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O dia a dia da compostagem orgânica – Manejo, relação C/N e aplicação

O dia a dia da compostagem orgânica – Manejo, relação C/N e aplicação
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Me. Ivã Guidini Lopes
Laboratório de Compostagem
Centro de Aquicultura da Unesp (CAUNESP)
ivanguid@gmail.com
 
Dra. Rose Meire Vidotti
Polo Regional Centro Norte
Agência Paulista de Tecnologia dos Agronegócios
 
Profa. Dra. Mara Cristina Pessôa da Cruz
Laboratório de Fertilidade do Solo
Faculdade de Ciências Agrárias e Veterinárias (FCAV/UNESP)

 Minimizar impactos ambientais, aumentar o caráter sustentável da produção aquícola e possibilitar o incremento da geração de renda com um novo produto. Esses são apenas alguns dos múltiplos benefícios da adoção da compostagem orgânica em empreendimentos aquícolas, sejam eles piscicultura (alevinagem e engorda), frigorífico ou mesmo centros de pesquisas na área. O fato é que não podemos mais ser negligentes com os resíduos que geramos, pois mesmo quando o impacto não é visível prontamente, é certo que cedo ou tarde ele será sentido por todos.

Por ser um método de baixo custo e de fácil implementação, além de se adequar a praticamente todos os resíduos sólidos gerados na cadeia, a compostagem orgânica vem ganhando importância e maior visibilidade entre aquicultores, os quais, em sua maioria, não costumam incluir em seus projetos iniciais a gestão dos resíduos. A falta de planejamento leva os produtores a iniciarem o projeto de gestão de resíduos com certa desconfiança e desânimo, pois estes, de imediato, podem pensar apenas nos gastos e nas horas de dedicação ao processo que serão subtraídas das atividades consideradas principais. No entanto, a gestão dos resíduos gerados em qualquer produção animal possui tanta importância quanto qualquer outra atividade típica do empreendimento e deve ser realizada da forma mais adequada e consciente possível.

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Materiais utilizados e relação C:N

Os resíduos de animais aquáticos variam significativamente de acordo com o tipo de empreendimento e incluem, de modo geral, carcaças de peixes mortos naturalmente em pisciculturas, resíduos do processamento de diferentes organismos ou mesmo carcaças oriundas de pesquisas científicas (Vidotti e Lopes, 2016). Esses resíduos podem ser destinados à compostagem da maneira como são gerados (p. ex. carcaças inteiras) (Figura 1), sendo desnecessária sua moagem. Além destes, para a compostagem é necessária também a inclusão de um substrato vegetal, o qual servirá primordialmente como agente estruturante das composteiras. Existem muitas possibilidades de substratos vegetais, como por exemplo, poda de árvores, serragem, cascas e palhas de grãos (p. ex. arroz, amendoim, milho), que não precisam estar secos para serem utilizados, pois a umidade desses materiais contribui de forma significativa para o bom andamento do processo de compostagem.

Os resíduos de animais servem como fornecedores de um nutriente importante, o nitrogênio, enquanto os resíduos vegetais são fontes principais de carbono. Assim, é importante saber ao menos a relação carbono: nitrogênio (C: N) dos materiais que estão sendo utilizados, dado que auxiliará no planejamento dos manejos a serem feitos nas composteiras. Por exemplo, a relação C: N de resíduos de animais aquáticos (carcaças de peixes, camarões e rãs) pode variar entre 5,0 e 6,5, enquanto a serragem e a casca de amendoim possuem relações C: N de 257,9 e 38,4, respectivamente. Com isso, é possível planejar a relação C: N inicial de uma composteira no momento da montagem.

Em diversos materiais didáticos é possível encontrar recomendações para a montagem de leiras com a relação C: N inicial de 30: 1, ou seja, 30 partes de carbono para 1 parte de nitrogênio (Inácio e Miller, 2009). No entanto, o cálculo dessas proporções não se enquadra para todos os tipos de resíduos existentes, como no caso da compostagem com resíduos de animais aquáticos, na qual é muito difícil atingir esse critério, mesmo sabendo a quantidade de C e N dos resíduos utilizados. Mesmo assim, é possível trabalhar com proporções específicas de resíduos de animais e vegetais e verificar o andamento normal do processo de compostagem, obtendo-se um composto orgânico de boa qualidade (Lopes et al., 2017).

Com o passar dos anos, fomos aprimorando os métodos de compostagem de animais e estabelecendo procedimentos essenciais, como a necessidade de altura mínima da leira de 55 cm para a temperatura atingir os valores recomendados, de revolvimentos periódicos e da manutenção da umidade no interior da composteira. Um dos aprendizados mais importantes foi que a relação C: N é de difícil equilíbrio. Contudo, vale destacar que apesar das dificuldades, o andamento da compostagem depende significativamente do “olho” do responsável pelo manejo, pois a cada dia surgem problemas novos, sem procedência, e que devem ser resolvidos prontamente. Tratando-se da compostagem orgânica, não há melhor aprendizado do que colocar a mão na massa e acompanhar o processo com seriedade. O acompanhamento de uma composteira deve ser feito diariamente, quanto à:

  • Temperatura;
  • Aspecto da pilha (exposição de carcaças ou vazamento de chorume); e
  • Umidade dos materiais dispostos.

A temperatura pode ser verificada com a inserção de um vergalhão de ferro no interior da composteira, o qual deverá estar quente após a inserção. Já a exposição de carcaças e o vazamento de chorume devem ser evitados, adicionando mais substrato caso necessário. O parâmetro mais difícil de manter em níveis adequados, sem o uso de equipamentos específicos é a umidade, a qual dependerá muito do olho do observador (Figura 2).

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Uma composteira com baixa umidade possui grande quantidade de pó, o qual é levantado no ar quando se revolve a pilha, enquanto materiais úmidos não causam esse fenômeno. Além disso, é perceptível quando o material está úmido pelo seu aspecto geral, mas essa percepção só é obtida com o tempo. A umidade da composteira estará visualmente acima dos níveis recomendados (acima de 60%) quando a temperatura não atingir altos níveis (próximos a 65 °C) no primeiro ou segundo dia após a montagem da mesma, ou quando for perceptível um excesso de chorume sendo gerado na pilha. Para evitar o vazamento excessivo de chorume e o excesso de umidade, é recomendada a adição de mais substrato na composteira, até que esses eventos parem de ocorrer. Vale ressaltar que a temperatura no interior da leira estável com a temperatura ambiente, é o indicativo de que a compostagem está finalizada, desde que os manejos periódicos tenham sido realizados corretamente.

 Aplicação do composto orgânico no solo

Compostos orgânicos de carcaças de animais podem ter uso direto, puros ou em mistura com outros materiais, para composição de substratos utilizados na produção de mudas de espécies frutíferas e ornamentais, que já são mercados consumidores de compostos orgânicos. Além do uso direto, os compostos podem ser aplicados no solo.

A composição do composto depende da combinação dos materiais utilizados, entretanto, compostos produzidos a partir de carcaças de peixes são, de modo geral, ricos em nitrogênio e fósforo. Uma característica obrigatória do composto é que ele deve apresentar relação C: N menor do que 20. A aplicação e incorporação ao solo de materiais ricos em carbono e pobres em nitrogênio (com alta relação C: N) não é recomendável, pois no processo de transformação do composto aplicado pode haver consumo do nitrogênio mineral do solo por microrganismos, o que pode resultar em deficiência temporária de nitrogênio para as plantas e perda de produtividade. No entanto, obedecendo aos princípios da compostagem e fazendo manejo adequado do produto no solo, a aplicação de compostos é altamente benéfica não só pelo fornecimento de nutrientes às plantas, mas pelo potencial de aumento do teor de matéria orgânica do solo. Aumentar o teor de matéria orgânica do solo não é um processo fácil, mas quando ocorre, o solo ganha qualidade: melhora a estrutura e a capacidade de armazenar água e nutrientes, o que é extremamente importante para manter e melhorar a produtividade das culturas.

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 Conclusão

A compostagem dos animais mortos, além de resolver o problema da destinação do resíduo, pode, com algum investimento, resultar em um produto que permite reciclar nutrientes e melhorar a qualidade do solo, com geração de renda extra para o aquicultor.