Novos desafios

Novos desafios
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Despertou minha atenção uma propaganda na TV há algum tempo atrás com a frase: “O desafio é o que nos move”. Sempre penso nisto em minha rotina diária de pesquisa, ensino e extensão. Foi neste sentido que, após treze anos liderando o Laboratório de Piscicultura Marinha do Instituto de Pesca, em Ubatuba/SP, resolvi aceitar um novo desafio em minha vida profissional e assumir a direção do Centro Avançado de Pesquisa Tecnológica do Agronegócio do Pescado Marinho, do Instituto de Pesca, em Santos/SP, no início de dezembro do ano passado.

O Centro do Pescado Marinho é um dos quatro centros de pesquisa do Instituto de Pesca, reunindo pesquisadores da instituição que desenvolvem pesquisas no litoral do estado de São Paulo. São colegas da área de pesca, maricultura e tecnologia do pescado que trabalham buscando gerar conhecimento científico e disponibilizar isto para a transformação social e econômica da cadeia produtiva. Este centro de pesquisa possui ramificações para atender os arranjos produtivos locais do Litoral Norte e Sul paulista, com sedes em Ubatuba (onde eu trabalhava) e Cananéia.

Por estar localizado em Santos, cidade que abriga o maior porto da América Latina, e rodeado de uma extensa área estuarina, dá para imaginar as intensas interfaces com usos múltiplos e recorrentes impactos ambientais. Os pesquisadores são constantemente demandados para propor ações, utilizando o conhecimento científico, para tentar conciliar o desenvolvimento portuário com as atividades de pesca e maricultura. O centro ainda conta com o Museu de Pesca, uma excelente atração turística (a segunda mais visitada da cidade) que reúne um acervo temático que tem como principal destaque um esqueleto de mais de 21 metros de uma baleia fin (Balaenoptera physalus).

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Mero Epinephelus itajara mantido no Laboratório de Piscicultura Marinha.  © Eduardo Gomes Sanches

 

E porque estou falando tudo isto nesta coluna? Ao assumir este cargo me imaginei entrando em um mundo burocrático, sem atrativos, algo como um mal necessário, uma espécie de rito de passagem na carreira de pesquisador. Ledo engano. A direção deste centro de pesquisa é muito dinâmica, possibilitando interações com diferentes linhas de pesquisa, o que tem me proporcionado um grande aprendizado.

Por outro lado, percebi que graças à equipe de pesquisa que “cultivei” ao longo dos anos, tenho mantido e até ampliado meus projetos de investigação científica, agora com um enfoque muito mais moderno e estratégico. Percebi que podemos ser agentes na mudança de nossa realidade e na mudança do ambiente que nos envolve.

A ciência e as instituições de pesquisa não vivem seu melhor momento. Restrições orçamentárias e perda de pessoal qualificado são comuns a este ambiente. Não fomos preparados na universidade para empreender ou fazer gestão inovativa. Mas sempre existe a oportunidade de aprender.

Apesar do pouco tempo no cargo, este tem sido meu grande objetivo por aqui. Inovar na gestão de um centro de pesquisa, buscar lideranças e incentivar uma nova abordagem na geração de ciência: a ciência aplicada, direcionada aos problemas da cadeia produtiva. E tenho ficado surpreso com tanto conhecimento disponível e tantas idéias boas que simplesmente estavam esperando serem ouvidas.

Dizem que nossos professores devem nos incentivar não pelo ensino mas pelo exemplo. Acredito que estou podendo proporcionar isto aos meus alunos. O exemplo em aceitar desafios, em aceitar mudanças e em acreditar que podemos mudar a realidade por nossas ações.

E a precisão??? Não deveria ser o tema da coluna??? Meus caros, como já falei anteriormente, a precisão é um conceito muito amplo. Precisão é fazer mais com menos. Precisão é otimizar os recursos disponíveis. Precisão é inovar, abordar o problema por outras frentes.  Precisão é acreditar que a cadeia produtiva do pescado tem muito a crescer no Brasil e que se cada um aceitar desafios, podemos em breve ter o pescado como o principal produto agropecuário do país. E aproveitando nossa diversidade, os arranjos produtivos locais podem gerar “plataformas gastronômicas” que deixarão o mais exigente consumidor com lembranças inesquecíveis! (o termo “plataformas gastronômicas” aprendi recentemente com um colega, o pesquisador Luiz Miguel Casarini).

Quem quiser nos fazer uma visita, conhecer um lindo museu e um centro de pesquisa de referência, o endereço é: Av. Bartolomeu de Gusmão, 192. Ponta da Praia, Santos/SP. Até a próxima coluna.