Principal Artigos O açude Castanhão e a cadeia produtiva da tilápia

O açude Castanhão e a cadeia produtiva da tilápia

O açude Castanhão e a cadeia produtiva da tilápia
0

Profa. Dra. Elenise Gonçalves de Oliveira
Departamento de Engenharia de Pesca Universidade Federal do Ceará (UFC)
elenisego@yahoo.com.br

Prof. Dr. Sergio Alberto Apolinario Almeida
Curso de Engenharia de Aquicultura
Instituto Federal do Ceará, Campus de Morada Nova
sergio.alberto@ifce.edu.br

O açude Padre Cícero, conhecido pelo nome de açude Castanhão, teve a sua construção iniciada em 1995 e concluída em 2003, com a finalidade precípua de drenar as águas da bacia hidrográfica do Médio Jaguaribe/CE e receber as águas da transposição do Rio São Francisco. O Castanhão, cujo complexo é administrado pelo Departamento Nacional de Obras Contra as Secas (DNOCS), é apontado como o maior açude para usos múltiplos da América Latina, estando à aquicultura entre as finalidades para ele projetadas.

O Castanhão possui uma bacia hidráulica de 44.800 km², vindo sua barragem a ser construída no leito do principal rio do Ceará, o Rio Jaguaribe. Em junho de 2004 o açude já acumulava 4,99 bilhões de m3 de água (74,58% de sua capacidade). Em 2008 o açude registrou o seu segundo maior volume (6,01 bilhões de m3 = 89,73% de sua capacidade) e em maio de 2009, o maior (6,55 bilhões de m3 = 97,82 % de sua capacidade).

Implantação dos primeiros projetos de piscicultura

Enquanto os primeiros projetos aquícolas do Castanhão se instalavam (Estação de Piscicultura Rui Simões de Menezes – DNOCS; o projeto Curupati-Peixe de iniciativa da Secretaria Especial de Aquicultura e Pesca da Presidência da República – SEAP/ PR; e o projeto Piscicultura Castanhão, de iniciativa do SEBRAE), a piscicultura cearense se consolidava em outras localidades do Polo de Produção Aquícola do Médio Jaguaribe e nos demais Polos de Produção (Alto Jaguaribe; Baixo Jaguaribe; Curu; Região Metropolitana e Região Norte). Em todos os Polos, a produção tinha como foco a tilápia do Nilo (Oreochromis niloticus), linhagem chitralada.

Em 2013 a Agência Nacional de Águas (ANA), outorgou ao Ministério da Pesca e Aquicultura (MPA – hoje extinto), as áreas de três parques aquícolas (Alto Santo, Jaguaribara e Jaguaribe/Jaguaretama), estabelecendo uma capacidade de suporte de 10.800 t de peixes/ano, e uma carga diária de ração da ordem de 47.342,5 kg de ração.

Os produtores de tilápia em tanques-redes, escolhidos por meio de processos licitatórios com vigência de 5 anos, foram subdivididos em duas categorias: não onerosa (674 lotes, sendo 337 para o parque aquícola de Jaguaribara, 199 em Alto Santo e 138 em Jaguaribe/Jaguaretama) – concedida a produtores locais, sem aporte de recursos; e o restante de forma onerosa – concedida a empresários, os quais obrigam-se a pagar pelo uso da água.

o-acude-castanhao-e-cadeia-produtiva-da-tilapia

Migração de produtores e mudanças

Na metade da década atual (2013-2014), houve grande expansão da tilapicultura no açude Castanhão, expansão essa que pode ser atribuída à redução do volume de água dos demais reservatórios do Ceará, maioria dos Polos Aquícolas do Estado. Assim, para não paralisar as atividades, os piscicultores migraram para o Castanhão, se instalando em fazendas com “base terrestre”, para atender as demandas de alevinos, e com “base aquática”, para realizar a recria e terminação (engorda) em tanques-rede.

O influxo de produtores fortaleceu a cadeia produtiva da tilápia no Castanhão, mas exigiu do setor o enfrentamento de grandes desafios, dentre os quais podem ser citados: implantação de estradas, energia elétrica, galpões, residências e laboratórios; convivência com a falta de saneamento básico no local; readequação das instalações de cultivo, substituindo os tanques-redes de pequeno volume (6 a 9 m3 ), pelos de médio e grande volume (15 a mais de 150 m3 ); construção de plataformas flutuantes para suportar operações de estocagem, classificação, repicagem, vacinação e despesca de grandes volumes de peixes; atração de fornecedores de insumos e serviços para a região; mortalidades repentinas e de forma massiva dos peixes cultivados.

“O influxo de produtores fortaleceu a cadeia produtiva da tilápia no Castanhão, mas exigiu do setor o enfrentamento de grandes desafios.”

Profissionalização do setor

Não obstante aos desafios enfrentados, em 10 anos de atividade o setor piscícola do Castanhão investiu em capacitação, incorporou tecnologias inovadoras, adquiriu novas linhagens genéticas de tilápia (Chitralada, GIFT, SUPREME e Spring) e desenvolveu protocolos alimentares mais eficientes, utilizando ração com melhor balanço nutricional. Também passou a monitorar de forma sistemática o oxigênio dissolvido e temperatura da água, adotou programas de imunização dos peixes e de aproveitamento de resíduos sólidos e o uso de softwares para o gerenciamento da produção. Isso contribuiu para a melhoria de índices zootécnicos e econômicos, de forma que em condições de normalidade é possível obter taxas de sobrevivência entre 82 a mais de 95%; produção que pode superar 50 kg/m3 ; conversão alimentar entre 1,4 e 1,8:1; duração do ciclo de cultivo de 140 a 220 dias, para tilápia com peso médio final de 1,0 kg, com rendimento acima de 70% para peixes dessa classe de peso; e lucratividade de R$ 0,50 a 1,00 por kg de peixe produzido.

Graças a isso, Jaguaribara entrou nas estatísticas como o município com a segunda maior produção de peixes no Brasil, por três anos consecutivos (2014=16,92 mil toneladas; 2015=13,80 mil toneladas; 2016=17,36 mil toneladas), produção essa absorvida, na maior parte, pelos mercados da grande Fortaleza e região metropolitana, com destaque para o mercado do Carlito Pamplona, redes de supermercados e comércio varejista.

Jaguaribara: Terra da tilápia!

Jaguaribara, município sede do açude Castanhão, conta com uma população de pouco mais de 10.000 habitantes, sendo que a cadeia produtiva da tilapicultura envolve direta e indiretamente cerca de 2.000 pessoas, cerca de 80 empreendimentos entre pequeno e médio porte e centenas de produtores não onerosos, organizados em associações ou produzindo de forma individualizada. Além disso, a cadeia produtiva da tilápia envolve: 12 associações de piscicultores, 01 cooperativa de produtores de tilápia, cerca de 80 produtores privados não associados; 08 empresas produtoras de alevinos de tilápia, 02 unidades de pequeno porte para beneficiamento do pescado, 02 fábricas de gelo, 03 metalúrgicas fabricantes de tanques-rede e equipamentos diversos para auxiliar a produção, 08 empresas que trabalham com a revenda de ração e 01 empresa especializada no recolhimento de resíduos e transformação em óleo de peixe a partir das vísceras do pescado abatido. Importante destacar que todos os empreendimentos mantêm pelo menos um profissional com Graduação na área de conhecimento das Ciências Agrárias, e alguns dos empreendimentos mantem parcerias com instituições de ensino e pesquisa, recebendo alunos em programas de estágios e de pesquisas.

o-acude-castanhao-e-cadeia-produtiva-da-tilapia

Início dos problemas

As características do açude, com períodos de ausência de ventos, dias nublados, entrada de água nova, temperaturas elevadas (acima dos 30°C) e ocasionais mudanças da qualidade da água, além de manejo inadequado de comportas do açude, são apontadas como os principais responsáveis por mortalidades repentinas de peixes. Esse fato se agravou nos últimos anos, em função da redução drástica do volume de água do açude (31/12/2011 = 73,62%; 15/11/2017 = 2,92% da capacidade de armazenamento).

Em 2015, o setor registrou uma mortalidade de aproximadamente 2.500 toneladas de peixes, o que suspendeu a atividade em várias fazendas e levou alguns produtores a transferirem suas atividades para reservatórios dos vizinhos Estados da Paraíba, Piauí, Pernambuco e Bahia.

A espera das chuvas…

Em 2017 os tilapicultores do Castanhão entraram em compasso de espera para colocar o Ceará de volta ao ranking dos maiores produtores de peixes do Brasil. Para isso aguardam as águas da transposição do Rio São Francisco (a previsão inicial era para 2012 e a atual é para 2018), uma vez que são cada vez menores as expectativas de recuperar o nível das águas do açude com as poucas chuvas de 2017.

Enquanto aguardam a recuperação do nível do açude, os tilapicultores vem buscando tecnologias que diminuam o consumo de água (sistemas de recirculação de água – RAS; Bioflocos – BFT; cultivos integrados – Aquaponia, etc). Outra medida importante diz respeito à realização de estudos técnicos para um reordenamento dos parques aquícolas e o estabelecimento de novas diretrizes para o setor. Essa medida envolve uma parceria entre o DNOCS (órgão que gerencia o Castanhão), o setor produtivo e os profissionais da iniciativa privada e do setor público.

o-acude-castanhao-e-cadeia-produtiva-da-tilapia