Principal Colunas Peixe voador (Hirundichthys affinis) – espécie desvalorizada com grande potencial

Peixe voador (Hirundichthys affinis) – espécie desvalorizada com grande potencial

Peixe voador (Hirundichthys affinis) – espécie desvalorizada com grande potencial
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Os peixes-voadores, pertencentes à família Exocoetidae, estão amplamente distribuídos em águas tropicais e subtropicais, são epipelágicos e habitam as águas superficiais de oceanos abertos. As nadadeiras peitorais expandidas lhes permitem emergir rapidamente da água e planar por longas distâncias, estando este comportamento relacionado com sua fuga quando atacado por predadores. No Oceano Atlântico são encontrados oito gêneros da família, sendo seis deles encontrados no Brasil. Entre as espécies que ocorrem no Brasil, Cypselurus cyanopterus e Hirundichthys affinis merecem destaque por serem as mais abundantes.

O peixe-voador, Hirundichthys affinis apresenta corpo alongado com a nadadeira peitoral bastante longa (60% a 70% do comprimento padrão), com apenas o primeiro raio não ramificado. As nadadeiras pélvicas são longas e alcançam além da origem da nadadeira anal. A coloração apresenta-se escura dorsalmente e clara ventralmente. A nadadeira caudal é uniformemente cinza com traços pretos e as nadadeiras peitorais são de cor cinza escuro com um triângulo basal claro e uma margem estreita branca.

O peixe-voador é explorado comercialmente apenas no estado do Rio Grande do Norte, sendo sua pesca a principal atividade econômica de alguns núcleos de pesca artesanal, como em Diogo Lopes, mas principalmente no município de Caiçara do Norte onde é realizada durante o ano todo, com maiores capturas entre os meses de abril e agosto, correspondendo ao pico da desova da espécie.

Os pescadores da Colônia de Pescadores Z-1 em Caiçara do Norte (RN) reclamam do preço do peixe-voador que é muito baixo, e os mesmos já não pensam mais em pesca-lo, uma vez que falta comprador (embarcações podem chegar do mar com a produção de 10 a 14 mil peixes). Por isto, no período da safra o preço cai bastante chegando a R$ 50,00/milheiro, e na entressafra conseguem comercializar por até R$ 130,00/milheiro.

No entanto, não é por falta de oportunidades em se aproveitar o peixe voador, no desenvolvimento de novos produtos, além daqueles tradicionais (salgado) que já fazem. Na década de 70 (agosto/1971), o Prof. Dr. Masayoshi Ogawa, da Universidade Federal do Ceará (UFC, Fortaleza, CE) desenvolveu um excelente trabalho visando o aproveitamento integral do peixe-voador, em face da potencialidade para incremento das capturas na região de Caiçara do Norte (RN) e do processamento “primitivo” ao qual eram submetidos os peixes voadores. O trabalho foi desenvolvido mediante processos industriais tradicionais e houve, na época, uma preocupação em adaptar a tecnologia já existente na região. Os processos envolvidos foram salga seca, salga úmida, defumação, sucedâneo de caviar e ova seca.

Em 2017, após 46 anos, ainda não existe diversidade de produtos com o peixe-voador. Tradicionalmente este é comercializado, por unidade (inteiro) ou processado (eviscerado e descamado). Alguns consumidores pedem para filetar e outros ainda compram somente as suas ovas. Dentre as formas de produtos desenvolvidas pela comunidade, destaca-se o peixe salgado-seco (ao sol), sem nenhum conhecimento de Boas Práticas de Fabricação (BPF) e Higiene (BPH), o que causa grande preocupação.

Iniciativas já foram realizadas nos últimos dois anos, via SEBRAE/RN e Unidade Acadêmica Especializada em Ciências Agrárias da Escola Agrícola de Jundiaí (EAJ/UFRN) sob a coordenação do Prof. Dr. Rodrigo Antonio Ponce de Leon Ferreira de Carvalho, na qual confirmaram que essa espécie tem um grande potencial no desenvolvimento de novos produtos.

No Laboratório de Tecnologia e Controle de Qualidade do Pescado (LAPESC/UFERSA) já iniciamos um estudo preliminar para a análise de rendimento em cortes e verificou-se que essa espécie possui características intrínsecas positivas para seu aproveitamento em diversos produtos (inteiro eviscerado temperado, inteiro eviscerado/descabeçado temperado, filés com pele, filés sem pele, espalmado, postas, salgado seco, salgado úmido, marinado, defumado, fermentado (aliche), empanados, em conservas (enlatado), o aproveitamento integral para produção de carne mecanicamente separada (CMS – já desenvolvida pelo Dr. Rodrigo Carvalho da EAJ/UFRN) para produção de produtos reestruturados (bolinhos, hambúrguer, nuggets, linguiça, salsicha, patê, etc.) e o resíduo do seu processamento em subprodutos, como a farinha, silagem, aproveitamento das ovas, e quiçá o curtimento da pele.

Finalizando e vislumbrado com o grande potencial que essa espécie desempenha no desenvolvimento de novos produtos, o aproveitamento integral dessa espécie, que hoje está sendo desvalorizada, certamente vai oferecer a opção de atender a demanda dos consumidores e pescadores artesanais por produtos de alta qualidade, bem como atender a demanda nacional e local no que se refere a formação de mão de obra especializada (pescadores e processadores artesanais), e a oportunidade para alunos de graduação e pós-graduação ingressarem na área pouco investida, como a de Tecnologia do Pescado.