Principal Artigos Aquicultura ornamental de água doce – Parte III

Aquicultura ornamental de água doce – Parte III

Aquicultura ornamental de água doce – Parte III
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Dr. Leopoldo Melo Barreto
Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB)
leopoldo.barreto@ufrb.edu.br

Dr. Fabrício Menezes Ramos
Instituto Federal do Pará (IFPA)
fabricio.ramos@ifpa.edu.br

Nos dois primeiros artigos discutimos sobre o estado da arte da aquicultura ornamental de água doce, confrontamos a pesca e a aquicultura, pincelamos sobre legislação (Edição nº 8), falamos sobre as estruturas de cultivo utilizadas, as estratégias reprodutivas e um pouco sobre qualidade de água (Edição nº 9). Nessa última parte, iremos abordar sobre a alimentação na fase inicial das formas jovens (larvas/alevinos) de peixes ornamentais e apresentar algumas dicas sobre o crescimento chegando até o momento do transporte para comercialização.

Alimentação

“Alimentação é um fator muito importante na manutenção, reprodução e crescimento dos peixes ornamentais, uma vez que essa propicia, além do fornecimento energético, o incremento na coloração natural das espécies.”

Inicialmente podemos afirmar que a alimentação é um fator muito importante na manutenção, reprodução e crescimento dos peixes ornamentais, uma vez que essa propicia, além do fornecimento energético, o incremento na coloração natural das espécies. No entanto, às vezes passa despercebido que no ambiente natural esse alimento é “caçado” pelos peixes, mas que em ambiente confinado os peixes são inteiramente dependentes do fornecimento por parte do aquicultor, salvo quando o cultivo é praticado em sistema outdoor (ambiente aberto), o qual permite o florescimento planctônico natural. Na fase inicial, grande parte dos alevinos nascem com saco vitelínico, o qual garante energia na primeira etapa de vida. Logo em seguida, quando o alevino abre a boca pela primeira vez, já está apto a capturar alimento exógeno, porém em muitas espécies os órgãos dos sentidos são pouco desenvolvidos, possuindo um aparato bucal pequeno e apresentando natação reduzida. Fatores esses que dificultam a seleção, captura e busca do alimento exógeno. Assim, como afirmam Lopes, Senhorini e Soares (1994), a falta de alimento natural (alimento vivo) em quantidade e qualidade, bem como a ausência de uma alimentação industrializada (alimento inerte), adequada para substituir parte do alimento vivo, comprometem a produção final, inclusive na aquicultura ornamental.

Sobre alimentos vivos, há diferentes opções, sendo cultivados em separado e usando protocolos específicos, como por exemplo a Artemia salina (Artemia spp.), cladocéros como a Dáfnia (Daphnia spp.) e Moina (Moina spp.), rotíferos, paramecium (Paramecium caudatum) e enquitréias (Enchytraeus sp.). Cuidado a se tomar está relacionado ao tamanho do alimento vivo e o tamanho da boca do alevino, o qual devem ser condizentes. Precisamos também fornecer todos os nutrientes essenciais para o desenvolvimento dos alevinos, sendo importante lembrar que cada alimento tem uma composição específica, alguns sendo mais completos que outros, assim, exigindo que haja uma alternância dos alimentos ofertados, onde para espécies marinhas, por exemplo, pode-se proceder o enriquecimento prévio do alimento vivo, tornando-o mais eficiente em oferta única (ex.: artemia enriquecida com ácido graxo ou microalgas).

Por outro lado, alguns alevinos já aceitam o alimento inerte no primeiro momento de vida, na forma de pó. A ração, uma vez de qualidade, contém um balanço nutricional ideal para o crescimento e desenvolvimento do peixe, apenas não agradando àquelas espécies que são conhecidamente predadoras, optando por presas vivas, como o jacundá (Crenicichla spp.), trairão (Hoplias lacerdae), peixe folha (Monocirrhus polyacanthus), etc. Além do balanço nutricional, outros fatores devem ser levados em consideração, como a digestibilidade da ração, caso contrário, ocorrerá aumento da excreção e consequente piora na qualidade de água do ambiente de cultivo, causando perda de eficiência produtiva do empreendimento. Nesses casos entra a máxima o barato sai caro; investir em alimento de qualidade eleva o potencial produtivo de matrizes, tanto por dispor de maior vitalidade e energia, como acelerando o crescimento dos alevinos, aptos à venda em menor tempo, além de apresentarem, ao final, melhores características zootécnicas.

Em casos de má alimentação, sinais clínicos de desbalanço nutricional podem ser observados, como deformidades da coluna vertebral, nadadeiras e opérculos, e opacidade dos olhos. Ainda assim, dispondo-se de uma ração de qualidade, devemos observar que:

  • Embalagens transparentes, permitindo a incidência de raios solares, influencia no teor vitamínico da ração, reduzindo-o;
  • A umidade prejudica a qualidade da ração, não devendo ser manuseada com mão úmida ou o uso de embalagens que não vedem bem o frasco;
  • Rações floculadas, guardadas em grandes quantidades, maceram (esmagam) os flocos que ficam na parte inferior, diminuindo a eficiência de acordo com o tamanho do peixe.

Por fim, recomenda-se dividir o fornecimento da ração em diferentes momentos, não espaçando muito entre cada alimentação, por exemplo, fornecendo-se seis vezes ao dia para as fases iniciais de engorda e, ao final, duas vezes ao dia, considerando-se a biomassa estocada. Com o crescimento dos alevinos, aumenta-se gradativamente o grânulo da ração, até o momento da venda.

Destacamos que o crescimento das espécies está não só relacionado ao fornecimento de alimento, mas também à qualidade de água e ao espaço disponível. Para além, outros fatores podem influenciar também, como a temperatura da água (quanto maior, mais célere é o crescimento, respeitando o limite para a espécie) e a frequência das trocas parciais de água (no caso do Acará disco Symphysodon spp. é essencial devido a um hormônio inibidor de crescimento secretado pelos alevinos).

Comercialização

“Em quanto tempo já posso comercializar os alevinos?”

Essa pergunta não tem única resposta, pois há espécimes que em 60 dias já estão aptas à venda (mesmo com menor valor de mercado devido ao tamanho), enquanto outros requerem, no mínimo, 6 meses de vida para garantirem um valor razoável no mercado. Vale destacar que diferentemente da atividade de aquicultura de corte, que visa um crescimento rápido e maior quantidade de carne, na ornamental os animais são selecionados para apresentar um padrão diferenciado, de cores e nadadeiras (Figura 1), por exemplo, desta forma primando-se pela qualidade dos fenótipos, uma vez que os animais são vendidos por unidade e não por peso; fator também desejado é aumentar a sobrevivência no cultivo, refletindo em maior lucro por área de produção.

 

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Figura 1. Exemplares de Guppy (Poecilia reticulata), aptos para venda © Hristo Hristov

“O comércio de peixes ornamentais no Brasil é uma atividade em franco crescimento, ocupando em 2015 o terceiro lugar do mercado mundial, atrás apenas dos Estados Unidos e Reino Unido, segundo a Associação Brasileira da Indústria de Produtos para Animais de Estimação (ABINPET).”

Conforme Farias et al. (2016), a comercialização é dividida em mercado externo, importação e mercado interno. O mercado externo abrange animais capturados da natureza, exportados principalmente pelos estados do Amazonas e Pará (peixe de água doce), e Ceará (peixes marinhos), sendo necessário desenvolver novas variedades para manter-se competitivo no mercado mundial. Por outro lado a importação é um mercado pequeno, porém em crescimento, sendo necessário aos futuros empreendedores registrar um quarentenário nos diversos órgãos de Meio Ambiente e de Sanidade Agropecuária. Para atuar no mercado interno como produtor, já comentamos na primeira parte (Edição nº 8) algumas necessidades legais, acrescentando-se aqui a necessidade de, na Agência Nacional de Águas (ANA), solicitar a outorga do uso da água da União caso utilizem-se rios e poços, caso desnecessário se a aquicultura usar apenas água de abastecimento público, onde será pago mensalmente pelo consumo.

Já para atuar no mercado interno como lojista, o empreendedor precisa, além dos documentos comuns a qualquer comércio, obter:

  1. Licença de Empresa que Comercializa Organismos Aquáticos Vivos, no MAPA;
  2. Inscrição no Cadastro Técnico Federal;
  3. Licenciamento Ambiental no órgão estadual ou municipal, caso necessário.

 

Transporte

O transporte é um fator que deve ser considerado como elo final, uma vez que as espécimes devem chegar ao mercado com extrema qualidade, assim garantindo também a venda por parte do lojista ao consumidor final. Para tal, deve-se atentar à densidade de estocagem em cada saco plástico, respeitar a proporção de 1/3 de água e 2/3 de oxigênio (Figura 2), além de garantir a temperatura ideal durante o transporte, às vezes até se valendo de caixas de isopor para tal. Desse modo os peixes chegarão com a mesma qualidade a qual foram produzidos.

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Figura 2. Peixes ornamentais embalados, aguardando o transporte.

Oba, Mariano e Santos (2009) reportaram que o sucesso de qualquer atividade relacionada à aquisição e transporte de matrizes e formas jovens, está na compreensão dos conhecimentos básicos da fisiologia do estresse e das alterações ambientais a que esses animais estão submetidos, identificando as condições adversas, então, desenvolve-se métodos que suavizem os seus efeitos na saúde dos animais. Há algumas sugestões prévias ao transporte, como impor um jejum (24h) aos peixes, minimizar o estresse na captura e, inclusive, utilizar profiláticos e/ou anestésicos durante o transporte, a depender das espécies, tempo de transporte e exigência do comprador, completando-se assim a etapa com capricho.

Conclusão

Deixamos em aberto a conclusão desse artigo, sabendo que a precisão da aquicultura ornamental requer continuamente estudos e pesquisas, a fim de melhor desenvolver o setor. Já galgamos diversos avanços, alguns aqui relatados, mas outros tantos existem para serem melhorados e potencializados, seja por meio de tecnologias, seja por meio de conhecimento aplicado, parte desse advindo da academia, outra parte advinda de produtores e aquaristas profissionais. Portanto aqui findamos esta série de três artigos, confessadamente curtos para tamanha necessidade de informação que os aquicultores ornamentais desejam, mas colocando-nos completamente disponíveis para sanar futuras dúvidas, gerar parcerias e contribuir com o crescimento da aquicultura ornamental de água doce.

Referências Bibliograficas

FARIAS, P. M. C.; RIBEIRO, K.; ALMEIDA, C. F.; SANTOS, F. W. M.; RUDÃ, F. B. S. 2017. A legislação brasileira para o mercado de organismos aquáticos ornamentais, v. 26, n.155, p. 25-32, 2016.
LOPES, R. N. M.; SENHORINI, J. A.; SOARES, M. C. F. 1994. Crescimento e sobrevivência de larvas de matrinxã Brycon cephalus Gunther, 1869, (Pisces, Characidae) sob diferentes dietas alimentares. Boletim Técnico do CEPTA, 7:41-48.
OBA, E. T.; MARIANO, W. dos S.; SANTOS, L. R. B. dos. 2009. Estresse em  peixes  cultivados:  agravantes  e  atenuantes  para  o  manejo  rentável. In: TAVARES-DIAS, M. (Org.). Manejo e sanidade de  peixes em cultivo. Macapá: Embrapa Amapá. p.226-247