternativa?

Quero deixar claro que não defendo e nem apoio a farinha de soja. O intuito dessa coluna foi introduzir fatos e informações para um melhor conhecimento desse ingrediente tão relevante na nossa indústria.  Agora, recomendo que busquem saber o que contém nas suas dietas para não ter surpresas.

Tabela 1. Exemplos de fatores antinutricionais presentes na farinha de soja e suas consequências nos organismos aquáticos.

soja-heroi-ou-vilao