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Aquicultura ornamental de água doce – Parte II

Aquicultura ornamental de água doce – Parte II
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Prof. Dr. Leopoldo Melo Barreto
Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB)
leopoldo.barreto@ufrb.edu.br
 
Prof. Dr. Fabrício Menezes Ramos
Instituto Federal do Pará (IFPA)
fabricio.ramos@ifpa.edu.br

No artigo anterior provocamos a curiosidade sobre a aquicultura ornamental, e agora iremos falar um pouco sobre as estruturas de cultivo utilizadas, as estratégias reprodutivas e pincelar sobre qualidade de água, pois sabemos que os peixes são diretamente influenciados por parâmetros bióticos e abióticos, os quais devem estar ajustados para a espécie, assim levando-os ao ápice biológico, a reprodução.

Estruturas de cultivo

A produção de peixes ornamentais pode ser realizada em diversos tipos de estruturas (viveiros, tanques e aquários) e diferentes condições de manejo. O valor intrínseco da espécie alvo é que irá determinar o nível de intensificação. Assim, o bom senso e experiência do produtor (contratar consultoria se necessário) devem orientar na projeção e construção da estrutura, reduzindo os custos de implantação, fornecendo condições de bem-estar aos peixes e facilitando as rotinas operacionais.

Os viveiros se destacam na produção comercial de peixes ornamentais por serem a estrutura mais utilizada (Vidal Junior, 2006). São depressões naturais no terreno, reservatórios escavados ou elevados na terra, possuindo abastecimento e drenagem de água individualizado (Oliveira, 2013). Têm como principal vantagem o baixo custo de construção. Por outro lado, apresentam dificuldade no manejo da água e dos peixes, assim empregados mais na produção de peixes de baixo valor comercial, baixo padrão genético e baixa exigência nos cuidados, como os Poecilídeos (Espada e platy – Xiphophorus spp., guppy e molinesia – Poecilia spp.), Cyprinídeos (Barbos – Barbus ssp. / Barbonymus ssp. / Puntius ssp., carpas – Cyprinus carpio, kinguios – Carassius auratus e paulistinha – Danio rerio) e alguns Ciclídeos, como o acará bandeira (Pterophyllum scalare).

Outras estruturas comumente utilizadas são tanques, que diferem de viveiros por serem revestidos e não haver contato com o solo. Exemplo clássico são caixas plásticas ou de fibra e piscinas de lonas ou manta. Essas estruturas suportam cultivos mais intensivos, pois há maior controle da qualidade de água e facilidade na despesca. Até o maior custo inicial, fator que poderia ser levado em consideração, é afiançado pela alta produtividade por área. De forma análoga, havendo melhor controle na produção, podemos seguramente produzir peixes de alto valor agregado, como kinguios e guppy’s de alto padrão, Anabantídeos (peixe de briga – Betta splendens) e Ciclídeos de forma geral.

“Trabalhos recentes, como o de Fujimoto e colaboradores (2014), mostram redução nos custos de produção de aquários, em torno de 62%, utilizando o piso cerâmico nas laterais e fundo do aquário.”

Os aquários, construídos com placas de vidro ou acrílicos, são também utilizados como unidades reprodutivas. Trabalhos recentes, como o de Fujimoto e colaboradores (2014), mostram redução nos custos de produção de aquários, em torno de 62%, utilizando o piso cerâmico nas laterais e fundo do aquário (Figura 1). Os aquários facilitam a observação do comportamento reprodutivo dos espécimes e promovem o controle das condições ambientais. O acará disco (Symphysodon sp.) é um forte candidato para reprodução em aquários, inclusive mantendo-se nessa estrutura na fase de crescimento até o momento da venda.

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Quaisquer das estruturas devem fornecer aos peixes boas condições para sua manutenção, pois nenhum animal poderá expressar seu desenvolvimento e reprodução em condições estressantes (Galhardo; Oliveira, 2006). Desta forma, conhecer e compreender os processos que determinam a reprodução dos animais é parte primordial no sucesso de qualquer cultivo.

Estratégias reprodutivas:

Os peixes desenvolveram diversas formas de reprodução que são divididas basicamente em quatro (França, 2007):

(1) ovulíparos;

(2) ovíparos;

(3) ovovivíparos;

(4) vivíparos.

  1. Nos ovulíparos a fecundação é externa, machos e fêmeas soltam seus gametas (óvulos e espermatozoides) na água. Após a fecundação os ovos são levados pela correnteza na maioria das espécies de piracema, como tambaqui – Colossoma macropomum e piau – Leporinus spp., ou podem ficar aderidos à superfície sem o cuidado dos pais (cuidado parental), como nas carpas e kinguios, ou ainda ficarem aderidos às superfícies, como na maioria dos Ciclídeos (Acará bandeira e disco), os quais praticam o cuidado parental.
  2. Quando as fêmeas liberam ao meio os ovos após fecundação interna, são denominados de ovíparos. Pode ser observado em algumas espécies de tubarões e raias (Condrictes). Neste os embriões desenvolvem-se dentro dos ovos, mas fora do corpo da mãe, e se nutrem das reservas presentes no ovo.
  3. Nos ovovivíparos o desenvolvimento embrionário é realizado dentro do corpo materno, se alimentando apenas da reserva nutritiva existente no ovo, sem nenhuma ligação com a progenitora. Após o desenvolvimento eclodem no oviduto da fêmea e são expelidos ao meio já como alevinos. Estratégia encontrada comumente nos Poecilídeos (Guppys, Lebistes, Platis, etc).
  4. Já nos peixes vivíparos os embriões se desenvolvem dentro do corpo da mãe, dentro de uma placenta com os nutrientes essenciais para seu desenvolvimento. O representante mais conhecido deste grupo é o tralhoto (Anableps sp.), porém sem muito interesse para aquicultura ornamental, a não ser pelo fato de possuir a córnea dividida em duas, parecendo assim ter quatro olhos.

Dimorfismo sexual

Para reprodução é necessário, muitas vezes, reconhecer o macho e a fêmea (dimorfismo sexual), logo formar casais ou grupos reprodutivos, principalmente quando se pretende realizar um trabalho de melhoramento genético. A observação das características morfológicas em exemplares maduros sexualmente geralmente fornece evidências para este procedimento. Os machos dos ovovivíparos apresentam um órgão copulador denominado gonopódio. Nos Condrictes este órgão é denominado de clásper. Os tetras machos (Ex. mato grosso – Hyphessobrycon spp., e neon – Paracheirodon spp.) apresentam espículas na nadadeira anal. Já nas carpas e kinguios, além da nadadeira anal, os machos apresentam espículas na nadadeira peitoral e nos opérculos, bem destacados na fase reprodutiva. Os Ciclídeos, de forma geral, apresentam um aumento na porção frontal da cabeça nos machos por deposição de gordura. Nos cascudos ou acaris (Loricarídeos) o dimorfismo sexual é realizado pela observação de espículas (odontódeos) na nadadeira peitoral e/ou no opérculo e prolongamentos de escamas em machos de Baryancistrus spp., Hypancistrus spp. e Peckoltia spp., por exemplo. Nos Ancistrus spp. o macho apresenta tentáculos próximos aos olhos e boca, em maior quantidade, e mais alongados do que nas fêmeas.

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Geralmente os machos em peixes ornamentais são mais coloridos e com padrões corporais mais chamativos, como destacado na família Rivulidae (Killifi shes). Quando o dimorfismo sexual não é evidente, como em acarás bandeiras, discos e peixe folha, a melhor estratégia é a disposição de vários exemplares maduros em aquários ou tanques para a formação de casais e posterior separação destes.

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Outra questão importante no processo reprodutivo é o conhecimento da biologia da espécie, inclusive sobre os fatores abióticos (temperatura, pH, salinidade, condutividade, dureza carbonatada, etc.) que regulam a maturação sexual, logo a reprodução. Sem a representação fiel desses parâmetros, não importa a estrutura de cultivo ou o tipo de alimento, dificilmente haverá reprodução.

Aquicultura ornamental, por onde começar?

Se o leitor nos perguntar: Qual a família de peixe é mais fácil para iniciar um cultivo? Com certeza, respondendo de forma simplificada, proporíamos os Poecilídeos (Lebiste, barrigudinho, etc) por possuírem fácil dimorfismo sexual, cores vibrantes, desejadas pelos aquaristas, protocolo reprodutivo simples e bem definido e sem fase larval. Assim, seria a primeira família a indicarmos para o empreendedor iniciante que deseja empregar pouco capital e, mesmo tendo pequeno retorno, conseguir pagar os custos de produção, escolhendo as variedades corretas e estudando o mercado consumidor da região.

Para desfechar, no próximo (e último artigo desta série) abordaremos estratégias de alimentação para larvas e matrizes, citaremos estratégias para o bom crescimento de algumas espécies, levando-as até o momento da comercialização, tema que também será comentado, incluindo as dicas de transporte, do produtor ao consumidor. Até breve!