Principal Entrevistas Geraldo Bernardino – Engenheiro de Pesca
0

Geraldo Bernardino – Engenheiro de Pesca

Geraldo Bernardino – Engenheiro de Pesca
0

O entrevistado da 9ª edição já percorreu uma longa jornada no setor aquícola brasileiro e recebeu, no ano de 2016, o título de cidadão do Amazonas, fruto de seus 15 anos de trabalho como Secretário Executivo Adjunto de Pesca e Aquicultura do Estado.

AQUACULTURE BRASIL: Geraldo, você é natural da Paraíba e formou-se em Engenharia de Pesca pela Universidade Federal do Ceará (UFC), em 1976, tornando-se, mais tarde, mestre em Ecologia e Recursos Naturais pela UFSCar. Conte-nos um pouco sobre estes mais de 40 anos de carreira profissional.

Bernardino: Comecei no Pantanal Mato-grossense, em 1977, trabalhando como pesquisador no Centro de Pesquisa do Pantanal Mato-grossense (Cepimam/ Sudepe), na área de biologia pesqueira e dinâmica de populações. Fiquei um certo tempo nesta Instituição e depois comecei a trabalhar especificamente com o pacu (Piaractus mesopotamicus), indo para São Paulo, onde atuei desde técnico da parte de manejo, até chegar ao cargo de Diretor do CEPTA (Centro Nacional de Pesquisa de Peixes Tropicais). Além disso, já fui coordenador de ensino do Centro Regional Latino-americano de Aquicultura – CERLA/FAO/SUDEPE (1981-1984), presidi a Associação Brasileira de Aquicultura – ABRAq (1992- 1999) e tive a oportunidade de ser Coordenador Nacional de Aquicultura do Ministério da Agricultura – DPA/ MAPA (1999 e 2001), logo depois que saí de São Paulo. Na sequência, em 2003, mudei-me para Manaus, onde prontamente fui nomeado como Secretário Executivo de Pesca e Aquicultura, cargo que ocupo até hoje. A Secretaria trabalha não somente na área de aquicultura, mas também em parcerias com os profissionais da ciência e tecnologia, auxiliando no desenvolvimento de projetos de pesquisa e extensão em geral.

“Há muitos projetos de pesquisas que não chegam a conclusões que possam ser utilizadas pelo setor produtivo.”

AQUACULTURE BRASIL: A aquicultura sempre esteve presente em sua vida. Numa entrevista para a AQUABIO no ano de 2012 você apontou que para a aquicultura brasileira crescer era necessário superar limitações e dificuldades gerais do setor, tais como: pouca integração e gerenciamento de cadeias de produção, escalas de produção inadequadas, carga fiscal elevada, entre outras. O que mudou de lá para cá? O que conseguimos superar e o que ainda nos limita?

Bernardino: Nós tivemos uma melhora na aquicultura, principalmente nos cultivos em águas interiores, com a tilápia e as espécies nativas (peixes redondos). Entretanto, o setor ainda carece de uma equipe multidisciplinar que trabalhe dentro de ações específicas, possibilitando que seja dado um salto qualitativo e bem substanciado. Existem muitas novas tecnologias, porém, existe muito modismo em relação a isso, e muitos projetos de pesquisas que não chegam a conclusões que possam ser utilizadas pelo setor produtivo. E nós precisamos é disso! Por exemplo, recentemente estamos com um problema seríssimo que é a sanidade. Entretanto, estamos discutindo isto de uma maneira muito superficial. Temos que convocar a academia, institutos de pesquisa, Embrapa, e dizer: “- É isso que precisamos!”. Sanidade é um problema seríssimo. Um exemplo é o que vem ocorrendo com o camarão marinho e também a tilápia, tem muito vírus e parasitos no ambiente que estão comprometendo as produções desses organismos e em uma questão de tempo pode acontecer o mesmo com as espécies nativas. Mas a piscicultura cresceu, tivemos saltos de qualidade em toda a cadeia produtiva, incluindo o mercado e a comercialização. Outro aspecto importante é na área de qualificação profissional, com cursos profissionalizantes, formação de recursos humanos, o que é fundamental para o desenvolvimento da aquicultura brasileira.

AQUACULTURE BRASIL: Recentemente (2016) uma legislação que permitia o cultivo de peixes não nativos nos rios do Estado do Amazonas foi publicada e logo depois acabou sendo revogada, sob apelo de instituições ambientais. Em sua opinião, valeria a pena arriscar a introdução de uma espécie não nativa nestes locais? Ou as espécies da aquicultura nacional tem potencial para alavancar a produção do Amazonas?

Bernardino: A tilápia foi introduzida há muito tempo no Brasil e também no Amazonas. Porém não de forma oficial, mas desde a década de 70 já existe tilápia no Amazonas. Mas pensando em uma introdução nos dias atuais, previamente devemos analisar algumas perguntas que são chaves antes de tomar tal decisão. A primeira é sobre a questão econômica: “Ela vai aumentar o mercado?”, “Vai gerar emprego e renda para as famílias da região onde se está introduzindo a espécie?” a segunda pergunta é uma questão estratégica: “O que ela pode causar no ambiente natural?”, “Quais as doenças que ela pode trazer àquele ambiente?” Estas questões são interessantes de serem discutidas. Precisamos ter pesquisas visando a estas respostas e não sair introduzindo a espécie de qualquer modo. Por mais que exista uma tecnologia de produção definida para a tilápia, será que esta tecnologia vai adaptar-se perfeitamente ao Amazonas, uma região com suas particularidades e peculiaridades? E hoje a tilápia está com problemas seríssimos de doenças, problemas com vírus, parasitas, etc. Antes de ser introduzida, temos que provocar uma discussão abrangente, com a participação dos órgãos de controle, para saber realmente o perigo das introduções. Outra espécie que está se introduzindo no Brasil é o panga. Assim, daqui há uns anos não teremos uma aquicultura comercial, com espécies selecionadas, mas sim, vamos acabar nos transformando em uma aquicultura de modismo. Devemos pensar antes, fazer trabalhos de observação, ter a certeza de que a espécie vai trazer emprego e renda para quem optar por cultivá-la, e depois se discutir a introdução, com os impactos sociais, econômicos e ambientais bem estudados. A bacia amazônica é o maior banco genético que temos, com a maior biodiversidade de águas interiores do mundo. Dessa forma, é interessante pensar estes vários aspectos antes de introduzir uma determinada espécie exótica.

geraldo-bernardino

AQUACULTURE BRASIL: Os planos de manejo para a captura do pirarucu, que já esteve ameaçado de extinção, foram um sucesso no Amazonas, resultando em um aumento considerável da produção. Neste sentido, quais os esforços que estão sendo feitos para alavancar também o cultivo desta espécie?

Bernardino: O plano de manejo de fato deu muito certo e hoje é um sucesso. Saímos de uma captura de mil indivíduos para sessenta e cinco mil indivíduos. Quanto ao cultivo, é um peixe de grande interesse. Entretanto, como qualquer peixe, para começarmos a cultivá-lo é necessária uma série de estudos visando dar sustentação técnica à produção. Já iniciamos estudos do cultivo desta espécie não só em tanque-rede, como também em viveiros e raceways. E os resultados são positivos, apontando para uma alta biomassa produzida, com dados zootécnicos excelentes. Mas quando se refere à questão nutricional, esta ainda é um problema. A ração para peixe carnívoro ainda é muito cara e a conversão alimentar é alta, em torno de 1,8 a 2,3:1. Portanto, cultivar o pirarucu ainda não é um grande negócio. Temos que estudar mais, buscar aprimorar as técnicas de manejo, estudar a capacidade de suporte para cada sistema de produção, identificar as rações para as diferentes fases de cultivo, e então, com base na tecnologia, poderemos propagar o cultivo da espécie, que tem muito potencial, uma vez que em um ano o pirarucu pode chegar a 10 quilos.

AQUACULTURE BRASIL: O segredo para aumentar a produção nacional está em apostar nas diferentes espécies ou estaria na hora de focarmos mais em poucas espécies?

Bernardino: Temos que organizar melhor a piscicultura. Começando a organizar politicamente. A piscicultura como qualquer outra atividade zootécnica tem que ter uma “casa” onde se pode reclamar os aspectos políticos da atividade, principalmente com relação a mercado e formação de recursos humanos e pesquisas. Nós temos que fortalecer e brigar para que a Secretaria Especial de Aquicultura e Pesca se encontre em um órgão que possa fortalecer isso. O segundo ponto é exatamente focar em cima de espécies com tecnologia padronizada e bem definida. Neste ponto não adianta vulgarizar. Os chineses trabalham com poucas espécies, cerca de quatro, os americanos trabalham com uma espécie de água doce, o catfish, o chileno com uma espécie, o salmão. Nós não podemos ser um zoológico de peixes, trabalhando com espécies que não vão nos levar a nada. Temos que trabalhar com as espécies através de grupo formado, gerando tecnologia de acordo com as condições de cada região, evitando exatamente copiar as cartilhas prontas que muitas vezes não dão certo no Brasil.

Nós não podemos ser um zoológico de peixes, trabalhando com espécies que não vão nos levar a nada.”

AQUACULTURE BRASIL: Quais as tendências e desafios para a produção de peixes nativos?

Bernardino: Temos que ter especificidade, trabalhar com poucas espécies. Eu acredito que o Piaractus mesopotamicus (pacu) e o Colossoma macropomum (tambaqui) são duas espécies que vão se desenvolver muito no Brasil. O segundo ponto é ter investimento pós captura, com produtos diferenciados e com valor agregado, e não vender somente o peixe inteiro. Dessa forma é possível ter mercado tanto para o peixe pequeno quanto para o grande, tendo como subprodutos os embutidos, triturados, defumados, etc, o que pode dar uma diferença. O terceiro aspecto é deter tecnologia para reprodução induzida, tendo assim disponibilidade de alevinos o ano todo, e consequentemente a tendência da produção é aumentar. E por fim, a ração. A ração representa hoje o maior custo de uma produção, devendo ser muito bem estudada para todas as fases. Feito isso, daremos um salto no cultivo das espécies nativas. A perspectiva do mercado tanto interno quanto externo é muito grande. Outros países já produzem as nossas espécies nativas. Se demorarmos muito a gerar tecnologia e alavancar a produção, esse mercado vai ser preenchido por outros países. Assim como já ocorre com nossos peixes ornamentais.

AQUACULTURE BRASIL: O cooperativismo foi um modelo que deu muito certo no estado do Paraná, hoje um dos maiores produtores de peixe do país. Caberia o modelo do cooperativismo na região Norte?

 Bernardino: O cooperativismo dá certo em todo o canto. Porém existem cooperativas e cooperativas. Primeiramente temos que ter uma associação muito bem direcionada, com as regras “de jogo” muito bem definidas, para deixar de ser apenas uma forma de agregar pessoas, mas tendo sempre como foco a produção. Assim, quando você tem um grupo de pessoas, empresários e produtores, de forma organizada e bem definida, englobando a parte de insumos, sistema de produção e processamento, a cooperativa com certeza vai dar certo. Porque nesse sentido, ela tem um objetivo maior, que é diminuir os custos de produção e aumentar os lucros do pescado.

geraldo-bernardino

AQUACULTURE BRASIL: Finalizando, como você vê o retorno da SEAP – Secretaria Especial de Aquicultura e Pesca?

Bernardino: A princípio me preocupa muito. Principalmente pelo modo como ela está sendo reestruturada, levando em consideração o interesse de alguns políticos e não do setor aquícola e pesqueiro. E esse interesse político ligado a questões do seguro defeso, por exemplo, ao invés de objetivar fazer a política nacional da pesca, o desenvolvimento das áreas pesqueiras, o investimento em recursos humanos, discussões sobre os grandes problemas políticos e econômicos do setor, entre outros aspectos, é o que me preocupa. Ou nós temos uma SEAP que leve em consideração que o Brasil tem um dos maiores potenciais do mundo para a piscicultura, porque tem uma grande disponibilidade de matéria prima, que é a água, mas que precisa ter políticas para poder ter ração, tecnologia e ter comércio, ou então vamos ficar nos programas de parques aquícolas que até então não levaram a nada.

AQUACULTURE BRASIL: Uma mensagem, para finalizar…

Bernardino: O setor pesqueiro e aquícola vem crescendo e tem um futuro interessante no Brasil. Não só através dos interesses a nível nacional, mas a nível internacional. Nós teremos ainda grandes empresas e grandes projetos internacionais no país. O importante é que o setor cresça com a certeza que vai contribuir ao desenvolvimento do país, gerando emprego e renda.