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Construções de viveiros para piscicultura comercial – Parte II

Construções de viveiros para piscicultura comercial – Parte II
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Prof. Dr. Carlos Eduardo Zacarkim
Programa de Pós-graduação em Aquicultura e Desenvolvimento Sustentável
Coordenador do Curso de Engenharia de Aquicultura
Universidade Federal do Paraná – UFPR/Setor Palotina
zacarkim@ufpr.br

 

Para além do problema da demanda hídrica de um projeto, conforme visto no artigo publicado na sexta edição desta revista (mai/jun 2017), alguns princípios construtivos devem ser observados no processo de planejamento para a construção de viveiros para piscicultura comercial intensiva. Sendo alguns:

  • Escolha do local adequado;
  • Layout a ser empregado;
  • Tamanho, formato e profundidade dos viveiros;
  • Despesca; e
  • Movimentação de terra na construção dos mesmos.

Neste sentido, este artigo apresentará alguns aspectos considerados relevantes a respeito da escolha do local para construção de viveiros de uma piscicultura comercial intensiva.

Escolha do local

A escolha do local adequado para construção dos viveiros é um dos principais itens a ser observados no planejamento de qualquer empreendimento, seja ele de pequeno, médio ou grande porte.

Este importante aspecto, apesar de ser relativo, pois nem sempre o melhor lugar para construção será o que estará disponível para execução do empreendimento aquícola, influenciará, entre outros fatores, no sucesso ou fracasso do projeto almejado.

São muitos os casos em que a área favorece, mas restrições construtivas como presença de laje (pedras), solo inadequado e/ou pouco resistente, relevo, oferta de água, restrições ambientais, custo de execução, etc., impossibilitam o engenheiro de executar o empreendimento naquele local, fazendo-o optar por outras áreas.

Desta forma, excluindo as particularidades pontuais de cada área, na escolha do local o profissional deverá estar atendo para pelo menos quatro aspectos relevantes, a citar:

1 – Disponibilidade e qualidade da água:

Conforme já comentado no artigo anterior, a água é o fator limitante de qualquer empreendimento que trabalhe com aquicultura ou processamento de pescado. Considerando que a água tenha qualidade razoável para implantação de um empreendimento, se a disponibilidade na área não atende à demanda hídrica do projeto almejado, o mesmo se torna inviável. Como as perdas por evaporação em viveiros escavados são praticamente impossíveis de controlar, restam duas alternativas ao profissional: redução das perdas de água por infiltração no solo e/ou alteração no manejo adotado.

Neste sentido, as perdas de água por infiltração, apesar de reduzidas com o tempo de cultivo devido a lixiviação de nutrientes e consequente ocupação do índice de vazios (e), não são possíveis de quantificar com precisão. Desta forma, cabe ao profissional minimizar as perdas através da melhor compactação durante os processos de construção ou adotando geomembranas.

Com relação a alteração no manejo adotado, pode-se utilizar a diminuição da estocagem nos viveiros (peixes/m2 ou peixes/m3 ) para aparente melhora na qualidade de água, utilização de profiláticos e corretores da qualidade de água ou mesmo adotando sistemas que promovam a recirculação, com bombas e filtros que possibilitem o reuso da água no sistema. O profissional poderá também buscar fontes alternativas de água, como implantação de bombeamentos em corpos hídricos de maior porte, dependendo da distância, derivação ou bombeamentos em propriedades vizinhas e/ ou utilização de poços, desde que devidamente autorizados e com anuência do órgão ambiental legal.

Independente da alternativa a ser adotada deve-se observar que empregando qualquer medida paliativa, a redução da demanda hídrica terá um custo a ser contabilizado no projeto, seja pelo aumento da energia elétrica devido a instalação de bombas, gastos com máquinas para melhor compactação do solo, uso de profiláticos ou redução da lucratividade pela diminuição da densidade de estocagem.

2 – Terreno suave ondulado:

Terrenos que possuam declividade entre 2 a 6%, isto é, 2 a 6 metros de desnível a cada 100 metros de comprimento, são ideais para construção de viveiros. Em geral, este tipo de topografia indica solos transportados (aluviais ou eluviais), profundos e sem risco aparente de pedras (lajes), além de estarem, por conta da sua própria formação, em regiões de altitude (cota) mais baixa, o que possibilita na maior parte dos casos, água por declividade (derivação).

Terrenos demasiadamente plainos, apesar de aparentemente serem melhores de trabalhar, o gasto com movimentação de terra é maior, comparado com terrenos levemente inclinados, pois a relação corte/aterro é otimizada. Nestes casos, a quantidade de material utilizada no corte, excetuando a limpeza da área, será a quantidade de material utilizada na construção no talude.

Desta forma, desde que bem planejado, a movimentação de terra será mínima, sendo trabalhada no próprio raio de atuação da máquina durante a construção (Figura 1).

Para terrenos demasiadamente plainos, apesar de não serem ruins para construção, deve-se observar alguns aspectos importantes com relação a execução do projeto. Por exemplo, a relação de corte/aterro, que deve ser de tal forma que o material retirado terá de ser o mesmo utilizado na construção dos taludes. Em geral, os viveiros são constituídos no sistema semi-escavado, ou seja, se corta uma parte suficiente para aterrar parte do talude. Neste caso, deve-se considerar dois aspectos importantes, a cota de captação de água e a cota zero, também chamada de cota limite para a despesca (Figura 2).

Como será cortado uma parte do terreno e “levantada” outra parte, corre-se o risco da parte cortada ficar na cota inferior ao nível do próprio terreno e, neste caso, haverá problemas para realizar a despesca nos viveiros. Outra situação recorrente nesses casos é a da cota da captação de água dos viveiros impossibilitar a execução do projeto proposto, visto que se “levantou” o perfil do terreno para atender a relação corte/aterro.

Assim, tanto no primeiro caso como no segundo, na tentativa de solucionar o problema da despesca ou da captação de água, a relação do custo de máquinas relativas ao corte/aterro irá aumentar, uma vez que ou se cortará mais do que o necessário para os taludes e o excesso de terra deverá ser destinado a outro terreno, ou por trazer terra de outro local para o aterro, visto que não se pode cortar o terreno para viabilizar a despesca.

Além disso, terrenos com inclinações maiores que 6% podem ser viabilizados, entretanto, a relação de corte/aterro será maior e, consequentemente o custo da execução também será mais alto, cabendo ao profissional quantificar a relação custo do empreendimento e tempo de retorno do projeto planejado para o mesmo.

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© Carlos Eduardo Zacarkim

3 – Mercado foco:

Unidades de processamento de pescado em geral possuem raio de atuação não superior a 100 km, portanto, empreendimentos que visam o mercado de engorda para abate em frigoríficos, antes de ser executado, o produtor ou o engenheiro deverá consultar a demanda existente com relação a distância do empreendimento, exigências legais, técnicas e de projeto requeridas pelo abatedouro na qual se pretende entregar o pescado.

Conforme já comentado, viveiros destinados ao cultivo intensivo de peixes devem atender as demandas específicas relativas ao tamanho, controle, prevenção de doenças, manejo e padronização necessários a obtenção da uniformidade dos lotes de peixes demandados pelas unidades de processamento, que por sua vez, não sendo atendidas, podem inviabilizar a comercialização ou o sistema de integração comumente proposto pelos abatedouros. Caso o mercado pretendido seja a produção de alevinos/juvenis cabe o levantamento prévio da demanda local, se este está localizado próximo a insumos, equipamentos e ao próprio público a quem será destinada a produção.

4 – Acesso as benfeitorias:

Em nada adianta construir um excelente projeto, bem planejado, com todas as questões técnicas e legais atendidas e não ter acesso rodoviário ao mesmo ou energia elétrica trifásica disponível. Elevadas distâncias em estradas rurais não cascalhadas ou que impossibilitem o escoamento da produção, assim como a ausência da energia elétrica local, podem inviabilizar o andamento do projeto. A simples mudança de padrão, monofásico para trifásico ou a transferência de uma rede elétrica para atender as necessidades do projeto planejado, dependendo do porte do empreendimento, podem ser responsáveis por 5 a 20% do custo total da obra.

Não são raros os casos em que a simples mudança do layout do empreendimento visando atender acessos rodoviários para facilitar a despesca ou se utilizar de redes elétricas já instaladas, podem gerar reduções significativa no custo total do projeto.

Desta forma, a escolha do local está na etapa de planejamento de um empreendimento, onde o produtor ou engenheiro responsável deverá estar atento as limitações e condicionantes impostos em cada área, devendo não apenas ser consideradas as necessidades produtivas que se pretende obter, mas também o custo geral de implantação deste projeto, considerando ao menos, a demanda hídrica, perfil do terreno, mercado foco e utilização e acesso a benfeitorias já existentes.

Para o próximo artigo iremos abordar as questões relativas ao layout, tamanho e formato, profundidade dos viveiros, questões de despesca e movimentação de terra para construção.


© Carlos Eduardo Zacarkim