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Tanques-rede de grande volume – Nova fronteira da piscicultura brasileira

Tanques-rede de grande volume – Nova fronteira da piscicultura brasileira
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Francisco das Chagas Medeiros
Diretor Presidente da Associação Brasileira de Piscicultura (Peixe BR)
Sócio-Proprietário da Empresa Manso Aquicultura
peixando@gmail.com

Tanques-rede ou gaiolas, como também são chamados, são estruturas flutuantes utilizadas para criação de peixes em altas densidades. Podem ser tanques pequenos ou de grandes volumes e tem sido um dos sistemas de produção que mais cresce no mundo. Possui algumas vantagens quando comparado ao sistema tradicional, como a alta produtividade, melhor gerenciamento e controle, baixo custo de implantação, facilidade na despesca com pouca mão de obra e o fato de serem técnica e economicamente viáveis em praticamente qualquer escala.

Os primeiros trabalhos com criação de peixes em tanques-rede no Brasil chegaram através de uma publicação da Associação dos Produtores de Soja dos Estados Unidos (ASA), por volta de 1997. Na época, esses relatos preconizavam a criação de peixes em tanques-rede de pequeno volume (1m x 1m) e alta densidade (PVAD). Muitos produtores e alguns pesquisadores nacionais acreditaram por alguns anos que essa era, de fato, a melhor maneira para criar peixe em tanques-rede, resultando no que temos hoje, praticamente 99% dos peixes de água doce produzidos no Brasil são cultivados nestas pequenas gaiolas, geralmente com volumes de 8m³ (2m x 2m x 2m) ou pouco mais que isso.

“existe ‘vida’ além dos pequenos tanques-rede.”

Mudança de paradigmas

Com a participação da internet na vida das pessoas, não só nos computadores, mas recentemente também de fácil acesso através dos celulares smartphones, foi possível perceber que existe “vida” além dos pequenos tanques-rede. Em um primeiro momento desta descoberta foi perceptível que os produtores procuravam motivos, e por incrível que pareça encontravam, para justificar a utilização dos pequenos tanques-rede.

Entretanto, nos últimos seis anos houve grande participação de produtores brasileiros na feira AquaSur, uma das maiores feiras de aquicultura do Hemisfério Sul, que ocorre a cada dois anos no Chile. Neste grande evento internacional os piscicultores do Brasil tiveram os primeiros contatos com os tanques-rede de grande volume, amplamente utilizados na salmonicultura e no cultivo de outros peixes de importância comercial. Porém não foi o suficiente para uma mudança que os levasse a experimentar um novo modelo de produção.

Neste meio tempo houve a ocorrência do mexilhão dourado (Limnoperna fortunei), principalmente nos estados de São Paulo e Paraná, onde se concentra grande parte da produção nacional de peixes em tanques-rede. Com a necessidade de retirar as gaiolas para limpeza das telas, uma vez que tal incrustação dificulta a circulação de água dentro destas estruturas, resultando na queda dos parâmetros de qualidade de água e assim aumento do nível de estresse dos animais cultivados, ficava definitivamente mais difícil a quebra de paradigma e implantação das gaiolas de grande volume.

Contudo, na mesma época, houve um grande avanço principalmente com a adoção dos tanques-rede de dimensões 6m x 6m, que não são de grandes volumes, mas o fato indicava uma mudança no ponto de vista produtivo.

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Surgem os primeiros projetos no Brasil

O conceito de tanque-rede de grandes volumes persistiu e os primeiros projetos começaram a aparecer. Tanques-rede circulares de PEAD (polietileno de alta densidade), com 20 metros de diâmetro e os tanques metálicos com dimensões de 20 m x 20 m, e volumes que variam de 1.400 a 2.000 m³, já foram implementados em algumas regiões do Brasil. Atualmente esses tanques são utilizados para produção tanto de tilápia, quanto de peixes nativos como pintado, tambaqui e matrinxã ou híbridos como a tambatinga (cruzamento da fêmea de tambaqui com macho de pirapitinga).

O passo inicial foi dado e este é um processo irreversível. O Brasil deverá caminhar como as principais pisciculturas mundiais, aumentando gradativamente as escalas de produção e melhorando a competitividade, o que significa principalmente, redução de custos. Aliás é isso que atualmente torna o Brasil competitivo no agronegócio mundial.

Desse modo, a piscicultura brasileira terá até o final de 2020 uma mudança substancial no modelo de produção, pois não adianta somente ter um tanque-rede de grande volume, é necessário máquinas de despescas, de seleção, alimentação mecanizada e principalmente frigoríficos com maiores volumes diários de abate, e isso também já vem ocorrendo.

Conclusões

Houve uma mudança muito rápida do negócio de criação de peixes em tanques-rede e pela experiência já observada nas demais cadeias de proteína animal, o modelo brasileiro estará mais próximo da tecnologia do Chile do que do modelo asiático.

Existe atualmente uma demanda reprimida de cessão de Águas da União para uma produção da ordem de 3 milhões de toneladas, segundo levantamento da Associação Brasileira de Piscicultura, o que torna praticamente impossível implantar uma produção desta monta com tanques-rede de pequenos volumes. A competitividade poderia ser perdida em função da grande demanda de mão de obra exigida nesta situação e esta é talvez, uma das grandes vantagens dos tanques-rede de grandes volumes.

O crescimento da produção traz consigo a mesma ordem de grandeza para os equipamentos. Os tanques rede de grande volume são um futuro que já está entre nós.

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