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Construções de viveiros para piscicultura comercial – parte III

Construções de viveiros para piscicultura comercial – parte III
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Prof. Dr. Carlos Eduardo Zacarkim
Eng. de Pesca – CREA-PR 76.314D
Coordenador do Curso de Engenharia de Aquicultura
Universidade Federal do Paraná – UFPR/Setor Palotina
zacarkim@ufpr.br

Construção de Viveiros

Unidades de cultivo destinadas a produção intensiva de pescado devem apresentar características que facilitem predominantemente o manejo e a rotina das operações durante o ciclo de cultivo, por isso, alguns princípios devem ser observados na elaboração de novos empreendimentos aquícolas.

A padronização dos lotes de cultivo é a palavra chave e o desejo das unidades de processamento, objetivando peixes com uniformidade de peso, tamanho, tempo de cultivo e sanidade. Tais características desejadas são independentes da variedade do peixe ou espécie cultivada, que podem mudar de acordo com cada região. Nos artigos anteriores foram abordados alguns aspectos considerados relevantes, como a quantidade de água necessária em projetos (demanda hídrica) e os elementos a serem observados na escolha de áreas para novos empreendimentos.

Neste capítulo, iremos abordar questões relativas ao layout, tamanho e forma dos viveiros consideradas pertinentes, com foco na padronização e uniformidade dos lotes de cultivo e que podem fazer a diferença entre o sucesso e o fracasso, ou melhor, entre o lucro e o prejuízo dos novos projetos.

Layout

Por definição, layout é compreendido como uma “forma” ou “formato” da área a ser construída. Trata-se, portanto, não apenas de um simples “desenho” da área, mas do planejamento do espaço físico com a finalidade de obter acessibilidade e facilitar as rotinas de produção com a espacialização das unidades produtivas, como viveiros, galpões, silos, alimentadores, redes de alta e baixa tensão e sua circulação durante o ciclo produtivo.

O planejamento do layout de uma piscicultura comercial visa assegurar a máxima utilização do espaço, além da diminuição dos locais de áreas obstruídas, aumento da eficiência da mão de obra, redução de custos de implantação, durabilidade da estrutura e contínua segurança do pessoal e da produção do pescado.

Desta forma, excluindo-se as particularidades pontuais de cada área, no layout de um empreendimento o profissional deverá atentar para pelo menos, 4 aspectos a serem observados:

1.Melhor aproveitamento da área

Parece óbvio em um empreendimento cujo objetivo é a maior produção de pescado, que quanto maior for a área em lâmina de água, maior será o lucro obtido. Entretanto, é relativamente comum encontrar projetos inexecutáveis, ou seja, projetos em que não é permitido a construção do que está proposto no papel devido as falhas no planejamento.

No emprego do layout planejado, rotineiramente são “esquecidos” os espaços para alimentação dos peixes, operações de despesca e manejo, angulação e inclinação dos taludes, inclinação e construção de canais de drenagem e abastecimento, lagoas de decantação, entre outras áreas que, por vezes, ficam limitadas sua expansão pelas áreas de preservação permanente ou de reserva, fazendo com que a proposta original do projeto seja alterada na implantação.

Conforme já mencionado, a padronização da unidade produtiva é fundamental, observado claro, as devidas particularidades. Neste sentido, quanto mais uniformes ou “iguais” forem os viveiros, melhor e mais fácil a sua operacionalização. Se todos os viveiros em uma unidade produtiva forem exatamente iguais em tamanho, formato e profundidade, excetuando-se alguma demanda específica da unidade de processamento de pescado, iguais também serão a densidade de estocagem, quantidade de alimentação diária, forma de manejo e controle sanitário.

Neste raciocínio, se todos os viveiros forem iguais em tamanho, densidade de estocagem e alimentação, a conversão alimentar teoricamente também será, assim como a calagem, profiláticos, controle da qualidade de água etc., desde que trabalhados com a mesma espécie. A padronização dos viveiros implicará na redução das falhas no processo produtivo, visto que o funcionário terá uma única rotina de tratamento e controle sanitário para todo o empreendimento, facilitando inclusive a visualização rápida de possíveis distorções ou queda de produtividade em ganho de peso ou conversão alimentar em algum viveiro, visto que na “teoria” todos eles serão iguais.

Evidente que o layout depende em primeiro lugar do tamanho e formato da área disponível para a implantação do projeto, pois cada área tem suas particularidades e cada projeto é singular. Dessa forma, independentemente do tamanho da área ser igual de uma propriedade para outra, nem todos os empreendimentos podem receber o mesmo tamanho de viveiro ou uma unidade considerada “padrão”, pois além do formato da área, os aspectos topográficos do relevo, o tipo de solo e a demanda hídrica, podem gerar algumas restrições relativas a construção e implantação do projeto, como por exemplo, tamanho dos viveiros e largura das taipas que devido a mecânica dos solos (compactação, resistência, coeficiente de percolação etc.) diferem em cada caso.

2. Aproveitamento da infraestrutura existente

Conforme comentado no artigo anterior, a simples transferência de uma rede elétrica para atender as necessidades do projeto planejado, dependendo do porte do empreendimento, podem custar de 5 a 20% do custo do total da obra.

Na concepção do layout de um empreendimento o profissional deverá atentar para a infraestrutura existente como estradas, redes de alta e baixa tensão, além da dinâmica do próprio terreno para instalações de silos, depósitos etc., evitando gastos desnecessários com movimentação de terra ou relocação de estruturas.
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©  Carlos Eduardo Zacarkim

3. As restrições ambientais

O licenciamento ambiental de novos empreendimentos que permitirão a instalação e construção dos viveiros e demais estruturas destinadas ao cultivo, podem ter a área disponível alteradas ou mesmo reduzidas devido a restrições do órgão legislador.

Estas limitações podem ser na forma de captação de água, como a impossibilidade de barramento para elevação do nível da água (alteração da cota de captação), acesso para instalação de bombas ou canais de derivação ou mesmo instalação e ampliação de lagoas de decantação obrigatórias em alguns estados. Árvores e bolsões de vegetação nativa mesmo que “isolados”, também podem impossibilitar a ampliação da área de cultivo ou mesmo alterá-la drasticamente.

Desta forma, no planejamento do layout o profissional deverá ater-se não só a área disponível para confecção do projeto, mas aos aspectos legais do mesmo, tomando como base o código florestal e demais portarias e instruções normativas vigentes no âmbito da aquicultura que podem mudar de acordo com cada estado.

4. Segurança

Em uma situação ideal e desejável esta não seria uma preocupação para novos empreendimentos, entretanto, não é a realidade. Unidades produtivas próximas a estradas principais ou secundárias ganham em logística, mobilidade e facilidade de acesso, mas perdem com os riscos de roubo e vandalismo. Não são raros os casos de furto de peixes cujo o acesso é facilitado por veículos de carga, visto que os peixes já estão treinados e mansos com a rotina de alimentação diária e a sua captura torna-se facilitada.

Neste caso, cercas e telas de proteção devem ser previstas na instalação do empreendimento, assim também é possível evitar a presença de possíveis predadores indesejáveis como jacarés, ratos de banhado, lontras e outros roedores.
  Tamanho e forma dos viveiros
 Conforme mencionado, em empreendimentos aquícolas dificilmente podemos replicar uma unidade produtiva considerada padrão ou modelo a ser seguido, visto as particularidades de topografia, solo e água mudarem de área para área, pois o custo de implantação seria elevado ou mesmo impraticável em alguns casos para reproduzir o mesmo projeto em outra área com características diferentes.

Neste sentido, compete ao profissional no planejamento do layout ajustar as características relevantes da unidade padrão, para a realidade da área a ser construída, observando as particularidades e as ajustando a luz da legislação vigente.

Mas então qual seria o tamanho ideal para viveiros em uma piscicultura comercial? Este certamente é um ponto de controvérsia entre os profissionais e que dificilmente gerará consenso, mas penso não ter um tamanho ou área ideal para viveiros comerciais.

A lógica na engenharia do processo é balizar os projetos primeiramente pela topografia e de forma secundária, mas não menos importante, pelas rotinas de alimentação e operacionalização.

Assim, a topográfica é a base do processo, pois considerando viveiros com uma mesma área, mas com formatos diferentes, como por exemplo 50m x 160m e 40m x 200m, podem gerar diferenças em movimentação de terra, dependendo do perfil e inclinação do terreno de até 100%, fazendo com que o custo da obra seja significativamente elevado. O criterioso estudo do terreno e o emprego dos cortes e seções com base no layout proposto são fundamentais para o bom profissional e a redução dos custos de implantação do projeto.

Desta forma, se a área não é padrão em viveiros comerciais, o formato pode ser variável, sendo norteado pelas rotinas de alimentação e operacionalização. Pela matemática pura e simples, quanto mais próximo do formato quadrado, menor será o perímetro do viveiro, portanto, menor o volume de terra necessário a ser movimentado. Viveiros menores geram maior movimentação de terra devido ao aumento no número de taipas e, consequentemente, tornam-se mais caros e com redução da lamina de água.

Neste sentido, a forma de alimentação empregada no projeto pode balizar o formato do viveiro. Se no empreendimento se planeja trabalhar com alimentadores automatizados, sejam instalados na tomada do trator ou flutuantes no viveiro, em geral o raio de lanço da ração é de 30 metros. Neste caso, de nada adianta construir um viveiro de 70 metros de largura, se o alcance da alimentação será de 60 metros. Se a alimentação não é uniforme no viveiro, dificilmente o crescimento também será. Logo, independente da área, viveiros muito largos não só dificultam a alimentação, como também o manejo e a despesca, visto que se a despesca for manual, demandará um o aumento no número de pessoas envolvidas. Em geral, equipes de despesca cobram entre R$ 0,10 a R$ 0,30 centavos por quilograma (kg) despescado, dependendo do número de pessoas envolvidas e o tempo necessário para tal tarefa.

Para uma piscicultura comercial o ideal é ter todos os viveiros iguais, independentemente do tamanho ou forma, mas caso a padronização de toda área não seja possível em virtude do formato da área da propriedade, deve-se ao menos, padronizar a largura dos viveiros. Se todos os viveiros possuírem a mesma largura, o mesmo número de pessoas na despesca e os mesmos equipamentos (tralhas/redes) serão utilizados. Isso reduz custo com equipes extras de despesca e facilita o manejo ao longo do cultivo (Figura 01).

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Figura 1. Projeto de viveiros para piscicultura comercial. ©  Carlos Eduardo Zacarkim

Desta forma, o emprego do layout pode ser planejado pelo objetivo a ser alcançado no empreendimento seja engorda, alevinagem ou misto, sendo norteado pela topografia e rotinas de operação como alimentação e despesca.

Para o próximo artigo, iremos abordar os aspectos construtivos em empreendimentos aquícolas, como movimentação de terra e sistemas de abastecimento e drenagem.